Mídia & Sociedade

Escatologias midiáticas: Coronavírus

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Desta vez, os personagens não se abrigam numa vila isolada de Florença para fugir da Peste Negra – como narra Boccaccio – mas põem o mundo em quarentena por conta de uma nova ameaça: o Coronavírus.

A forma de anunciar a propagação ameaça à humanidade, como foi a Peste Negra na Idade Média, não é mais difundida em livros ricos em iluminuras, mas sobre as mídias de uma terceira geração, que chamamos de mídias digitais.

Como no Decameron ‘italiano’, um vírus rompe as barreiras dos poderes institucionais e chega a ameaçar razões imanentes e transcendentais tecidas por poderes políticos e religiosos.

A economias se desintegram, a esfera pública se imobiliza, os poderosos não podem nada diante de algo que, ao contrário da Peste Negra, é conhecido por suas origens e efeitos patológicos. Mesmo assim é anunciado com grande temor.

Há uma mudança de paradigmas nas formas de anunciar a endemia, por que ela – no imaginário – nasce como pandemia, uma ameaça a valores éticos e morais, cuja mediação não se dá através do divino, mas das novas tecnologias.

O Coronavírus enfrenta a moral pós-moderna e denuncia a falência dos sistemas peritos que garantiram – na modernidade – resolver todos os problemas de acordo com os preceitos da ciência positivista.

A quebra de certezas e a fragilidade exposta ante o medo da possibilidade do iminente fim do mundo nos leva, em primeiro plano, a uma nova escatologia: a Escatologia midiática.

Nesta Escatologia midiática a preocupação não se dá mais com o fim do mundo, tampouco da humanidade, mas com dois aspectos: 1) coletivização da morte; 2) perda do imediatismo transcendente.

O primeiro estrago causado pelo Coronavírus é a imputação da ideia de que todos vamos morrer – rapidamente. Isto nos levar a perceber que – no sistema Capitalista a privatização da morte e sua transformação em mercadoria estava consolidada e, mesmo a divisão de classe estabelecida pelos funerais começa a ser banalizada.

O Coronavírus retira a morte do domínio da indústria de produção de bens e a devolve ao espaço público, gerando uma sensação de desamparo: morrer como um qualquer.

A morte anunciada na Escatologia midiática volta a desafiar os sistemas de governo, as tecnologias dos poderosos – porque a sociedade de consumo – através do entretenimento – não pode vender mais a ilusão de imortalidade.

Nesse sentindo, podemos refletir sobre o segundo efeito causado pelo anúncio do Coronavírus pelas mídias: a perda do imediatismo transcendental.

Com a iminente ameaça de morte em nível global, os indivíduos deixam de participar ativamente da sociedade de consumo, porque sequer podem ofertar mão de obra para que a engrenagem do sistema econômico funcione sem sopapos.

O consumo conspícuo não admite interrupções – nem mesmo na hora da morte, por isso a ideia de transforma as necrópoles em espaços turísticos, museus.

No imediatismo transcendente, o indivíduo se considera imortal, pois a cada momento são oferecidas sobrevidas através do fetiche das mercadorias e dos sistemas políticos. Mas também se considera signatário de formas de evitar a morte – sobretudo a desconfortável – através de um plano de saúde – um bem cada vez mais acessível aos ricos.

Perder o gozo do imediatismo transcendente – através dos prazeres factuais – é uma das ameaças que faz o Coronavírus à pós-modernidade.

Para a sociedade pós-moderna, a maior violência provocada pelo Coronavírus é: todos vão morrer na pobreza ideológica, teológica e econômica reservada a tudo que se desgasta na terra. Pobre Escatologia midiática.

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Wellington Pereira

Professor Titular da Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Sociologia pela Sorbonne - Paris V

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