Mídia & Sociedade

Mídia e despolitização do sofrimento.

Mídia & Sociedade

O mal-estar no período da pandemia da Covid-19 é narrado pela mídia em diversos gêneros.

Mas para uma determinada classe social – aquela que pode consumir – o mal-estar está no isolamento social, pois fere o princípio da ilusão de circulação livre na sociedade de consumo.

Embora saibamos que cumprir a quarentena é um privilégio das classes ricas e ociosas – como na Peste Negra narrada no Decameron (Boccaccio, séc. XIV) – o Estado contratualista moderno tem a obrigação de manter no distanciamento social aqueles que são mais frágeis socialmente através de programas de garantias sociais à vida.

Há no distanciamento social três aspectos que, segundo Christian Ingo Lenz Dunker, em seu livro, Mal-estar, sofrimento e sintoma, revela os contrastes entre os que estão sob a ameaça do Coronavírus.

Do ponto de vista do espaço urbano, o distanciamento social revela uma segregação social – geopolítica urbana violenta – entre aquele que habitam espaços nobres nas cidades e que foram empurrados para a periferia cada vez mais distantes dos núcleos da ‘civilização’.

Há os que habitam condomínios fechados e vivem de forma vicária o simulacro do mundo da vida. Estes possuem todo um sistema de segurança que traz conforto, harmonia em conflito com a antinomia social que reina na vida cotidiana de bairros ocupados por pessoas economicamente pobres.

A palavra Alphaville, a parti dos anos 1970 no Brasil, passou a significar o isolamento aristocrático que gerou uma série de bairros artificiais com centros comerciais, áreas de lazer e a infinita promessa de viver em paz, longe de atropelos sociais.

Esses condomínios fechados constituem ilhas de fantasia, nas quais o sofrimento e a dor são mitigados pelas oferendas  de consumo.

Em seu livro, Dunker faz referência ao filme de Jean-Luc Godard Alphaville (1965) – no qual uma comunidade vive sob as ordens de um computador, o Alpha 60, que controla tudo, até a morte. Nesse condomínio não se pode usar a forma por quê, mas tudo deve ser conjugado no explicativo porquê.

Distopia à parte, há nas grandes e médias cidades brasileiras a segregação urbana entre ricos, muito ricos, pobres, muitos pobres e miseráveis. Assim, durante o distanciamento social fica difícil entender as diferentes demandas de isolamento.

Isolar quem? Isolar de quê? Por que as comunidades mais pobres têm resistido ao isolamento? Por que os ricos e muito ricos não respeitam o isolamento?

As mídias têm demonstrado que as narrativas produzidas pelo distanciamento social são transformadas de acordo com a configuração dos espaços urbanos, ou seja, as formas de vida não são as mesmas para todos. Isto implica em pensar três conceitos estudados por Dunker: mal-estar, sintoma e sofrimento.

O mal-estar que a mídia enuncia, durante a pandemia da Covid-19, se caracteriza pelo desconforto provocado pela sensação de regulação do direito de ir e vir dos cidadãos. Por isto, é muito difícil dizer às pessoas que elas não podem ultrapassar determinadas barreiras sanitárias. Assim surge os sintomas provocados pelo isolamento.

Entre os sintomas provocados pelo isolamento está a incapacidade de se reconhecer enquanto sujeito no espaço social. Dessa forma, surgem as agressões, o feminicídio, a violência policial contra os jovens negros nas periferias.

Há ainda sintomas mais graves que não são detectados pela máquina burocrática do Estado, como depressão, síndrome de pânicos, patologias em suas diversas formas sociais.

O desenvolvimento tecnológico, a forma como as metrópoles foram ocupadas, os projetos arquitetônicos futuristas não foram capazes de dirimir as diferenças existenciais entre os muitos ricos e os miseráveis do mundo, por isto há o predomínio da razão higienista no mundo urbano, ou seja, pobre não tem sequer o direito de morrer dignamente.

Este “apelo à vida em forma de condomínio”, como  exprime Dunker traduz – em um terceiro momento – o desrespeito a quem sofre ou, de forma mais grave, a despolitização do sofrimento social.

A despolitização do sofrimento se revela na pressa com que capitalistas insistem na abertura urgente dos mercados promovendo uma Black Friday da morte para os que perderam o amor ao mundo da vida – a vida de todos os dias- e enxergam apenas a possibilidade de uma vivência em condomínio, protegidos de forma artificial.

A despolitização do sofrimento humano vai de encontro aos princípios do Cristianismo Primitivo que viu (no sofrimento de Jesus) a capacidade de resgate do ser a partir da ressignificação do sofrer (o que Nietzsche não entendeu).

Despolitizar o sofrimento social é andar – em plena pandemia da Covid-19 – sem máscara, provocar aglomeração em shoppings, restaurantes de luxo, mercados populares, como se o consumo fosse algo transcendental.

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Wellington Pereira

Professor Titular da Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Sociologia pela Sorbonne - Paris V

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