Mídia & Sociedade

Mundus est immundus (A República dos maus sentimentos)

“Quando o progressismo moderno pensava já ter assepsiado tudo, eis que o vírus volta com força”

Mídia & Sociedade

A citação acima é do livro A república dos bons sentimentos do sociólogo francês Michel Maffesoli.

Maffesoli demonstra que a razão ocidental promoveu uma assepsia moral no intuito de negar tudo aquilo que possa colocar em xeque o domínio da burocracia, das novas tecnologias e da expansão do capital financeiro, que não vive mais da exploração do trabalho industrial, mas da agiotagem.

De minha parte, em se tratando do imediatismo instantâneo, promovido por mídias e governos totalitários, assesto o discurso no falseamento das realidades através da espetacularização da política ou da transformação do mundo da vida em algo a ser constantemente substituído – descartado – através da teologia do consumo.

Há um moralismo que está na origem da imobilização coletiva travestido de pensamento social, quando na verdade nada mais é que o conformismo lógico imposto pelas linguagens totalitárias das mídias.

Este conformismo lógico faz com que as pessoas comecem a acreditar que um tal mundo proposto por um sistema político (totalitarismo de massa ou não) seja o mundo real e que não há possibilidade de sobrevivência fora dele.

O conformismo lógico também diz que a única verdade é obedecer a palavra dos líderes – não importando se a manutenção da ordem seja construída através de ódio, crimes ou falsas religiosidades.

A mídia colabora, diretamente, com o conformismo lógico quando, em plena pós-modernidade, não respeita os oxímoros do mundo da vida – ou seja – a figuras de linguagens responsáveis pela união de forças antagônicas que são construídas através da fala e da escrita de comunidades mundiais.

A pandemia provocada pelo Coronavírus veio desmontar as certezas de um desenvolvimento ad infinitum plantadas na modernidade, mostrando quão frágeis são os nossos sistemas peritos, e falsa a linguagem – para usar uma expressão de Michel Maffesoli – ‘de caixeiro-viajante dos políticos”.

Alguns segmentos da sociedade brasileira aparecem na mídia negando o caráter destruído, tanto do ponto de vista econômico quanto sanitário, do Coronavírus. Estes negam até formulações bíblicas que atestam ser este mundo da ordem das impurezas, como a expressão latina de Santo Agostinho: “Mundus est immundus!” (mundo és imundo).

O vírus representa a impureza do mudo que, na Idade Média não conduziria o homem à Cidade de Deus (Santo Agostinho), mas no conformismo lógico ele atrapalha o desenvolvimento, os lucros do pernicioso capital sem trabalho.

Por isto, numa lógica antitética – contraditória – negar o vírus, sua força biológica, que pode destruir comunidades inteiras e comprometer gestos afetuosos, é desconhecer a biopotência da natureza.

Para a mídia, mantenedoras das transações capitais, não importa se o “mundus est immundus”, mas que o ciclo factual da renovação dos lucros não seja paralisado. Isto também ocorre ao discurso político totalitário, cuja regra é: combater quaisquer estruturas que ameaçam a sobrevivência de governos tirnaos.

A partir das ideias do sociólogo francês Michel Maffesoli, aprendemos que uma República dos bons sentimentos é aquela na qual o controle social se dá através de modelos explicativos, racionais, falsamente didáticos, cujo objetivo é a manipulação dos fatos sociais.

Ao anunciar como luta contra a corrupção e pela democratização do país, negando a potência letal do Coronavírus, a mídia institui no Brasil A República dos maus sentimentos – na qual as impurezas do mundo estão no outro, no adversário político do conformismo lógico.

A República dos maus sentimentos no Brasil é peculiar, não teme a expressão transcendental agostiniana: “Mundus est immundus”.

 

*Mundo és imundo.

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Wellington Pereira

Professor Titular da Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Sociologia pela Sorbonne - Paris V

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