TOCA DO LEÃO

Histórias de seu Arnaud e sua amada Itabaiana do Norte

Meu pai viveu seus últimos anos nas sombras do glaucoma e na solidão dos que têm seus movimentos tolhidos por acidente vascular cerebral, mas sem perder o humor e a memória fantástica. Assim, o veterano locutor, cronista e cultor do Direito aproveitava os domingos com os filhos para relembrar antigas histórias de sua Itabaiana.

 

Em um desses bate-papos veio um episódio de nossa família, que eu não sabia. Meu avô costumava aconselhar à sua filha única, tia Cícera:

 

— Case com quem quiser, menos com soldado de polícia.

 


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Acontece que, por arte dos pecados contra a castidade e contra os conselhos paternos, ocorreu um crime de morte na cidade Itabaiana do Norte que abalou a sociedade de cima e espalhou brasa na de baixo. Explico: vivia na cidade um rapaz por alcunha Pedro Cabeção, sujeito meio problemático, inimigo de todos os códigos, desde o penal ao de trânsito, de boa família, como se costumava dizer. Era tio de Hugo Saraiva, que depois veio a ser prefeito do lugar, e irmão de Luiz Saraiva, pessoa bastante conceituada na elite local, dono de uma farmácia. Pedro Cabeção vivia amasiado com uma mulher do chamado baixo meretrício. Dessa vida amorosa conturbada adveio um caso de assassinato. Cabeção matou a mulher com um golpe de pino de ferro, daqueles usados para engatar vagões de trem.

 

Minha tia Cícera andou espalhando boatos de que sabia detalhes do relacionamento da vítima com o acusado, motivo pelo qual foi prontamente intimada a comparecer perante o Delegado, comunicação essa lavrada pelo escrivão Pedro Vieira, o qual ainda exercia o ofício de alfaiate e tocador de tuba na Banda 1º de Maio. O soldado Adalberto Ferreira da Cunha foi levar a intimação, ocasião em que se enamorou da testemunha, levando-a ao altar poucos dias depois, para desgosto do meu avô. A família tentou de tudo: clínico geral, psicólogo, psiquiatra, pai de santo, benzedeira, sessão de descarrego etc. E tudo deu em nada. O soldado foi sentar praça no terreiro dos Costa.

 

Graças ao seu modo truculento de ser, o soldado Adalberto foi promovido a cabo, depois sargento, sem saber ler nem escrever corretamente. Naquele tempo, militar era promovido por bravura. O Adalberto era um sujeito bravo desde pequenininho, quando acendia foguetão em rabo de gato e passava pimenta na dentadura da avó.

 

Conforme testemunho do seu cunhado Arnaud Costa, esse sargento Adalberto foi trabalhar como delegado em Serrinha, atual Juripiranga. Em sua casa funcionava a delegacia e o xadrez. Passava as noites surrando presos e, de dia, baixava a lenha na mulher, para não perder o ritmo. Minha tia Cícera não suportou as surras homéricas e largou o sargento, que, com desgosto, foi ser volante nas tropas que andavam caçando remanescentes de cangaceiros no alto sertão da Paraíba. Morreu baleado em Itaporanga, depois de desarmar um sujeito na rua.

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Fábio Mozart

Fábio Mozart transita por várias artes. No jornalismo, fundou em 1970 o “Jornal Alvorada” em Itabaiana, com o slogan: “Aqui vendem-se espaço, não ideias”. Depois de prisões e processos por contestar o status quo vigente no regime de exceção, ainda fundou os jornais “Folha de Sapé”, “O Monitor Maçônico” e “Tribuna do Vale”, este último que circulou em 12 cidades do Vale do Paraíba. Autor teatral, militante do movimento de rádios livres e comunitária, poeta e cronista. Atualmente assina coluna no jornal “A União” e ancora programa semanal na Rádio Tabajara da Paraíba.

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