Parque eólico na ParaíbaConhecido por sua forte irradiação solar e pelas altas temperaturas, o Seridó paraibano foi descoberto recentemente também como uma ótima fonte de energia eólica. A partir de outubro deste ano, 45 aerogeradores (nome dado àqueles ‘ventiladores gigantes’) instalados nas cidades de Santa Luzia, São José do Sabugi e Junco do Seridó, irão começar a funcionar, produzindo 94,5 megawatts de energia elétrica, o que daria para abastecer em média 150 mil domicílios. A ideia promete gerar empregos, renda e garantir lucros aos ‘vendedores de vento’. 

Foram investidos aproximadamente R$ 600 milhões no Complexo Santa Luzia, que irá contar com três parques eólicos. São eles: Lagoa I e II e Canoas. A vencedora do leilão, realizado em 2014, foi a Força Eólica do Brasil (FEB), empreendimento formado pelos grupos Neonergia e Iberdrola. De acordo com o gerente de Promoção da FEB, Leandro Montanher, a localização é ideal para a implementação dos parques eólicos.

“Tem muito potencial nesta área. É uma das melhores áreas do Brasil. Tem vento. A gente estuda o vento do local por uns quatro, cinco anos. A gente chama de uma jazida de vento, o Brasil tem algumas. Aqui na Paraíba foi um achado, foi o primeiro achado”, explicou. 

Além da energia limpa e renovável, o empreendimento gerou aproximadamente 510 empregos diretos e indiretos, além da valorização da mão de obra regional. O complexo conta com uma área total de mais de mil hectares. Segundo a CEO da Eletrorenováveis e diretora de Operação da Força Eólica do Brasil, Laura Porto, a dificuldade no acesso e a localidade dos parques, que ficam em uma área montanhosa, tornam ainda mais complexa a operação.

“Existe uma infraestrutura e uma logística muito complexa para trazer esses aerogeradores para cá. Este complexo envolve três municípios, mas vamos ter um incremento de rendimento porque envolve pessoas, que arrendamos os terrenos, pagamos impostos e movimenta a economia destes municípios. Um benéfico muito importante da tecnologia eólica porque além de fixar o homem do campo, permite também que os municípios se beneficiem com empregos, empréstimos e melhoria da infraestrutura, com acessos que foram reformados e estradas melhoradas”, disse.

Além das melhorias físicas, ainda há a intenção de se criar um projeto social na área. “Estamos tentando fechar um programa com o BNDES que irá trazer benefícios sociais. Naturalmente, vamos fazer uma pesquisa e ver quais são as necessidades da região, as características para melhorarmos. Temos esta preocupação socioambiental. Vamos fazer alguma coisa para incrementar a economia da região e também algo que seja transformador, todavia teremos tempo, porque este programa começa seis meses depois das operações dos parques”, disse Laura.

Terrenos de moradores são arrendados

Uma das preocupações da Iberdrola foi manter os moradores da região em suas propriedades. Por isso, ao invés de comprar os terrenos, a empresa decidiu arrendá-los, levando uma renda fixa à população local.

“É muito importante lembrar que nos não compramos terrenos, nós arrendamos. Queremos que as pessoas continuem no campo, com sua realidade local. E o dinheiro que pagamos é um percentual proporcional à geração; isso assegura que vai ter um rendimento e essas famílias vão poder educar seus filhos, se manterem aqui e não irem para a cidade. O modelo de desenvolvimento no país sempre pensou no litoral, então toda a infraestrutura elétrica está no litoral, e a eólica está interiorizando este desenvolvimento. No Brasil, os melhores lugares [para vento] estão no interior, nessas zonas mais altas”, explicou Laura.

São 10 contratos de arrendamento. Cada proprietário receberá 1,5% do faturamento anual do que é gerado em sua propriedade, algo estimado hoje, já que os parques ainda não estão em funcionamento, em R$ 1 milhão, dividido entre todos os contratos. Vale lembrar que há contratos com mais de um proprietário. 

Litoral x interior: onde está o melhor vento?

Ao contrário do que se imagina, os melhores ventos para a geração de energia eólica estão presentes no interior do estado, e não nas praias. 

“A Iberdrola foi a primeira experiência no Brasil a descobrir que as minas de vento não estavam no litoral, como era óbvio. Todos pensam que venta mais no litoral, mas estava no interior. E foi no interior do Rio Grande do Norte e da Bahia que se iniciaram os primeiros projetos, em 2004. A partir daí todos os desenvolvedores viram que a Iberdrola conhecia muito. Então nós fomos os pioneiros nisso também, por conta da expertise e do knowhow. Percebemos que aqui havia o vento, fizemos o atlas eólico. A Paraíba, por exemplo, é um estado que não tem um atlas eólico, mas nós já tínhamos o nosso atlas próprio, isso é muito interessante e creio que será uma nova realidade”, explanou Laura.

