Roberta MedinaIngressos a R$ 350, refeições custando pelo menos R$ 20, bebidas a partir de R$ 10 e sacos de pipoca a R$ 12, sem falar dos custos de passagem e hospedagem para quem não é do Rio de Janeiro. Se o Brasil ultimamente só pensa em crise econômica, esta sensação se dissipa dentro das dependências do Rock in Rio. Lotado em quase todos os seus dias, o festival, que termina neste domingo (27), parece um oásis de bonança. E Roberta Medina, vice-presidente do evento, concorda.

“A crise não chegou a afetar o Rock in Rio porque a gente fez tudo muito antecipado”, explicou Roberta em entrevista exclusiva ao UOL. “A venda de ingressos começou bem antes e os patrocínios já estavam fechados. A gente teve a questão do dólar e teve de renegociar contratos com fornecedores.” Segundo ela, só o comércio interno do festival pode ter sido afetado por isso, mas a julgar pelas filas em todos os pontos de venda, o público preferiu deixar para pensar na crise depois que o festival acabasse.

Roberta notou, no entanto, que a movimentação de dinheiro no Rock in Rio foi maior na primeira metade do evento, o que ela atribui ao fato de ter sido um final de semana que atraiu um público mais velho e com maior poder de aquisição.

 “O público da semana passada era mais velho, dono do seu dinheiro”, contou, “e o final de semana passado foi muito mais emocional, que era o que a gente queria, pelo lance dos 30 anos [do Rock in Rio]. Percebemos isso pelas compras na loja oficial, que o pessoal do final de semana passado vendeu mais porque tinha essa coisa do saudosismo, as pessoas queriam guardar essa lembrança.”

A segunda metade do evento não teve essa procura inesperada por produtos oficiais do festival. “Neste final de semana agora vendeu normal, no passado foi muito mais do que era esperado. Porque a linguagem desse fim de semana é outra: é uma linguagem bem mais atual, mais moderna e menos gente que tem essa conexão dos 30 anos”, completou.

Outra diferença em relação à primeira metade do Rock in Rio 2015 foi a nítida baixa de público durante a sexta-feira, evidente até para quem não foi nos outros dias. “Também foi uma surpresa pra gente”, Roberta contou, tentando enumerar possíveis motivos para essa queda de frequência.

“Primeiro, era sexta-feira e o trânsito da cidade piora muito, teve gente dizendo que levou três horas para chegar aqui. E como foi o último dia a esgotar, a gente aumentou a cota de ingressos dedicada aos patrocinadores. Então o que pode ter acontecido é que como ameaçou chover e era um dia muito específico do ponto de vista musical, talvez esse público que ganhou ingresso preferiu não vir, porque quem compra vem. Mas foi uma queda de público muito superior do que a gente está acostumado a ver.”

Brigada de desentupidores de banheiro

Satisfeita com a edição deste ano, embora ressaltasse que só consiga fazer um balanço final após o final do evento, ela comemorou pequenas vitórias do ponto de vista do público, mas que para a organização foram o resultado de anos de trabalho. “Se a gente só ouve reclamações porque o Bob’s e os banheiros ficam lotados no intervalo do show é sinal de que está tudo certo. Por exemplo, quando a gente vê que, esse ano, os banheiros masculinos não tinham xixi no chão, depois de duas edições ralando para conseguir isso, significa que finalmente a gente acertou.”

O banheiro feminino, por outro lado, é uma questão mais delicada. “É o nosso maior desafio por causa dos absorventes, que jogavam na privada e entupia. A gente conseguiu entender que o entupimento era um problema no fim de semana passado e nesse fim de semana colocou uma brigada de desentupidores por banheiro.”

Na parte musical, Roberta atribuiu às dimensões do festival o fato de as atrações escaladas serem óbvias ou fazerem shows tocando músicas manjadas, em muitos casos com repertório alheio. “A experiência de festival é jogar para a galera”, contou, usando como exemplo a apresentação de Robbie Williams no festival em Lisboa do ano passado. Ele iria passar no festival com o show de seu disco da época, mais introspectivo e com orquestra, mas quando seu agente viu a proporção do evento, optou por um repertório mais convencional e mudou o show que havia previsto. “Isso aqui é entretenimento”, explicou, “não é para fazer o show de carreira. O público quer cantar.”

E o público cantava mesmo quando o artista não cantava, como foi o caso darepetição do coro massivo do público em “Love of My Life”, quando o guitarrista do Queen, Brian May, deixou o público repetir um dos grandes momentos da primeira edição do festival. Questionada se não seria o caso de apresentar a tecnologia dos hologramas 3D, que está lentamente chegando às apresentações ao vivo, ela admite que cogitou fazer isso com o Queen. “Mas é um custo estúpido. Para fazer três músicas é muito caro”, explicou.

Medina não descarta a utilização deste recurso nas próximas edições do evento, caso a tecnologia barateie, mas ela faz uma ressalva: “Acho que isso funciona em um momento num show, como fizeram no [festival norte-americano] Coachella com aquele rapper [Tupac Shakur]. Já um show inteiro de holograma, eu acho que não dá. Porque o público quer olhar no olho do artista, e o artista no olho do público”.

Sem headliners brasileiros? A culpa é “dos ingleses”

Foi o que aconteceu em apresentações memoráveis de artistas brasileiros deste ano, como o reencontro de Baby e Pepeu e os shows dos Paralamas do Sucesso e Lulu Santos, que tocaram na mesma posição que anônimos estrangeiros como Sheppard e The Script. Não seria o caso de termos algum headliner nacional em pelo menos um dos dias do festival? “Isso é um problema do showbusiness internacional: não há esse espaço. É uma não-questão”, explicou. “Eles não aceitam e acabou.”

“E isso é muito desagradável porque a gente já conseguiu colocar o Jota Quest uma vez, a Ivete Sangalo outra como segunda atração do dia, mas só isso”, explica. “Há um desequilíbrio muito grande na força de negociação com as bandas, porque elas estão concentradas em agências, que são poucos caras fazendo, você não tem sequer poder de manobra, não tem nem como negociar. Se o agente diz que não quer que a tirolesa funcione durante o show, o que você pode fazer?”.

UOL

DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO