
Nos últimos dias, alguns amigos e amigas voltaram a cobrar minha presença no Instagram. Tenho uma conta na plataforma, mas nunca fui muito assíduo por lá. Sempre enxerguei o Instagram como uma rede social muito ligada à ostentação, ao registro de férias perfeitas, à exibição de conquistas e fotografias cuidadosamente montadas de uma realidade que, para muita gente, está bem distante da vida cotidiana.
Cedendo um pouco à pressão, resolvi acessar mais a minha conta nas últimas semanas. O que encontrei me assustou profundamente. Ao rolar a timeline, percebi que boa parte dos vídeos sugeridos estavam relacionados à violência. Eram cenas de abordagens agressivas, assassinatos registrados por câmeras de segurança, brigas, acidentes e conteúdos carregados de fanatismo religioso e político.
Saí da rede social com uma sensação ruim. Um sentimento de tristeza diante da frieza humana. Fiquei pensando em como as pessoas parecem cada vez mais acostumadas a consumir violência como entretenimento, reagindo com naturalidade a cenas que deveriam provocar indignação e reflexão.
O mais curioso é que os conteúdos que costumo publicar e consumir nas redes sociais seguem outro caminho. Sou uma pessoa envolvida com arte, cultura, comunicação e movimentos sociais. Frequento eventos culturais, compartilho notícias, humor, política e temas ligados à coletividade. Mesmo assim, o algoritmo insistia em me empurrar vídeos violentos e conteúdos completamente distantes daquilo que realmente me interessa.
Isso levanta uma discussão necessária sobre a responsabilidade das grandes plataformas digitais. Não é coincidência que conteúdos violentos, extremistas ou carregados de ódio sejam constantemente impulsionados pelos algoritmos. As redes sociais descobriram que o choque, a revolta e a indignação mantêm as pessoas conectadas por mais tempo. Quanto mais tempo o usuário permanece preso à tela, maior é o lucro dessas empresas.
O problema é que essa lógica transforma tragédias humanas em mercadoria digital. Aos poucos, as pessoas vão sendo condicionadas a consumir violência diariamente, como se aquilo fosse algo normal. E o mais preocupante é perceber que muitas vezes não existe fiscalização suficiente sobre esse tipo de prática.
É preciso que órgãos fiscalizadores, autoridades e a própria sociedade debatam com mais seriedade os limites e responsabilidades dessas plataformas. Não se trata de censura, mas de proteção social. Principalmente quando crianças e adolescentes estão expostos diariamente a conteúdos violentos, extremistas e emocionalmente destrutivos.
Talvez seja justamente por isso que continuo insistindo no velho Facebook, plataforma que muitos consideram ultrapassada. Lá, pelo menos, ainda encontro conteúdos relacionados ao que curto e acompanho. Minha timeline continua sendo ocupada por cultura, notícias, música, humor e debates.
Recentemente, publiquei uma fotografia do ministro Flávio Dino durante uma caminhada ao lado de populares. Na imagem, ele segurava uma foice e um martelo, símbolos historicamente ligados ao comunismo e utilizados por partidos de esquerda em várias partes do mundo. A postagem destacava a decisão histórica do ministro que acabou com a aposentadoria compulsória remunerada como punição máxima para magistrados envolvidos em irregularidades.
Para minha surpresa, a publicação viralizou de forma impressionante. Mesmo sem possuir um perfil com grande número de seguidores, o post ultrapassou mais de 70 mil visualizações, recebeu centenas de compartilhamentos, milhares de curtidas e comentários.
Isso me fez refletir sobre algo importante. Uma publicação não precisa necessariamente apelar para a violência, para o sensacionalismo ou para o choque gratuito a fim de alcançar grande repercussão. Existe público para conteúdos que provocam reflexão, debate e consciência social.
Recentemente assisti a uma análise de um estudioso do comportamento humano explicando como os algoritmos das grandes redes sociais influenciam diretamente nossas emoções e comportamentos. Segundo ele, o excesso de estímulos violentos e agressivos pode tornar as pessoas mais ansiosas, intolerantes e emocionalmente endurecidas.
Enquanto isso, apesar de os livros viverem um novo momento de valorização e de muitas pessoas tentarem se afastar um pouco das telas, ainda vejo pouco incentivo à leitura nos grandes meios de comunicação. Faltam campanhas permanentes voltadas principalmente às crianças e aos pais, incentivando o hábito de ler fora das redes sociais.
Da minha parte, sigo decidido a usar cada vez menos essas plataformas. Quero dedicar mais tempo aos livros, às conversas presenciais, à cultura e a iniciativas que ajudem as pessoas a refletirem sobre o uso exagerado das redes sociais.
Este texto também serve como um alerta. Estamos vivendo um tempo em que os algoritmos das grandes plataformas passaram a influenciar comportamentos, emoções e até a forma como enxergamos o mundo. Quando a violência vira ferramenta de engajamento e o extremismo se transforma em estratégia de alcance, toda a sociedade perde um pouco da sua humanidade.
Talvez ainda exista esperança justamente nisso: reaprender a olhar menos para as telas e mais para a vida real.
Sérgio Ricardo Santos
Coluna À Deriva
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