tarjaedonioalves

Ao longo do desenvolvimento cognitivo da espécie humana, consolidado pelo comando quase absoluto do uso da razão, é impressionante como se constata ainda a permanência insistente de um tipo de conhecimento sobre a realidade em que o homem emprega tudo, menos o uso da razão, na sua relação com os outros homens e com as próprias coisas da natureza, algo que influencia seu comportamento direta ou indiretamente. Falo do conhecimento mágico, aquele tipo de saber sobre as coisas do mundo que advém da fase instintiva da animalidade em conjunção com uma pré-razão humana, apontando já para uma diferenciação substantiva entre os homens, os animais e as coisas.

O conhecimento mágico pode ser definido esquematicamente aqui como aquele saber em que o homem empenha a sua vontade na idéia de que pode ter alguma ingerência sobre o seu próprio destino e ações suas sobre as coisas. Esse tipo de conhecimento, por não ser científico, isto é, testado e comprovado em suas bases racionais de relações de causa e efeitos, é espontâneo, instintivo e de uso radicalmente pragmático. Exemplo: quando estamos jogando sinuca, futebol ou outro esporte que tem a mediação incontrolável de um a bola, tendemos a corrigir com o nosso corpo, nos contorcendo e torcendo com a força máxima do nosso pensamento, para que a tal bola saia da trajetória desviante para a trajetória correta conforme a atiramos na caçapa, caso da sinuca, ou na meta, caso do futebol.

Amanheci hoje com esses pensamentos também desviantes e resolvi comunicá-los ao leitor, nesse nosso já costumeiro papo das sextas-feiras. É que estava cogitando cá com os meus botões sobre os efeitos e funcionamento da chamada Lei de Murphy, uma máxima que a meu ver embora advenha, em seus princípios gerais, dos fundamentos do conhecimento mágico, dele se separa em abrangência e autonomia funcional, dando a ela uma aplicação universal.

A Lei de Murphy preconiza o seguinte: se uma coisa pode dar errado, ela vai dar errado. Todos nós já fomos tocados de uma maneira ou de outra pelo fatalismo dessa intrigante assertiva, na nossa vida. Quem não já passou por situações do tipo: escrevia um texto no computador sem salvar o arquivo e de repente perdeu tudo ao faltar energia; fritava algo no fogão e foi atender alguém na porta sabendo dos riscos de queimar a comida e a extensão do papo de cumprimentos com a visita encarregou de fazê-lo; passava ferro numa roupa e foi atender ao telefone com o ferro no início do aquecimento, o que lhe fez relaxar e esquecê-lo sobre a roupa enquanto fala com a amiga? Pois foram as verdades mais puras contidas nessas situações que me fizeram amanhecer hoje pensando na Lei de Murphy.

Intrigado com essa sua aplicação universal implacável no nosso parco universo humano, me dei conta de que por mais que sejamos animais racionais, não abandonamos de todo a nossa maneira instintiva de conhecer e nos relacionarmos com a realidade que nos é exterior. Tal constatação me fez ir pesquisar sobre o assunto e, ao fazê-lo, descobri umas tantas outras pérolas inspiradas pelo pensamento mágico que ainda empregamos como uma forma quase que fatalista de compreendermos o mundo que nos cerca e teima em escapar pelos nossos dedos.

Há milhares de regras, leis, princípios e observações que foram criadas a partir da Lei de Murphy. Algumas são engraçadas, outras são sábias e outras tantas muito legais. Confiram algumas delas:

  • Observação de Etorre: a outra faixa sempre anda mais rápido.
  • Distinção de Barth: há dois tipos de pessoas: as que dividem as pessoas em tipos e as que não o fazem.
  • Leide Acton: o poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente.
  • Lei de Boob: o que você perdeu está sempre no último lugar em que você procura.
  • Terceira Lei de Clarke: qualquer sociedade suficientemente avançada é indistinguível de mágica.
  • Regra de Franklin: abençoado seja aquele que nada espera, pois não se desapontará.
  • Lei de Issawi do Caminho do Progresso: um atalho é a maior distância entre dois pontos.
  • Lei de Mencken: quem pode, faz. Quem não pode, ensina.
  • Lei de Patton: um projeto bom hoje é melhor que um projeto perfeito amanhã.
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