Realidade alterada em estado vizinho

O Complexo Santa Luzia é o primeiro na região do Seridó paraibano, mas já há uma experiência parecida no estado do Rio Grande do Norte, mais precisamente no município de João Câmara. Com uma realidade semelhante a das cidades paraibanas, o panorama atual é bem diferente em João Câmara. Além das melhorias em estradas e acessos, o local ganhou uma escola técnica para os jovens estudarem energia eólica. 

“O que pode acontecer aqui é o que aconteceu em Rio Grande do Norte. Em João Câmara, um município muito pobre onde hoje temos 1.000 MW(megawatts), não há só a gente, mas também outras empresas. Com isso, há agora uma escola técnica porque os garotos querem estudar energia eólica. Eu sou engenheira e não estudei energia eólica, eu me especializei na área. Agora as crianças querem estudar energia eólica e solar, já que também vamos fazer a solar. O que se passou em João Câmara pode acontecer aqui, ter uma escola técnica. Porque se realmente há uma demanda e mão de obra capacitada, nada mais natural do que ter uma escola técnica”, declarou Laura.

Do comércio de algodão à ‘venda de vento’

Um dos moradores da região que se beneficiou com a chegada dos parques foi Luís Cardoso, mais conhecido como Piuga. Aos 71 anos e com quatro filhos, nove netos e nove bisnetos, deixou de trabalhar com algodão para comercializar vento. 

“Eu trabalhava com algodão. Naquele tempo dava dinheiro; o povo dizia que o boi do pobre era o algodão. O povo tinha rendimento, mas chovia, agora não chove mais. Vai fazer oito anos de arrendamento já. Os outros tinham medo porque diziam que iam tomar as terras. Quando ele [o representante] chegou aqui, era umas 17h30, aí parou o caminhão e disse: estou aqui para comprar vento. Eu disse que achava estranho vender vento, nunca vi ninguém vendendo vento. Aí falei: ‘Pois se você está aqui atrás de comprar vento, tem muito’”, disse Piuga.

O agora ‘vendedor de vento’ afirmou que se não fosse a chegada dos parques teria morrido de fome.

“Se não fosse a Iberdrola, a gente estava passando fome porque não tem serviço. Não tem trabalho para nada. Quando tinha um serviço era de cerâmica, mas ainda assim fechou porque não tem água. Agora melhorou muito”, finalizou Piuga, que é proprietário de uma terra de 132 hectares e atualmente recebe R$ 3 mil por mês. 

Planos de expansão

A partir de outubro, quando começará o funcionamento do parque, serão gerados 94,5MW, que serão vendidos a um preço de R$ 167/MWh à Energisa. Porém, a ideia é expandir ainda mais, chegando a quase 500 MW. 

Gráfico Complexo Santa Luzia


Realidade da energia eólica na Paraíba e no Brasil

Atualmente a Paraíba conta com 13 parques eólicos, que produzem juntos 69 MW. No Brasil, o setor chegou ao fim de 2016 com 10,74 GW (gigawatts) de capacidade instalada em 430 parques, representando 7% da matriz nacional. Com isso, foram gerados mais de 30 mil postos de trabalho em 2016 e o investimento no período foi de US$ 5,4 bilhões. Agora, em maio de 2017, já estamos com 11 GW e mais de 440 parques.

O que dizem os ambientalistas

As empresas que trabalham com energia eólica defendem a tese de que é uma energia limpa e renovável. Mas até que ponto isso é verdade? O Portal Correio conversou com a ambientalista Paula Frassinete Lins Duarte que confirmou o ponto de vista.

“Para nós, ambientalistas, as energias alternativas, limpas, são fundamentais para que o planeta continue. Haja vista que, desde que houve a explosão industrial que as energias são produzidas pelo carvão ou petróleo. Isso tem mostrado a quantidade de poluentes e por isso estamos com a camada de ozônio cada vez mais destruída, que é a proteção da Terra. Além do aquecimento estufa que traz o degelo e o desequilíbrio nas temperaturas, haja vista que os países que estão nos polos têm sentido as nevascas mais fortes, enquanto nós estamos sentido cada vez mais as secas”, finalizou.

Portal Correio

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