O uso da inteligência artificial para criação de conteúdos relacionados à eleição de outubro começou bem antes da campanha em si. Entre fevereiro e junho de 2026, o Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, em parceria com estudantes da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), identificou pelo menos 40 conteúdos sintéticos sobre política que viralizaram nas redes sociais brasileiras, antecipando o uso de IA na disputa eleitoral.
Como foi feita a pesquisa
O levantamento integra o relatório inédito ‘A IA do Nosso Feed’, que analisou centenas de posts suspeitos publicados em Instagram, Facebook, X, TikTok e WhatsApp, em um período em que a campanha eleitoral ainda não havia começado oficialmente e as regras para uso de IA em propaganda política ainda estavam prestes a entrar em vigor.
Durante quase 18 semanas, especialistas da Lupa e 13 estudantes da FAAP monitoraram seus próprios feeds e armazenaram 226 conteúdos que despertavam suspeita de terem sido criados ou manipulados por IA. Após verificações, 101 materiais tiveram o uso da tecnologia confirmado, e cerca de 40% deles tratavam de política, tanto nacional quanto internacional.
Vídeos dominaram o universo analisado: eles representaram 91% dos conteúdos comprovadamente sintéticos, enquanto apenas nove eram imagens estáticas. Entre os exemplos, apareceram montagens com figuras públicas pedindo votos, cenas humorísticas com tom sarcástico e avatares de IA apresentando pesquisas eleitorais falsas.
Para Beatriz Farrugia, analista de pesquisa da Lupa e responsável pelo estudo, os resultados mostram que o uso da tecnologia já faz parte da rotina informacional dos brasileiros.
Ainda estávamos no primeiro semestre deste ano eleitoral e já havia muita IA sendo usada para produzir conteúdo político e eleitoral. Isso mostra que a disputa informacional de 2026, com uso de materiais sintéticos, começou muito antes das urnas
Ela acrescenta que cresce a preocupação com a capacidade de o eleitor distinguir o que é autêntico do que é artificial em meio a esse volume de conteúdos.
Lula é alvo frequente de peças manipuladas
O recorte sobre política brasileira mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a personalidade mais retratada nos conteúdos sintéticos coletados, com 17 ocorrências. Em seguida aparecem o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com 16 registros, e o ex-presidente Jair Bolsonaro, com oito.
Lula protagonizou tanto peças de caráter político quanto conteúdos humorísticos, incluindo vídeos falsos em que supostamente prometia cortar aposentadorias ou prender críticos. Bolsonaro surgiu em materiais que promoviam a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência, reforçando narrativas favoráveis ao filho.
Flávio Bolsonaro apareceu em quatro conteúdos sintéticos confirmados, todos com foco eleitoral. Em um deles, um deepfake do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) divulgava uma pesquisa inventada que colocava o senador à frente de Lula no primeiro turno, simulando um cenário de vantagem inexistente.
Segundo Farrugia, a pesquisa não pretende dimensionar toda a circulação de conteúdos sintéticos nas redes sociais brasileiras, mas oferecer um retrato do ambiente informacional cotidiano. Na visão da analista, os dados sugerem que milhares de usuários já convivem com um fluxo relevante de vídeos e imagens produzidos por IA, sem instrumentos simples e confiáveis para identificar manipulações.
Ferramentas de detecção mostram limitações
O experimento também testou as principais ferramentas gratuitas de detecção de deepfakes utilizadas no país e encontrou limitações importantes. Em 20 casos, uma mesma imagem ou vídeo recebeu diagnósticos divergentes: enquanto uma plataforma apontava indícios de IA, outra considerava o conteúdo autêntico.
Dos 226 materiais inicialmente suspeitos, 125 permaneceram inconclusivos porque não foi possível confirmar nem descartar o uso da tecnologia, mesmo após o uso desses detectores. Em um exemplo citado no relatório, um vídeo produzido por IA mostrava Lula e Bolsonaro dançando juntos, vestidos como líderes de torcida; apesar dos sinais evidentes de manipulação, algumas ferramentas classificaram o arquivo como provavelmente real.
Diante das divergências, os autores encaminharam 20 casos ao laboratório Recod.ai, da Unicamp, que utilizou tecnologia própria para refinar a análise.
Hoje existe um descompasso entre a velocidade com que as ferramentas de geração de IA avançam e a capacidade de detectar aquilo que elas produzem. Não existe uma solução simples que permita ao cidadão colocar um vídeo em uma ferramenta e confiar plenamente na resposta. Em uma eleição, quando um conteúdo falso pode viralizar rapidamente, essa fragilidade é ainda mais preocupante
Conforme aponta a pesquisadora, o cenário exige atenção tanto dos eleitores quanto das instituições responsáveis por garantir a integridade do processo.
IA cresce na desinformação eleitoral
O relatório ‘A IA do Nosso Feed’ reforça uma tendência observada pelo Observatório Lupa em fevereiro, no Panorama da Desinformação. Nesse levantamento anterior, a participação de IA entre os conteúdos falsos analisados pela agência saltou de 4,65% para 25,77% em um ano.
Pela primeira vez, segundo o Observatório, os materiais sintéticos de desinformação sobre eleições superaram aqueles relacionados a golpes e fraudes financeiras. Para os pesquisadores, os dados indicam que a inteligência artificial já ocupa papel central nas estratégias de desinformação e deve ser um elemento decisivo no ambiente digital às vésperas da votação de outubro.
DiárioPB com Band