TOCA DO LEÃO

Um louco contra a ditadura

João Pessoa, como toda cidade, teve e tem seus doidos, personagens folclóricos, tipos populares que ainda hoje são lembrados. Quem não se lembra de Pão de Bico, Açoite, Vassoura, Tenente da Gelada, Caixa D’água e Mocidade? Pois é do Mocidade que quero falar, depois de ler sua biografia escrita pelo jornalista Gilvan de Brito.

Mocidade apareceu por aqui ninguém sabe de onde. Ele diz que nasceu em Sousa, mas ninguém jamais conheceu um seu parente. Sabe-se que desde 1937, Mocidade já andava pelas ruas de João Pessoa como garoto de rua. Em 1944, ele era lavador de carros no Ponto de Cem Réis. No ano seguinte, podia ser encontrado nos palanques e bancos de praça, defendendo a legalidade contra o nazismo e o fascismo. Virou tribuno do povo. Onde tivesse gente e um banquinho, Mocidade mandava ver o verbo.

E foi assim até morrer, em 1981. Esbravejou contra o Estado Novo de Getúlio Vargas, lutou pela redemocratização na Segunda República e combateu os militares na fase negra da ditadura castrense. Ficou famoso, pois, mesmo analfabeto, aprendeu a discursar com a garra e o lirismo de oradores do naipe de Alcides Carneiro e outros políticos, de quem absorveu o estilo. O povo dizia que Mocidade falava melhor do que todos os deputados da Assembleia Legislativa. Começava seus discursos com a frase: “Mocidade de minha terra!”… Daí o apelido.

Mocidade dizia se chamar João da Costa e Silva. Depois, descobriu-se que o verdadeiro nome dele era João Silva da Costa. Perguntado se era parente do general Costa e Silva, Mocidade despistava: “ele anda espalhando que é meu parente, mas não dou certeza”. As peripécias de Mocidade estão no livro “O Anjo Torto”, de Gilvan de Brito, publicado em 1985. Vivia entre os políticos, era amigo do governador João Agripino, mas sempre com o espírito de rebeldia contra os poderosos, sempre em defesa das causas populares.

Dizem que todo louco é um gênio enrustido. Mocidade era assim, um sujeito sem boa saúde mental, mas altamente criativo e inteligente. Vivia nos palanques dos políticos e, nos momentos de crise, entre os loucos dos pavilhões psiquiátricos. Seu tema era sempre a democracia, os ideais de liberdade. Na ditadura, quando todo mundo morria de medo da repressão brutal dos militares, Mocidade ia para as ruas meter o pau nos gorilas e outros tiranos civis. Pela coragem, era identificado com a opinião pública. Segundo o historiador José Octávio de Arruda Melo, ele chegou, em determinado momento da vida da cidade, a representar a consciência do povo paraibano.

Sempre presente nos comícios, festas cívicas ou atos de protesto, Mocidade estranhou o silêncio da cidade no dia 13 de dezembro de 1968, quando o governo baixou o Ato Institucional nº 5, que deu aos militares poderes ilimitados para agir de acordo com seus interesses e reprimir o povo brasileiro. Sem ambiente para protestar no centro da cidade, Mocidade foi para a Lagoa e subiu num banco da praça, fazendo um dos mais violentos discursos de que se tem notícia, criticando os militares e o AI-5. Depois, correu para se esconder na Praça do Bispo que se encontrava no escuro. A polícia andou atrás dele, sem encontrar. No dia seguinte, o comentário no Ponto de Cem Réis era o protesto solitário de Mocidade, substituindo a ação que deveria ter sido feita pelos políticos de oposição, naquele momento escondidos com medo das garras ferozes dos militares golpistas.

No auge da ditadura, fins da década de 60, a polícia baixou o pau nos estudantes que protestavam no parque Solon de Lucena. Indignado diante da violência policial, Mocidade subiu num banco de pedra e discursou, ironizando os militares. Uma frase desse discurso: as medalhas dos generais valiam tanto para ele como as tampinhas de Coca-Cola, símbolo do imperialismo americano sobre o Brasil. “Isso é um Exército desmoralizado! Onde já se viu bater em estudante? A única vitória que conquistou foi na Guerra do Paraguai, combatendo os meninos paraguaios, que só tinham pedra e cacete”, vociferava Mocidade. Desta vez não conseguiu escapar da prisão, onde passou alguns dias.

Mocidade foi preso muitas vezes, depois de discursar criticando as “autoridades”. Simbolizava independência e liberdade, e sempre foi uma grande figura humana. “Na verdade, Mocidade é o próprio povo paraibano, as suas angústias, sua incoerência, suas frustrações…” admite Gilvan de Brito. Em uma rara entrevista, Mocidade abriu seu coração:

− O povo vive alienado. Não participa. Eu participo. Eu sou o povo. Sou eu quem grita em praça pública contra as injustiças, as misérias sociais, a exploração. E sou eu também quem sofre as consequências, quem vai preso, quem paga pelo povo.

− Quantas prisões, Mocidade?

− Cada discurso, uma cadeia…

Uma frase famosa de Mocidade: “Na Paraíba, pra ser doido precisa ter juízo”.

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Fábio Mozart

Fábio Mozart transita por várias artes. No jornalismo, fundou em 1970 o “Jornal Alvorada” em Itabaiana, com o slogan: “Aqui vendem-se espaço, não ideias”. Depois de prisões e processos por contestar o status quo vigente no regime de exceção, ainda fundou os jornais “Folha de Sapé”, “O Monitor Maçônico” e “Tribuna do Vale”, este último que circulou em 12 cidades do Vale do Paraíba. Autor teatral, militante do movimento de rádios livres e comunitária, poeta e cronista. Atualmente assina coluna no jornal “A União” e ancora programa semanal na Rádio Tabajara da Paraíba.

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