TOCA DO LEÃO

Jornalismo e estética

Ela tem curso superior de Artes Plásticas. A realidade em mutação segue a lógica do vírus. Já não pinta, não produz mais xilos e aquarelas, deixou de lado o fazer artístico. Sem nunca esquecer a essência do belo, travou sua criatividade e técnica. Seu acervo prova que caminhava bem na experimentação e expressão de conceitos estéticos. Por que parou?
Longe desses artistas que se alimentam das suas próprias vaidades, nossa engenhosa criadora está hoje, igual a todos, navegando em “negras nuanças lúgubres e aziagas”, conforme pressagiou Augusto dos Anjos. Nos confinamentos, patéticos senhores e senhoras sem inclinação às artes exibem suas performances, cantando, pintando, declamando, enchendo a paciência nas redes sociais. A verdadeira expressão da arte raramente aparece. Em meio à pressão psicológica e estresse do isolamento, engenhosos pintores e pintoras, gravuristas e escultores estão produzindo a essa hora para fugir do círculo maior da solidão e exteriorizar suas angústias. A nossa artista revê seus antigos trabalhos onde surgia sua identidade, seu estilo, sua marca silenciosa nas peças e quadros. Mas, não se atreve a voltar a criar. Por que?
Dona Renata Cortez informa ao mundo no seu blog esse importantíssimo comunicado: “Deixei de pintar as unhas porque sou ativista ambiental e o esmalte da tinta carrega 800 tipos de compostos químicos tóxicos”. Cada um enxerga a realidade pela sua perspectiva pessoal. Sei que até uma pintura de unha pode mudar a vida das pessoas. Quem pinta unhas artísticas também pode ser um criador, deixemos de preconceito.
Hoje é dia do jornalista. Lembrei da minha artista visual e decidi escrever essa crônica ao ler que o jornalista Ricardo Munhoz passou vinte anos trabalhando na sua profissão e, de repente, apaixonou-se pelas artes, abandonou as redações e virou artista plástico. Começou pintando como hobby, agora expõe no mundo todo. Confesso que às vezes me dá uma febre de pegar pincéis e lápis e conceber alguma coisa. Mas, percebo que me falta aquilo que mudou a vida do jornalista: talento, que é como o fogo de Deus impresso nas tábuas de Moisés. Ninguém pega, ninguém desmancha nem arremeda.
De certa forma, o jornalismo parece estar ligado ao processo de estagnação dessa artista visual. Revelou um dia que parou de pintar porque sofreu crítica de alguém, talvez em material impresso. Acredito que as causas sejam mais profundas. Ninguém abandona esse estimulante jogo que é a criação artística porque alguém julga seu trabalho, não se sabe por quais critérios. A avaliação talvez tenha sido feita por uma pessoa totalmente insipiente em relação à linguagem dessa expressão artística.
Nossa artista permanece no seu cantinho, lendo nas entrelinhas o terror branco que se espalha no povo, medo de um inimigo invisível, reativo ao menor sinal de aproximação e calor humano. De longe, abraço-a e peço que esqueça as apreciações apressadas, inclusive minhas, e volte ao trabalho artístico. Igual ao jornalismo, a arte tem sua verdade superior, dependendo de quem manipula essas expressões. Retiro o que disse sobre jornalistas. Não são apenas fofoqueiros profissionais a serviço das oligarquias.

 

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Fábio Mozart

Fábio Mozart transita por várias artes. No jornalismo, fundou em 1970 o “Jornal Alvorada” em Itabaiana, com o slogan: “Aqui vendem-se espaço, não ideias”. Depois de prisões e processos por contestar o status quo vigente no regime de exceção, ainda fundou os jornais “Folha de Sapé”, “O Monitor Maçônico” e “Tribuna do Vale”, este último que circulou em 12 cidades do Vale do Paraíba. Autor teatral, militante do movimento de rádios livres e comunitária, poeta e cronista. Atualmente assina coluna no jornal “A União” e ancora programa semanal na Rádio Tabajara da Paraíba.

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