Mídia & Sociedade

Mídia, pandemia, labor, ação e trabalho

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Durante a pandemia da Covid-19, o conflito entre seres humanos, capital e trabalho se aguçou de várias maneiras – uma delas a pressa com que as autoridades cederam às pressões para abrir o comércio de pequenas lojas ou de grandes estruturas como os shoppings.

A pandemia revelou que os capitalistas – em diversos níveis – não estão preocupados com vidas humanas, mas com ações de seres humanos que fortalecem a sociedade de consumo.

A mídia brasileira, sobretudo as emissoras de TV – tem demonstrado a correria ao consumo nas grandes cidades em desrespeito às normas sanitárias vigentes para proteção contra a Covid-19.

O cenário é de aglomeração, quebra de protocolos médicos, desrespeito à morte e, consequentemente, à vida dos profissionais e saúde.Assim, todos se apressam na ‘transcendência do instante’ para auferir o gozo provocado pelo fetiche das mercadorias.

Na maioria das grandes cidades ocidentais, o viver se tornou menos importante do que o ato de consumir. Por isso, reina o ceticismo de uma certa camada social em relação aos riscos de morte trazidos pela Covid-19.

A impaciência para sair de casa, consumir, ocupar espaços públicos sem usar máscaras reflete a forma como a vida humana se organiza nas sociedades urbanas.

Para entender este apelo suicida ao consumo, em período de pandemia, vamos pedir auxílio à filósofa e cientista política Hannah Arendt(  Linden, Alemanha,14 de outubro de 1906 – Nova Iorque, Estados Unidos, 4 de dezembro de 1975) a partir daquilo que ela denomina as três atividades humanas fundamentais: 1) labor; 2) trabalho; 3) ação.

Aos que não conhecem a obra de Hannah Arendt – mesmo aos que são leitores de seus escritos – não custa nada lembrar que Arendt, judia-alemã – foi uma das principais mentes pensantes do século XX.

Hannah Arendt ficou conhecia ao publicar As origens do totalitarismo – em 1951 – mas provocou muita polêmica quando cobriu para a revista norte-americana New Yorker o julgamento do nazista Eichmann – publicado em livro sob o título Eichmann em Jerusalém (1962).

 

A partir da cobertura do julgamento do oficial nazista Eichmann – que era  um pai de família exemplar, um cidadão comum – mas que era o responsável pelo envio de judeus às câmaras de gás – Hannah Arendt criou o conceito ‘banalidade do mal’ que passou a identificar os regimes fascistas no mundo ocidental.

Mas é no seu estudo sobre a condição humano que Arendt explora muito bem as características das três principais atividades do ser humano como animal gregário. Por isto, se faz importante refletir sobre estas atividades  no Brasil durante o período de pandemia e de que forma se apresentam.

Como podemos pensar o labor no Brasil em plena pandemia da Covid-19?

Para Hannah Arendt, o labor é a atividade do viver, do crescer, a capacidade que cada ser humano tem de organizar e gerenciar a sua vida, quer seja no sentido biológico, quer seja no sentido sociopolítico. O labor é aquilo que mantém o ser humano vivo.

No Brasil in pandemia, a precarização da vida foi reforçada pela negligência das autoridades quanto à proteção sanitária dos mais pobres economicamente – algo que nos remete a um longo percurso de nossa história.

O labor no Brasil não é o maná da vida, porque as condições higiênicas nas quais sobrevive a maioria do nosso povo guardam semelhanças com o ‘sanitarismo’ da Idade Média.

Somos medievais no tratamento das doenças tropicais, cáries e outras endemias que assolam as populações de baixa-renda. Isto faz com que a higiene não seja motivo de autoestima para o cidadão que precisa se deslocar quilômetros e léguas em busca de um atendimento médico.

O presidente da República, Jari Messias Bolsonaro, mata o labor, não respeita as normas de controle sanitário e procura usar o povo e boa parte da classe média com sua função totalitária da linguagem de propaganda política.

Assim, nós brasileiros, morremos antes de gozarmos o significado do labor.

No tocante ao trabalho – podemos dizer que, ao contrário do labor – o trabalho não é uma atividade natural, isto ratificado nas palavras de Arendt. Mas o trabalho é uma atividade importante para que o ser humano se sinta em sociedade e posso gerar seus bens de subsistências, aprendendo através de um ofício o caráter fugaz da temporalidade social.

No Brasil da Covid-19, do governo totalitário de Bolsonaro, convivemos com a precarização do trabalho, a partir da reforma trabalhista, o que gerou inseguranças sociais e aumentou o número de desempregados.

Com um projeto neoliberal, o governo retirou a maioria das garantias do trabalhador e esvaziou a Justiça do Trabalho, o que coloca o trabalho à mercê das leis do patronato.

O trabalho intermitente, concebido com arma neoliberal no governo Bolsonaro, transforma a vida em mercadoria, porque o operário ou profissional liberal se tornou refém do tempo de produção de bens de consumo.

Poderíamos dizer que o trabalho como uma das principais atividades do ser humano foi infectado duplamente: pelo Coronavírus e pela política neoliberal de Paulo Guedes (Ministro da Economia) e Bolsonaro.

Por último, como pensar a ação social como uma das principais características da atividade humana?

No período da pandemia, as ações sociais veiculadas pela mídia foram enunciadas no plano do consumo – estratégias de abertura de novo comércios.

Pouco se pensou no Brasil da Covid-19 a ação social a partir das extensões da Educação, Artes e Ciência – está tão negada no plano de aplicação de projetos de saúde para salvar a população da pandemia.

As nossas atividades humanas foram empobrecidas neste período de pandemia da Covid-19, por razões da falta de valorização do labor, precarização do trabalho e bloqueio de importantes ações sociais.

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Wellington Pereira

Professor Titular da Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Sociologia pela Sorbonne - Paris V

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