Mídia & Sociedade

Mídia: a tetralogia da Covid-19

Mídia & Sociedade

No debate sobre a quarentena como norma para enfrentar a Covid-19, a mídia tem construído cenários explicativos que, ora beiram o sensacionalismo, ora a fertilização de fake News no conflito entre ciência e senso comum.

Do ponto de visto do distanciamento social, quem assiste aos telejornais se depara com a circularidade de uma profusão de informações que sobe e desce como uma gangorra descontrolada, um poço escuro sem fundo; enquanto o número de mortes cresce proporcionalmente à ignorância de alguns setores da sociedade.

Os exemplos deixados por outras pandemias como a Gripe Espanhola (1918) ou a Peste Negra (1347) seria suficiente para conscientizar autoridades, população e mídia sobre o perigo que corre o ser humano – o animal mais frágil do planeta- diante desses ‘flagelos virais’ que assolam a humanidade.

Na literatura, o escritor franco-argelino Albert Camus, (Mondovi, 7 de novembro de 1913 — Villeblevin, 4 de janeiro de 1960), em seu romance-tragédia, A peste (1947), nos deixou uma das mais importantes alegorias da fragilidade da saúde pública diante do mercado financeiro, dos poderes políticos e da ‘absurdidade do mundo’, que é o egoísmo humano.

Mas mesmo com todo esse acúmulo cultural inseminado pelas artes e ciências, especificamente no Brasil, não fomos capazes de admitir o poder da natureza – através de quaisquer vírus – diante do humano.

Na figura do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, as condições humanas em nossos país têm apenas um valor aritmético para efeito de circulação de bens de consumo e da política financeira dos bancos no país.

Desde a campanha presidencial, Bolsonaro, através de sua política de armamento da população, vem disseminando o que o filósofo camaronês Achille Mbenbe (1957) denominou de ‘Necropolitica’ – a oficialização da morte como um recurso de controle social por parte dos estados totalitários.

Armar a população é banalizar o direito de matar e morrer sem respeitar o contrato de paz assinar pelo Estado para proteger os seus cidadãos. Ora, que não tem medo de matar, teoricamente, não tem medo de morrer. Sem esses medos – alguns seguem desrespeitando as normas sanitárias para o combate ao Coronavírus, o que resulta na Necropolítica exercitada por Jair Bolsonaro.

Soma-se ao conceito de Necropolitica (oficialização e banalização da morte) outro caro a Michel Foucault (Poitiers, 15 de outubro de 1926 — Paris, 25 de junho de 1984), filósofo francês, o de Biopolítica – intervenção do estado na vida das pessoas.

O isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, levou alguns filósofos a confundir a necessidade de distanciamento com a utilização da biopolítica, mas o que foi devidamente corrigida – pois isto poderia alimentar a sanha do mercado financeiro em expor as pessoas à infecção.

Do ponto de vista da mídia (digitais ou não) podemos verificar ser a quarentena um novo tempo social que provoca alguns sintomas reveladores da arritmia mundial. Assim, podemos falar de uma tetralogia da Covid-19: 1) insegurança; 2) medo; 3) solidariedade; 4) esperança.

Pensar a insegurança como a primeira sensação de quem está cumprindo o distanciamento social é fazer uma reflexão sobre o modelo de convivência que nos impõe a sociedade de consumo.

A palavra crise em si é dialética, pois traz a ideia de superação. Mas a insegurança representa a falha dos sistemas peritos da modernidade que foram incapazes de assegurar conforto e segurança a maior parte da população.

Inseguros nos tornamos sem horizonte, pois a falha do sistema econômico neoliberal nos empurra para uma crise permanente, sem explicação, que não garante mais a sensação dos ‘instantes transcendentais’ gerados pelo consumo.

Se poucos podem comprar um amanhã, como vão acreditar em um amanhã construído coletivamente. Este é o sintoma de insegurança da classe-média em quarentena.

O medo é filho da insegurança. Se estou confinado, vou perder tudo. Mas tudo o quê? Em geral, o poder de influenciar na biopolítica ou até mesmo contribuir, como cidadão letrado, para o Estado de Exceção – no qual as balas perdidas procuram apenas negros, mulheres e crianças pobres.

A mídia enuncia o medo da morte. Mas que morte se teme? Morrer como qualquer um em cova rasa sem elegias nos obituários, morrer como morrem os pobres. Este é o medo de morrer durante a pandemia.

A solidariedade brota como um veio luminoso em tempos de pandemia, porque como diz Camus, em seu romance, A peste (1947): “A peste suprimira os juízos de valor”. Então, se não posso emitir juízos de valor em relação ao comportamento do outro, me assemelho a ele, buscando na solidariedade o exercício da empatia.

Na esperança dos que são anunciados como vencedores da morte – no processo de infecção pela Covid-19 – há uma crença que haja a legitimação dos direitos a ter direitos humanos exercitados em comunidade: sem a promoção de guetos cognitivos produzidas pela mídia associada ao totalitarismo de Estado.

Esta é a tetralogia midiática, durante a pandemia, para nossa reflexão.

Mostrar mais

Wellington Pereira

Professor Titular da Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Sociologia pela Sorbonne - Paris V

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar
PUBLICIDADE