Por José Luís Silveira Baldy (*) – Já é bem conhecido o “efeito Bolsonaro” sobre a redução do interesse da população brasileira pelo uso das vacinas, inclusive, agora, no outono, pela vacina contra a gripe. No entanto, o problema não se limita à vacinação, mas estende-se ao menosprezo injustificável, deliberado e obtuso à pandemia de hipovitaminose D – que está entre nós −, negligenciando-se a importância dos baixos níveis de vitamina D no sangue da população e contribuindo-se decisivamente para a vulnerabilidade das pessoas às infecções respiratórias agudas e para sua exposição ao risco de síndrome respiratória aguda grave e morte, por conta da falta de exposição à luz solar (única fonte natural desse hormônio) e do descaso à suplementação, sob orientação médica, da vitamina D3 (colecalciferol).Incluem-se neste artigo algumas informações fundamentais para a compreensão da importância da vitamina D3 na proteção natural das infecções respiratórias e de suas complicações (entre as quais a mais importante, a síndrome respiratória aguda grave) através da potencialização das atividade dos sistema imunológico (em especial, das funções da imunidade inata) por intermédio de níveis suficientes de vitamina D3 no sangue, particularmente no outono, estação em que a umidade relativa do ar é mais baixa em relação a outras épocas do ano, tornando o ar que respiramos mais seco, ressecando as mucosas do aparelho respiratório e, como consequência, facilitando a adesão dos vírus às células das mucosas e a instalação de infecções respiratórias.
Há centenas de sorotipos de vírus capazes de causar grande número de infecções respiratórias, a grande maioria não protegida pelas vacinas disponíveis.
Tipos de infecções respiratórias
São os seguintes os tipos de infecções respiratórias (síndromes respiratórias): rinite, faringite, amidalite, faringoamidalite, laringite, laringotraqueobronquite, traqueíte, bronquite, bronquiolite e pneumonia (ou pneumonite). Entre as infecções respiratórias causadas por vírus, o resfriado comum é constituído, fundamentalmente, por rinite ou rinofaringite, enquanto a gripe ou influenza costuma provocar um conjunto de alterações localizadas no trato respiratório (faringite, rinite, bronquite e, às vezes pneumonia), com seus sintomas e sinais característicos, a que se juntam manifestações clínicas gerais, tais como febre, sudorese, fraqueza, dor de cabeça, dores musculares e dores articulares.
Vírus que podem causar infecções respiratórias
Os seguintes vírus são agentes etiológicos de infecções respiratórias:
1) Vírus da gripe ou influenza, com quatro sorotipos (A, B, C e D), dos quais o A e o B são, de longe, os mais frequentes, sendo o H1N1 e o H3N2 os subtipos mais comuns do sorotipo A; 2) Vírus da parainfluenza (quatro sorotipos): agente mais comum de laringotraqueobronquite (“crupe viral”), podendo também causar resfriado comum, bronquite, bronquiolite e pneumonia; 3) Rinovírus (mais de 100 sorotipos): principal agente etiológico de resfriado comum, podendo causar, com pequena freqûencia, bronquiolite e pneumonia; 4) Adenovírus (mais de 50 sorotipos): pode causar resfriado comum e pneumonia, sendo o principal agente etiológico de conjuntivite; 5) Vírus sincicial respiratório (dois sorotipos, A e B): principal agente de bronquiolite, podendo também causar outras síndromes (resfriado comum, síndrome gripal, traqueíte e pneumonia); 6) Coronavírus, com sete sorotipos, quatro dos quais agentes de resfriado comum e três deles de infecções respiratórias graves (MERS-CoV, SARS-CoV-1 e SARS-CoV-2); 7) Metapneumo- vírus (dois sorotipos e quatro subtipos): pode causar laringotraqueobronquite, síndrome gripal, bronquite, bronquiolite e pneumonia; 8) Outros tipos de vírus, como parte do quadro clínico de doenças que provocam, podem ocasionalmente ser agentes etiológicos de infecções respiratórias.
Cada sorotipo desses vírus é capaz de causar um episódio de infecção individualizada do aparelho respiratório e colocar as pessoas sob risco de complicações e morte. A infecção (penetração, instalação e proliferação no organismo humano) pela qual cada um dos citados sorotipos é responsável pode provocar doença (infecção sintomática) ou infecção inaparente / assintomática, que passa despercebida. Nas duas situações, tanto em relação às doenças (de que a pessoa se curou) quanto nas infecções assintomáticas), a melhoria do prognóstico – evitando a doença ou atenuando a intensidade dos sintomas, impedindo a eventual instalação da síndrome respiratória aguda grave (SRAG) – resulta da atuação da imunidade inata, que alcança potência máxima quando a concentração de vitamina D3 no sangue se encontra em nível superior a 50 ng/mL (entre 50 e 80 ng/mL).
Há, portanto, centenas de tipos de vírus (acima citados) capazes de causar infecções respiratórias, sob uma das síndromes ou formas clínicas já mencionadas (gripe, resfriado comum, bronquiolite, laringotraqueobronquite, pneumonia etc.), sabendo-se que para apenas dois tipos de vírus (gripe e vírus sincicial respiratório) existem atualmente vacinas em uso prático, isto é, não há disponibilidade de vacinas para a quase totalidade das doenças causadas por vírus responsáveis por infecções respiratórias. É fácil deduzir que, diante dessa realidade, impõe-se necessidade absoluta de os órgãos e autoridades responsáveis pela Saúde Pública do País recorrerem a outras medidas preventivas, reconhecendo a existência de uma alternativa profilática de baixo custo (ou de custo zero) – para conferir às pessoas (idealmente, a toda a população) proteção natural e efetiva contra as viroses respiratórias agudas: – a potencialização, pela vitamina D3, da atividade anti-infecciosa da imunidade inata, dotada da capacidade natural de atuar – sem a necessidade de estímulo prévio e de forma rápida (imediata), sem período de latência – como ocorre com as vacinas – , conferindo proteção durante a vida toda, a partir do nascimento. Acrescente-se que as pessoas (adultos, adolescentes e crianças) que apresentam concentração de vitamina D3 no sangue superior a 50 ng/mL (entre 50 e 80 ng/mL) respondem melhor a diversos tipos de vacinas, com aumento do título de anticorpos e duração mais prolongada da imunidade específica.
A imunidade específica (que atua primordialmente por intermédio de anticorpos específicos e linfócitos T citotóxicos) é “adquirida” e não age de forma espontânea e imediata – a saber, necessita para aparecer e iniciar sua atuação de estímulo prévio, isto é, precisa ser acionada por agentes infecciosos (infecções sintomáticas ou inaparentes) ou por vacinas, exigindo algum tempo (período de latência de uma a três semanas em sua resposta primária) para consolidar-se. Por sua vez, os anticorpos específicos, transferidos da mãe para o feto no decorrer da gravidez, atuam apenas durante alguns meses (um ano, no máximo, a partir do nascimento), referindo-se somente àqueles anticorpos específicos relacionados com infecções que a mãe já apresentou na vida pregressa ou a doenças prevenidas por vacinas que a mãe já havia recebido. A proteção conferida por esses anticorpos transferidos da mãe para o feto é, portanto, transitória, e não é garantida com segurança absoluta a todos os recém-nascidos e lactentes.
(*) Médico, autor, entre outros livros, de Imunidade Inata: A Grande Negligenciada Durante a Pandemia de Covid-19
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