O nome de Manoel Gomes voltou aos holofotes, desta vez não por um novo hit viral, mas por uma nova tentativa na política. O artista maranhense, conhecido nacionalmente pela música “Caneta Azul”, anunciou sua filiação ao partido Avante e pretende disputar uma vaga de deputado federal por São Paulo nas próximas eleições.
Não é sua primeira investida. Em 2022, concorreu a deputado estadual no Maranhão e teve pouco mais de 7 mil votos, sem sucesso. Agora, retorna ao cenário político com um discurso direto ao seu público, afirmando que “essa caneta não escreve só canções” e que quer “trabalhar pelo povo”.
A reação nas redes foi imediata. Entre memes, críticas e incredulidade, uma pergunta ganhou força: como alguém assim pode querer ser deputado?
Mas talvez a pergunta mais incômoda seja outra.
O que exatamente diferencia Manoel Gomes de muitos dos que já ocupam cadeiras no Congresso?
A política brasileira, há décadas, convive com uma realidade pouco discutida fora dos bastidores. Em Brasília, decisões importantes passam por espaços restritos, como o Colégio de Líderes, onde um grupo reduzido de parlamentares define o rumo das votações. Enquanto isso, boa parte dos demais deputados atua seguindo orientações partidárias, com pouca participação efetiva na formulação de propostas ou nos debates mais complexos.
Não se trata de um caso isolado. A presença de figuras conhecidas do grande público, vindas do entretenimento, do esporte ou das redes sociais, deixou de ser exceção e passou a compor o chamado “padrão Brasil” nas eleições. Influenciadores digitais, celebridades e nomes populares se multiplicam como candidatos, impulsionados por visibilidade e alcance, muitas vezes sem qualquer preparo político. Em muitos casos, são verdadeiros analfabetos políticos, que se projetam defendendo pautas machistas, misóginas e violentas, alguns com históricos problemáticos, e que se beneficiam da desinformação e das fake news para ganhar seguidores, construir fama e transformar isso em votos.
Nesse contexto, Manoel Gomes não é necessariamente uma ruptura. Ele é, na verdade, a face mais explícita de um modelo que há anos se repete, mas que costuma vir disfarçado.
A diferença talvez esteja na transparência. Enquanto muitos constroem uma imagem técnica ou institucional que não se sustenta na prática, outros já chegam sem filtro. E isso, para o eleitor, causa mais choque do que o próprio sistema.
Diante disso, o debate que surge vai além de um nome específico. Ele convida o eleitor a olhar com mais atenção para quem já está no poder. Quantos projetos foram apresentados? Qual a atuação nas comissões? Como se posicionam nas votações? Como utilizam os recursos públicos?
A candidatura de Manoel Gomes provoca risos, críticas e dúvidas. Mas talvez o maior desconforto esteja no espelho que ela oferece.
O problema pode não ser apenas quem quer entrar.
Mas, principalmente, quem o eleitor insiste em manter lá dentro.
Sérgio Ricardo Santos/Crônica à deriva
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