MÚSICA

Cristiano Oliveira lança seu primeiro álbum, intitulado “Tudo tem Viola, nesta sexta (26)

"A música negra é lamento, é protesto à desigualdade social", afirma Cristiano através de sua viola, que de tudo tem

Cristiano Oliveira lança seu primeiro álbum, intitulado “Tudo tem Viola”, nesta sexta (26), nas plataformas de Streaming, e também o videoclipe da música “Blues para Viola”, uma das 12 faixas que compõem o álbum.

“Blues para Viola” é um lamento de quase 4 minutos, atravessado por vocalizes da cantora Nina Ferreira, em diálogo uníssono com a viola afiada e condutora de Cristiano Oliveira. A música é também uma conversa entre os mundos do Repente Nordestino e do Blues, que se expressa por meio do uso da escala mixolídio (escala característica na música nordestina) e da improvisação experimentada pelas cordas, característica profunda dessas duas vertentes. “Fiz essa música em 2010, pra viola confraternizar com a sonoridade do blues, para dançarem juntas. A música negra é lamento, é protesto à desigualdade social. Através das melodias da viola, quis expressar tudo que sinto pelo Blues e por esse movimento de resistência. Minha viola chora ao ver tanta discrepância social. […] Bebi de influências como Novos Baianos, com os vocalizes de Baby Consuelo, Hermeto Pascoal, B.B King, Quarteto Novo”, comenta Cristiano.

Quem quiser conferir o trabalho e o lançamento de Cristiano Oliveira, pode acessar o canal do Youtube do artista clicando aqui.

Clipe Blues para Viola/ Youtube Cristiano Oliveira Viola

Entre canções e músicas instrumentais, vereda principal do artista, o álbum é a expressão da viola de Cristiano, em toda sua potencialidade de diálogo com vertentes como samba, frevo, jazz, baião, blues, explorando a capacidade rítmica desse instrumento; é a viola nordestina para além de sua vertente rural ou regional, um elogio a este instrumento, bem como à magnitude e abrangência da música brasileira.

Para Ivan Vilela, professor na Faculdade de Música e no Programa de Pós Graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, na área de musicologia, o que Cristiano Oliveira faz na viola é genial. “Na minha única ida à João Pessoa conheci Cristiano Oliveira. Me espantou a maneira como tocava. Me veio na hora a palavra Selvagem, mas o selvagem do indomável, do sempre criativo, do que cria os próprios caminhos reinventando a tradição e inventando uma sua própria tradição. O selvagem que ostenta o bordão de uma verve inculta e por isso mesmo culta, original. Um gênio de fina expressão musical. A maneira como sua música soa indígena, soa negra, soa portuguesa, soa viola, soa pop e soa universal é notável!”, afirma.

“Se queres ser universal, comece por cantar a tua aldeia”, nos ensinou Tolstoi

O álbum Tudo Tem Viola é diverso não apenas no diálogo com os ritmos, mas também nas estruturas das composições e nos temas. Conta com faixas já bem conhecidas e apreciadas pelo público, como “Harmonia Sateliteana” e “Som da Mata”, singles lançados em agosto e outubro deste ano, respectivamente. A primeira é repleta de modulações que, segundo Cristiano, representam as variações de comportamento das pessoas e da natureza, o caos da cidade e as belezas do mundo. A música é construída em 8 partes (ABCDEFGH!), que vão de acordes tranquilos e harmônicos a uma virada de batidas que mais parecem um tsunami embalado pela guitarra distorcida de Marcelinho Macêdo.

