Os terremotos na Venezuela deixaram mais de 1,4 mil mortos e já são considerados os mais letais da história do país, superando a tragédia de 1967, que provocou 240 vítimas. A dimensão do desastre coloca o episódio entre os grandes abalos sísmicos já registrados na América Latina, embora ainda esteja distante da devastação causada pelo terremoto do Haiti em 2010, segundo o jornal O Globo.
Os dois tremores que atingiram o território venezuelano na quarta-feira (24) elevaram o alerta regional para a vulnerabilidade de países latino-americanos diante de desastres naturais. A tragédia também recolocou em perspectiva episódios históricos que marcaram o continente, com milhares de mortos, cidades destruídas e impactos sociais e econômicos prolongados.
O caso mais devastador da história recente da América Latina ocorreu no Haiti, em 2010. Um terremoto de magnitude 7,0 atingiu Porto Príncipe e deixou cerca de 316 mil mortos. A combinação entre alta densidade populacional, construções frágeis, infraestrutura precária e baixa capacidade de resposta das autoridades agravou o número de vítimas. Os prejuízos chegaram a cerca de US$ 8 bilhões, valor equivalente a quase 120% do Produto Interno Bruto haitiano de 2009.
O desastre haitiano é apontado como o segundo terremoto mais mortal da história mundial, atrás apenas do tremor registrado em Shaanxi, na China, em 1556. Na América Latina, nenhum outro episódio se aproximou desse número de mortes.
Entre os terremotos mais letais da região também está a sequência de abalos que atingiu Equador e Colômbia em 1868. O tremor mais forte, de magnitude 7,7, ocorreu em 16 de agosto e deixou cerca de 70 mil mortos, sendo aproximadamente 40 mil no Equador e 30 mil na Colômbia. A cidade equatoriana de Ibarra foi praticamente destruída.
À época, uma comissão governamental registrou a dimensão da catástrofe: “Em menos de três segundos, Ibarra transformou-se em um grande e lúgubre cemitério. Quase toda a população ficou soterrada sob os escombros de suas próprias casas”.
No Peru, o terremoto de 1970 também entrou para a história como uma das maiores tragédias naturais do continente. O abalo, de magnitude 7,9, desencadeou o deslizamento de terra mais mortal já registrado. Cerca de 80 milhões de metros cúbicos de gelo e rochas desceram de uma montanha a velocidades estimadas em até 335 km/h.
O desastre peruano deixou 66.794 mortos, destruiu as cidades de Yungay e Ranrahirca e desalojou quase 1 milhão de pessoas. Apenas em Yungay, cerca de 19 mil moradores morreram.
Outro episódio de grande proporção ocorreu no Equador, em 1797. Com magnitude estimada em 8,3, o terremoto matou cerca de 40 mil pessoas e provocou deslizamentos de terra em larga escala. Cidades como Quito, Riobamba, Latacunga e Ambato sofreram destruição intensa.
No Chile, o terremoto de Chillán, em 1939, deixou aproximadamente 30 mil mortos e segue como o mais letal da história do país. O tremor teve magnitude 8,3. Embora o Chile tenha registrado em 1960 o terremoto mais forte já medido no mundo, de magnitude 9,5, foi o desastre de 1939 que causou o maior número de vítimas no território chileno.
Segundo a sismóloga Cinna Lomnitz, o alto número de mortes em Chillán esteve relacionado ao uso de adobe nas construções e à ausência de normas de engenharia antissísmica. A tragédia impulsionou a criação do primeiro código chileno de edificações resistentes a terremotos.
A própria Venezuela já havia enfrentado desastres sísmicos de grande magnitude antes dos tremores recentes. Em 1812, estudos indicam que três terremotos consecutivos, com magnitude estimada em 7,7, deixaram cerca de 26 mil mortos. Aproximadamente 90% de Caracas foi destruída, assim como áreas extensas de Barquisimeto, Mérida, La Guaira e San Felipe.
O terremoto de 1812 ocorreu durante a guerra de independência venezuelana. Autoridades espanholas chegaram a interpretar o desastre como um castigo divino contra os revolucionários. Naquele contexto, os Estados Unidos enviaram alimentos e recursos financeiros, em uma das primeiras ações internacionais de ajuda humanitária registradas.
Também em 1868, Arica, então pertencente ao Peru e atualmente localizada no Chile, foi atingida por um terremoto de magnitude 8,5. O desastre deixou cerca de 25 mil mortos e devastou cidades como Arequipa, Moquegua, Mollendo e Ilo. O tsunami gerado pelo abalo atingiu áreas costeiras do Peru e provocou ondas que chegaram ao Havaí e à Nova Zelândia.
Na Guatemala, o terremoto de 1976 matou cerca de 23 mil pessoas. O tremor, de magnitude 7,5, ocorreu durante a madrugada e atingiu uma extensa área do país, incluindo a Cidade da Guatemala. Muitas construções de adobe ruíram, réplicas ampliaram os danos e cerca de 1,2 milhão de pessoas ficaram sem moradia. Aproximadamente dois quintos dos hospitais guatemaltecos foram destruídos.
A Venezuela aparece novamente entre os episódios históricos mais letais com o terremoto de 1797, que destruiu Cumaná e regiões próximas, deixando cerca de 16 mil mortos. O desastre foi documentado pelo geógrafo e naturalista Alexander von Humboldt. Um catálogo publicado em 1855 registrou relatos de testemunhas sobre fenômenos observados antes dos abalos: “Chamas saindo da terra, seguidas por um ruído subterrâneo semelhante a um borbulhar e, em seguida, pelos tremores”.
Na Argentina, o terremoto de Mendoza, em 1861, deixou cerca de 14 mil mortos. Embora não exista registro oficial de magnitude, estimativas indicam que o tremor pode ter alcançado 7,2. O desastre ocorreu perto da meia-noite, destruiu edifícios históricos, como a Basílica de São Francisco, e provocou incêndios alimentados por luminárias a gás, além de episódios de saques e pilhagens.
Com mais de 1,4 mil vítimas, os recentes terremotos na Venezuela já superam todos os registros anteriores do país em número de mortos no período moderno. A tragédia reforça a memória de uma região marcada por eventos sísmicos extremos e por perdas humanas agravadas pela fragilidade de infraestruturas urbanas, pela densidade populacional e pela dificuldade de resposta emergencial em áreas atingidas.
DiárioPB com Brasil 247
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