CRÔNICA À DERIVA

BET: quando a aposta deixa de ser jogo, vira dependência e destrói famílias

Editorial Illustration: Sérgio Ricardo Santos

Conheci o universo das chamadas bets por intermédio de um amigo, cujo nome não citarei para preservar sua identidade. Certo dia, em seu estabelecimento comercial, ele me mostrou uma sequência de apostas realizadas em um aplicativo e comemorava um ganho considerável.

Mostrando a tela do celular, ele me disse:

— Sérgio, isso aqui é ouro. Por que você não aposta? Dá para ganhar uma boa grana.

Como nunca fui adepto de apostas, tendo arriscado, no máximo, algumas jogadas ocasionais no jogo do bicho, pedi para observar melhor o aplicativo. Queria entender como funcionava aquela engrenagem que prometia dinheiro fácil.

Bastaram alguns minutos para perceber que havia algo profundamente preocupante naquele modelo de negócio.

Chamou-me a atenção a quantidade impressionante de campeonatos disponíveis: torneios brasileiros, europeus, asiáticos, divisões inferiores, amistosos e competições que sequer imaginava existir. Era uma avalanche de jogos.

Naquele instante, pensei: vivemos em um país apaixonado por futebol. O torcedor acompanha partidas diariamente, sofre pelo clube do coração, veste a camisa, transforma a paixão esportiva em parte de sua identidade e, muitas vezes, trata o futebol quase como uma religião. Inserir um sistema de apostas nesse ambiente é oferecer combustível para um comportamento potencialmente compulsivo.

Outra percepção que tive foi a respeito das chamadas oportunidades de ganho. Quanto maior a quantidade de possibilidades apresentada pelas plataformas, maior a sensação de que o dinheiro está ao alcance da mão. E quanto maior a promessa de lucro, maior também a tentação de continuar apostando.

Meu amigo mergulhou tão profundamente nesse universo que acabou se endividando. A situação tornou-se tão grave que sua saúde foi afetada. Desenvolveu problemas cardíacos, precisou ser internado, passou por cirurgia e quase perdeu a vida. Hoje está recuperado, mas continua apostando, afirmando fazê-lo “com moderação”. Ainda assim, precisou recorrer a empréstimos e contar com a ajuda da família para reorganizar suas finanças.

Trabalho com comunicação e jornalismo, e considero uma obrigação manter-me informado. O que tenho acompanhado nos noticiários é alarmante. Multiplicam-se relatos de famílias endividadas, pessoas adoecidas emocionalmente e indivíduos que perderam completamente o controle sobre seus hábitos de jogo.

Recentemente, ganhou repercussão nacional o caso do tenente da Polícia Militar de Goiás, Danilo Lopes Negrão, que acumulou uma dívida próxima de R$ 1 milhão em apostas on-line. O episódio foi amplamente divulgado após o relato de sua viúva, reacendendo o debate sobre os impactos sociais desse mercado.

Outro aspecto que me causa perplexidade é o volume de publicidade das bets nas transmissões esportivas. Em determinadas partidas, especialmente nas grandes competições internacionais, a impressão é de que a cada vinte ou trinta segundos surge uma nova propaganda de apostas.

A exposição constante normaliza uma prática que, para muitas pessoas, deixa de ser entretenimento e transforma-se em dependência.

Também me decepciona observar atletas já consagrados, multimilionários e admirados por milhões de jovens emprestando sua imagem para campanhas publicitárias dessas empresas. Evidentemente, cada profissional tem o direito de administrar sua carreira comercial, mas é impossível ignorar o impacto simbólico dessas escolhas.

Uma declaração atribuída ao atacante francês Kylian Mbappé chamou minha atenção. Segundo publicações divulgadas nas redes sociais, o jogador teria resistido à ideia de associar sua imagem a empresas de apostas.

A frase, verdadeira ou não em sua literalidade, traduz uma preocupação legítima:

“Nós somos a seleção francesa, inspiramos muitas pessoas por aí. Muitos de nós viemos da periferia, onde isso destrói um número incalculável de pessoas.”

Os números ajudam a compreender a dimensão do fenômeno.

Levantamentos recentes apontam que a maior parcela dos apostadores brasileiros pertence à Classe C, representando entre 54% e 56% do público das plataformas. Em seguida aparecem as Classes D e E. O perfil predominante é formado por homens jovens, entre 16 e 39 anos, muitos deles enxergando nas bets uma possibilidade de renda complementar ou até mesmo um caminho para melhorar sua condição financeira.

O problema é que o impacto econômico se revela profundamente desigual. Nas famílias que sobrevivem com até dois salários mínimos, quase 40% realizam apostas regularmente, comprometendo uma parcela significativa do orçamento doméstico. Em muitos casos, recursos que deveriam ser destinados à alimentação, à saúde e a outras necessidades básicas acabam sendo transferidos para plataformas digitais de apostas.

Não se trata, portanto, apenas de diversão.

As bets prosperam justamente sobre a esperança de ascensão econômica de uma população vulnerável. Vendem a ideia de liberdade financeira, enriquecimento rápido e oportunidade para todos, mas frequentemente deixam um rastro de endividamento, ansiedade, sofrimento emocional e desestruturação familiar.

Mas estou convencido de que, para milhões de brasileiros, especialmente aqueles que enfrentam dificuldades econômicas, as apostas on-line não representam entretenimento. Representam uma ilusão cuidadosamente construída pela publicidade, impulsionada por influenciadores, celebridades, clubes de futebol, emissoras de televisão e plataformas digitais.

Não escrevo estas linhas como moralista, tampouco como especialista em comportamento humano. Escrevo como cidadão, comunicador e observador atento do nosso tempo.

Este artigo não pretende condenar quem aposta, nem julgar escolhas individuais. É, antes de tudo, um alerta. Um alerta para aqueles que jogam em silêncio, que escondem o tamanho das perdas, que acreditam que a próxima aposta será a solução para os problemas financeiros e que, muitas vezes, só eles conhecem a dimensão do próprio vício.

Talvez existam pessoas capazes de apostar de forma consciente, estabelecendo limites e mantendo o controle sobre seus gastos. Não nego essa possibilidade. Mas também sei que milhares de famílias convivem diariamente com o sofrimento provocado pela dependência das apostas on-line.

Por isso, nunca apostei em uma bet.

E continuo acreditando que fiz a escolha certa.

Fontes consultadas: estudos do Banco Central, levantamentos da Anbima (Raio X do Investidor), dados divulgados pela imprensa nacional e pesquisas recentes sobre o perfil dos apostadores brasileiros.

Sérgio Ricardo Santos
Crônicas à Deriva

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Sérgio Ricardo

Sérgio Ricardo Santos é fotojornalista, colunista, produtor cultural e diretor do Portal DiárioPB e da Rádio DiarioPB. Atua como editor,… More »

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