TOCA DO LEÃO

Jessier Quirino e Paulo Coelho

Quem fez a esdrúxula comparação foi o poeta Zanony, em mesa de cerveja no bar do Zé, antes da quarentena. O confronto é extravagante porque Jessier Quirino é um poeta e Paulo Coelho também escreveu letras de músicas no passado, mas a distância de um para outro é abissal no que se refere à produção de cada um nos dias que correm. Quirino faz versos saborosos com a faculdade que possui seu espírito de artista para pegar os mangaios da cultura popular e transformá-los em joia rara. Paulo Coelho é um escritor medíocre que se tornou bestseller por obra e graça da mágica marqueteira.

Zanony garante que os dois, Jessier e Paulo Coelho, devem seu sucesso a um truque simples: pegam um monte de matérias de difícil digestão, passam numa peneira e servem ao público aquele xerém já diluído. Os dois são magos. Coelho transforma um monte de besteiras como viagens astrais, seres de outros planetas, almas gêmeas e terceiro olho em coisa séria. Jessier Quirino se apodera das imagens estereotipadas do matuto nordestino, criando personagens e imagens boas para o consumo do público médio. “O ‘bicho’ de Paulo Coelho foi Raul Seixas, e o ‘bicho’ de Zé da Luz foi Catulo da Paixão Cearense. Jessier Quirino tem Zé da Luz como seu ‘bicho’, argumenta ebriamente o poeta Zanony. “Bicho”, no caso, é a inspiração.

É tema para discussão entre letrados e críticos. Eu simplesmente não tolero o Paulo Coelho e sou admirador do trabalho do Jessier Quirino. Estando no banheiro, e sem nada para ler além de um livro do Coelho, prefiro me divertir lendo bula de xampu ou rótulo de sabonete. Nem para isso servem os livros de autoajuda do Paulo Coelho, no meu caso.

Sujeito pernóstico, Zanony garante que aprendeu algumas coisas com Paulo Coelho. As mais importantes: se você deu a bunda quando mais jovem, mesmo por curiosidade, isso faz de você um mago, pois aprendeu o feitiço de encantar serpentes e fazer sumir cobras. Se você, mesmo sendo um escritor banal, consegue entrar para a Academia Brasileira de Letras, você não é mago nenhum, porque Sarney também está lá com seu “Marimbondos de Fogo”. Falar de alma gêmea não vende só Sabrina, Samantha e outros livrinhos ruins. Vende também livros de Magos.

Se Paulo Coelho é um saco vazio ou não, desconheço porque só li duas ou três páginas do seu primeiro livro. Foi o bastante para esgotar minha paciência de leitor desacostumado com as profundidades do tesouro de conhecimentos exotéricos ali contidos. Jessier Quirino é um gênio da poesia popular, se é que existe poesia impopular. Na função de contador de causos, o cara é fera. Nunca um poeta exerceu tão bem os dois ofícios, de escritor e ator nas performances de sua própria obra. Por seu estilo original, vem se destacando. Que me desculpe Zanony, mas tu parece que bebe!

Em tempo: pessoalmente, Jessier Quirino é chato, não fala com as pessoas em Itabaiana, terra onde ele capta os personagens mais caricatos de seus versos engraçados. É de casa para o escritório, sem dar um bom dia a seu ninguém. Ele admite que é tímido. Ninguém acredita, vendo sua performance na TV e ao vivo. Esquisitices de artista.

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Fábio Mozart

Fábio Mozart transita por várias artes. No jornalismo, fundou em 1970 o “Jornal Alvorada” em Itabaiana, com o slogan: “Aqui vendem-se espaço, não ideias”. Depois de prisões e processos por contestar o status quo vigente no regime de exceção, ainda fundou os jornais “Folha de Sapé”, “O Monitor Maçônico” e “Tribuna do Vale”, este último que circulou em 12 cidades do Vale do Paraíba. Autor teatral, militante do movimento de rádios livres e comunitária, poeta e cronista. Atualmente assina coluna no jornal “A União” e ancora programa semanal na Rádio Tabajara da Paraíba.

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