NOÉ: A fé e a razão no cinema americano se desmancham na água – e na narrativa

Noé postAs grandes narrativas cinematográficas quase sempre têm o poder de deslumbrar e nos aproximar de um pensamento crítico sobre uma realidade na qual a narrativa se insere ou a qual ela faz referência, seja por analogia ou por meio de metáfora. No caso do filme “Noé” (2014), de Darren Aronofsky, nem sempre essa ideia se realiza.

Essa película estadunidense apresenta lá suas possíveis qualidades: um sempre competente Russel Crowe, as constantes cenas magníficas, da tecnologia do cinema em 3D, que encantam os ingênuos olhos de quem descobre um mundo novo, mas nada no filme ultrapassa a semiologia nossa de cada dia, esta que se surpreende com novidades tecnológicas.

Faremos aqui uma breve sinopse da narrativa fílmica. Noé e seus familiares vivem em uma terra totalmente destruída pela raça dos homens em que não há o mínimo de civilidade (tão comum às narrativas do antigo testamento bíblico). Em sonhos, âmbito de desejos que são reprimidos, Noé sentencia que a humanidade terá seu fim em um dilúvio, e procura ajuda do ancião Matusalém, o quase eterno.

Nesse encontro, Noé descobre que terá de construir uma arca e salvar todas as espécies do planeta: assim designava Deus, segundo os sonhos de Noé. Contudo, com o desenrolar da narrativa, descobrimos que não poderia haver continuidade para os descendentes de Noé, visto que a esposa de um de seus filhos deu à luz a gêmeos e do sexo feminino. Assim, Noé deveria matá-las para que se pudesse manter aquilo que estava inscrito nos sonhos. Não entrarei aqui na seara da visão misógina apresentada no filme, talvez este tenha sido o maior embate que houve entre os produtores do filme e seu diretor: mostrar a intensa crueldade de um mundo regido pelas leis da natureza, acima do bom senso humano (evidentemente falo do senso de humanidade em um mundo aparentemente mais civilizado que é o nosso). Podemos perceber isso na perspectiva da mulher de Noé.

A narrativa se desenvolve em torno da consciência de Noé e seu desejo de fé em obediência a Deus. Esse encontro divino sempre esteve no espaço simbólico dos sonhos, e claramente essa é uma diferença que há entre a narrativa bíblica e a película. Uma primeira impressão é que isso demonstraria a inconsistência do filme (perante o público) e de Noé (perante a fé). As duas inconsistências se limitam a pouca fidelidade com o teor original da Bíblia em seu Antigo Testamento, que apresenta mais histórias fantásticas com sentido metafórico (histórias de uma cultura com fins pedagógicos) do que enredos motivados por delírios oníricos, como dá a entender no filme. Talvez seu defeito aparente: a pouca fidelidade à narrativa bíblica seja sua maior qualidade, o que indica uma dificuldade em amarrar as sequências menores dentro da narrativa.

Ademais, o filme é pavoroso no elenco, com raras exceções, é lento no andamento das cenas, é acéfalo na discussão entre fé e razão (e esse debate é anacrônico inclusive para o mundo contemporâneo). Enfim, se os desígnios de Deus se fizessem verdade pelas mãos cruéis de Noé e o homem não se espalhasse pela Terra, jamais teríamos o desprazer e o incômodo de ver o ser humano realizando um filme tão medíocre.

Por Jair de Oliveira

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