Clipe Som da Mata / Youtube Cristiano Oliveira Viola


DVD Tudo tem Viola. / Capa Single Harmonia Satelitiana

Cristiano Oliveira considera que sua arte é puro amor e resistência. “Viver de música no Brasil e de arte, em geral, é traçar um caminho difícil e muitas vezes invisível. Aqui na Paraíba, o que eu faço é pura catarse contra tudo que diminui a expressão artística e a rotula. Tudo que vem de fora é valorizado e tudo que é da terra é mais barato, descartável, silenciado, diminuído. Minha música é a expressão das tensões entre a luta pela sobrevivência, a potência da música, a liberdade do fazer artístico e as prisões do cotidiano que querem nos tirar a alegria, nos enquadrar. Sou do mato, sou da mata, sou urbano, sou do cavalo marinho de Bayeux, sou do rock, minha música é a expressão dos encontros, é o outro em mim, e o meu eu no outro. Estamos aqui mostrando e afirmando que o valor da mistura, do conjunto musical e do viver com arte, do encontro da tradição com a inovação é música. Viver para a arte, da arte e pela arte vale muito a pena, pois apesar de tudo que torna o Brasil sem cultura, ou de toda prepotência de classe que define o que é ou não é cultura, amanhã há de ser outro dia”, reflete o músico, instrumentista, professor e compositor, Cristiano.

Clipe Harmonia Satelitiana/ Youtube Cristiano Oliveira Viola

Já em “Som da Mata” o artista caminha por um universo mais pop. A canção, que conta com interpretação mais adocicada de Nina Ferreira, teve sua semente brotada após uma
oficina que Cristiano fez com Naná Vasconcelos, em 1999, onde o deus do ritmo propôs trabalhar-se a rítmica corporal em fusão com os sons da mata, da natureza ao redor. É
uma canção que fala sobre a esperança por meio da natureza, que tudo nos dá e renasce a todo instante em seus ciclos.

Conta também com músicas como “Catabi”, um baião instrumental 2/4 que, diferente dos padrões de repetição da música ocidental, em 2 ou 4 compassos, brinca com repetições de 3 tempos. Cristiano conta que essa variação faz uma referência aos “catabis”, termo que na Paraíba remete aos buracos nas estradas, muito comuns no caminho que ele fazia quando criança para chegar ao sítio de seu avô, violeiro e grande influência em sua iniciação no universo musical. A música “A Lua é ela”, por sua vez, é uma “oferenda aos povos indígenas brasileiros e do mundo”, que também compõem sua ancestralidade, comenta Cristiano. O uso de maracás e a entoação em forma de mantra, nas vozes da cantora Gláucia Lima, marcam essa referência. Já a música “Simbora Zé”, feita em parceria com o poeta e cordelista paraibano Bebé de Natércio, traz influências de sonoridades hispânicas, dentro de compassos 6/8, acompanhados de uma harmonia simplificada. Acompanhada de um groove repetitivo, é uma canção que expressa a vida do trabalhador nas cidades, que busca descanso e diversão indo ao mercado comer o que gosta, encontrando os amigos, “as meninas” e curtindo música, numa referência às vivências de Cristiano na cidade de João Pessoa.

Após o lançamento do disco nas plataformas de Streaming, serão lançados mais 5 videoclipes de músicas do álbum, extraídos do documentário musical, também chamado “Tudo tem Viola”, lançado em 2019 em formato DVD, que acaba de ser exibido no encerramento do Festival Internacional de Cordas, na Ilha do Pico, em Açores – Portugal.

Um pouco mais sobre Cristiano Oliveira


Cristiano Oliveira durante gravação do DVD ‘Tudo Tem Viola’. / Lúcio César Fernandes

Nasceu em João Pessoa – PB, e é músico e compositor, tendo a viola de dez cordas como seu instrumento de destaque. Começou sua carreira em 1998, no Musiclube da Paraíba, onde trabalhou com diversos artistas, incluindo Adeildo Vieira, Escurinho, Pedro Osmar, Cátia de França e Oliveira de Panelas. No final da década de 1990, fez duas turnês pela Europa com a cantora Vera Lima, se apresentando em países como Itália, Alemanha, Suíça, Áustria e Holanda. Integrou o grupo As Parêa entre os anos 2000 a 2006, e é integrante da banda de música instrumental Néctar do Groove desde sua formação, em 2006, tendo se apresentado com a mesma em programas como Instrumental Sesc Brasil. Já assinou a direção musical de show da cantora Cátia de França e é parte integrante de sua banda em shows e turnês pelo Nordeste. Atualmente, Cristiano se dedica a sua carreira solo e lançamento de suas composições gestadas e maturadas ao longo das ultimas décadas.

Brasil de Fato | João Pessoa (PB)

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