TOCA DO LEÃO

Meu barco é pequeno e grande é o mar

Eu, aos dez anos de idade, cantava esse corinho na Igreja Batista, as primeiras viagens no mundo da música, da fé e da sexualidade, porque o garoto sapeca que fui já andava de olho nas barras das saias das menininhas bonitinhas da escola dominical. E lá se foram meus verdes anos, junto com minha fé e tudo o mais que se perde pela vida afora.

O mar da vida. Esse marzão que a gente tenta heroicamente desconstruir, e ele construindo nosso funeral. Nesse instante, penso no pensamento de Confúcio, aquele chinês que não deixou nenhuma obra escrita, mas é citado com a mesma intensidade com que a turma do Facebook cita Clarice Lispector, a torto e a direito, mais torto do que direito: “Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar onde quiser.” Vai ver, Confúcio jamais navegou e nem tinha conta no Facebook.  Esse mestre oriental entra na minha crônica de hoje como Pilatos entrou no credo. Sim, e o que significa essa expressão? O que tem Pilatos com o credo? Confesso que ignoro, mesmo porque o assunto aqui é mar, e o meu não está pra peixe.

É que ando cheio de achaques da meia idade, o barquinho tomando água, o mar encapelado e o farol apagado. Levado para um centro holístico de tratamento da mulher, confesso que fui com forte incômodo no meu lado macho. Lá, passei a ser submetido ao método bioenergético para diagnosticar meus males do corpo e da mente. Fiquei sabendo que minhas vísceras estão mais ou menos sadias, precisando de um reforço geral à base de argila, ervas, massagens e experiências somáticas para derreter uns pepinos orgânicos. Sem descuidar dos procedimentos médicos tradicionais, resolvi seguir o tratamento alternativo, porque “meu barco é pequeno e grande é o mar” dos segredos da Natureza. Não sei se estou preparado para tratar e modificar meus hábitos mentais e emocionais, capitão que sou de uma embarcação fragmentada e linear. Entretanto, para quem está perdido, qualquer vereda é caminho, como já dizia não sei quem. Nesse grande mar da Natureza e suas leis, resolvi conduzir meu barquinho com a humildade dos ignorantes e fugir do estigma dos que em nada acreditam, porque o marinheiro solitário em plena procela tem que ter fé naquele farol tremeluzente no horizonte sombrio. E nesse oceano tempestuoso da pandemia, “durante o nevoeiro é melhor levar o barco devagar”, conforme canta Paulinho da Viola.

Voltando aos meus dez anos, lembro bem das manhãs na nossa casinha humilde na rua do Sapo em Timbaúba, onde ouvia diariamente pelo rádio o programa do famoso astrólogo Omar Cardoso e o pensamento positivo com que abria seu programa: “Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor!” Meus níveis energéticos precisam dessa injeção de ânimo.

Torquato Neto também me socorre com seus versos para dar alguma luz ao barquinho avariado e sem rumo: “E quando eu me vi sozinho/Vi que não entendia nada/nem de porque eu ia indo/nem dos sonhos que eu sonhava

EM TEMPO – Estou lançando meu livro “Poemas malditos em prosa, verso, gesto e grito”, reunindo 200 micro poemas para comemorar meio século de jornalismo e poesia. Custa apenas R$ 10 reais. No distante 1970, o autor lançou seu livro artesanal “Lira desvairada” em mimeógrafo. Desde então, vários foram os projetos poéticos compartilhados com o restrito público leitor. Pedidos pelo e-mail mozartpe@gmail.com

 

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Fábio Mozart

Fábio Mozart transita por várias artes. No jornalismo, fundou em 1970 o “Jornal Alvorada” em Itabaiana, com o slogan: “Aqui vendem-se espaço, não ideias”. Depois de prisões e processos por contestar o status quo vigente no regime de exceção, ainda fundou os jornais “Folha de Sapé”, “O Monitor Maçônico” e “Tribuna do Vale”, este último que circulou em 12 cidades do Vale do Paraíba. Autor teatral, militante do movimento de rádios livres e comunitária, poeta e cronista. Atualmente assina coluna no jornal “A União” e ancora programa semanal na Rádio Tabajara da Paraíba.

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