Neste 29 de março, a cidade de Itabaiana celebra o aniversário de Zé da Luz. Nascido em 1904, o poeta completa 122 anos de história e legado cultural. Sua trajetória permanece viva na memória popular, atravessando gerações e mantendo-se atual pela forma singular com que interpretou o cotidiano do povo nordestino.
Reconhecido como um dos maiores expoentes da poesia matuta e da literatura de cordel, Zé da Luz eternizou em seus versos o humor, a musicalidade e a autenticidade da alma nordestina. Sua obra não apenas diverte, mas também preserva uma identidade cultural rica, marcada pela simplicidade, inteligência e sensibilidade, que transformam o falar popular em verdadeira arte.
Em 2026, a Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz completou 50 anos de fundação. A diretoria da entidade já iniciou as comemorações do cinquentenário, com atividades ao longo de todo o ano. Estão sendo realizados eventos mensais, com apoio da Prefeitura local e de outras instituições parceiras.
Fundada em 1976, a instituição é a mais antiga em atividade na área cultural em Itabaiana. Reconhecida como Utilidade Pública pela Câmara Municipal e registrada no Conselho Nacional de Serviço Social, a entidade mantém a Biblioteca Comunitária Arnaud Costa e o Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana, com atuação em diversas cidades paraibanas, como Solânea, Campina Grande e Mari.
Em nome da diretoria, o presidente Sérgio Ricardos Santos destacou que o aniversário do patrono da entidade é um momento de valorização de sua obra e também de reflexão sobre o papel das instituições culturais da cidade. Segundo ele, é fundamental que não se permita que a arte de um dos mais importantes poetas de Itabaiana caia no esquecimento, além de reforçar a importância de apoiar as entidades que mantêm vivo o seu legado.
Entre os textos mais emblemáticos do autor, o poema Brasi Caboco se destaca como um retrato potente do Brasil profundo, trazendo à tona a identidade do sertão com linguagem própria e forte expressão popular. A obra percorre costumes, tradições, figuras e sentimentos do povo nordestino, reafirmando o caráter genuinamente brasileiro presente na cultura cabocla e na oralidade transformada em poesia.
Brasi Caboco de Zé da Luz: um passeio pela representação do sertão e de si
O qui é Brasí Caboco?
É um Brasi diferente
do Brasí das capitá.
É um Brasi brasilêro,
sem mistura de instrangero,
um Brasi nacioná!
É o Brasi qui não veste
liforme de gazimira,
camisa de peito duro,
com butuadura de ouro…
Brasi caboco só veste,
camisa grossa de lista,
carça de brim da “polista”
gibão e chapéu de coro!
Brasi caboco num come
assentado nos banquete,
misturado cum os home
de casaca e anelão…
Brasi caboco só come
o bode seco, o feijão,
e as veiz uma panelada,
um pirão de carne verde,
nos dias da inleição
quando vai servi de iscada
prus home de posição.
Brasi caboco num sabe
falá ingrês nem francês,
munto meno o português
qui os outros fala imprestado…
Brasi caboco num inscreve;
munto má assina o nome
pra votar pru mode os home
Sê gunverno e diputado
Mas porém. Brasi caboco,
é um Brasi brasileiro,
sem mistura de instrangero
Um Brasi nacioná!
É o Brasi sertanejo
dos coco, das imbolada,
dos samba, dos vialejo,
zabumba e caracaxá!
É o Brasi das vaquejada,
do aboio dos vaquero,
do arranco das boiada
nos fechado ou tabulero!
É o Brasi das caboca
qui tem os óio feiticero,
qui tem a boca incarnada,
como fruta de cardoro
quando ela nasce alejada!
É o Brasi das promessa
nas noite de São João!
dos carro de boi cantano
pela boca dos cocão.
É o Brasi das caboca
qui cum sabença gunverna,
vinte e cinco pá-de-birro
cum a munfada entre as perna!
Brasi das briga de galo!
do jogo de “sôco-tôco”!
É o Brasi dos caboco
amansadô de cavalo!
É o Brasi dos cantadô,
desses caboco afamado,
qui nos verso improvisado,
sirrindo, cantáro o amô;
cantando choraro as mágua:
Brasi de Pelino Guedes,
de Inácio da Catingueira,
de Umbelino do Texera
e Romano de Mãe-d’água!
É o Brasi das caboca,
qui de noite se dibruça,
machucando o peito virge
no batente das jinela…
Vendo, os caboco pachola
qui geme, chora e soluça
nas cordas de uma viola,
ruendo paxão pru ela!
É esse o Brasi caboco.
Um Brasi bem brasilero,
sem mistura de instrangêro
Um Brasi nacioná!
Brasi, qui foi, eu tô certo
argum dia discuberto,
pru Pêdo Arves Cabrá.
Assessoria
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