Mídia & Sociedade

Mademoiselle mídia e a promiscuidade com Ditadores

Mídia & Sociedade

Mídia & Sociedade – Por Wellington Pereira

Nunca uma mentira mudou a temporalidade para fazer mal a um povo como o Golpe Militar de 1964 no Brasil, que aconteceu no dia Primeiro de Abril (Dia da Mentira), mas foi posto oficialmente na História tendo acontecido em 31 de março.

As ditaduras são assim: modificam as temporalidades para dominar e subjugar os cidadãos aos seus projetos de assepsia social.

A história do Golpe Militar de 1964 é uma extensão da frágil república implantada no Brasil pelas elites e seus militares de forma atrasada – em 1889 – quando a maioria dos países do continente era republicana.

Em seu livro, Pequena História da Ditadura Brasileira – 1964-1985, José Paulo Neto traça um perfil de nossa instabilidade político-republicana que vai de 1889 até os anos 1960 .

Nesse período de inseminação artificial de nossa república, Paulo Neto nos informa:

“…um presidente renunciou ao cargo(Deodoro da Fonseca, em 1891); outro foi derrubado (Washington Luiz, em 1930); um terceiro, Getúlio Vargas, que o movimento de 1930 levou ao poder (impedindo a posse de Júlio Prestes), instaurou a ditadura do Estado Novo (1037), foi deposto por um golpe em 1945 e, eleito em 1950, suicidou-se em 1954, respondendo à iminência de um outro golpe. Antes, um presidente não concluiu seu mandato (Afonso Pena, que morreu no exercício da presidência, em 1909) e outro não chegou a ser empossado (Rodrigues Alves, eleito em 1918, faleceu antes de assumir(…)”.

A longa citação extraída do livro de José Paulo Neto demonstra que a República brasileira cabe muito bem em um enredo de Shakespeare. Mas não tem o caráter restaurador da moral e dos bons costumes das tragédias gregas.

Na sua juventude, no afã de exercitar o modelo social imposto á Europa pelo positivismo, tanta nas ciências quanto na política, a República brasileira desconhecia o Brasil.

Ao desconhecer os brasis os republicanos brasileiros armaram seu exército contra os movimentos messiânicos que, aos olhos positivistas, eram antimdoernos e ameaçavam a estabilidade da República.

Numa guerra fratricida, o exército que representava o Estado moderno se lançou contra os seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos – no sertão da Bahia.

Derrotado pelas condições climáticas, pela vegetação de caatinga na maioria das batalhas, os militares contavam com o auxílio da mídia da época – os jornais impressos – cuja maioria dessas publicações enxergava nos nordestinos uma sub-raça, quase humanos – perdidos no tempo.

Não fossem as crônicas de Machado de Assis – que à época atuou como um verdadeiro ombudsman (crítico interno de jornais ou instituições), o preconceito tinha sido ainda maior.

A República brasileira do século XIX dava as mãos ao sensacionalismo jornalísticos, embora reivindicasse a cientificidade positivista dos europeus para se apresentar como nova forma de organização do poder.

A mídia e a ditadura no Brasil vão estreitar os laços, mais precisamente com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961.

Jânio governou por apenas sete meses – de 31 de janeiro a 25 de agosto de 1961. Era um histriônico. Não tinha programa de governo, mas agradava à imprensa.

Alguns historiadores gostam de lembrar que um dos motivos da ‘renúncia’ de Jânio Quadros foi a comenda que outorgou ao líder da Revolução Cubana, Ernesto Che Guevara, irritando os segmentos conservadores da sociedade brasileiras.

Mas onde estavam os jornalistas e os intelectuais de esquerda da época? Presos ou aleijados pelo Estado Novo de Vargas; que quase dizimou parte da intelligentsia brasileira.

A partir do conflito para se empossar ou não Jango começa um longo período de promiscuidade entre a mídia brasileira e a República que, através do Golpe Militar, instala, oficialmente, por mais de 21 anos -1964-1985 – uma das mais mortíferas ditaduras militares do mundo – cujos campos de concentração funcionavam ao ar livre.

O namoro da mídia brasileira com os ditadores militares começa com a implantação de um sistema de comunicação capaz de cobrir todo território nacional, através das novas tecnologias via satélite.

Enquanto os jornais impressos e algumas revistas agonizavam nas mãos de censores ad hoc, os setores de telecomunicações cresciam abruptamente – em especial o de telefonia – pois a ideia era ligar o Brasil de ponta a ponta.

As artes, música, teatro cinema, literatura eram objetos de investigação policial por parte da censura, mesmo que o autor da peça se chamasse Sófocles e tivesse existido a.C.

O Congresso foi fechado. Estudantes e trabalhadores torturados, mulheres estupradas ou empaladas, enquanto o torcedor brasileiro gritava gol de Pelé, Jairzinho ou Tostão na Copa do México de 1970, enquanto a mídia televisual vendia cigarros e uísque importados.

Parte da grande mídia tirava proveito da situação, especificamente as emissoras de TVs, como a Globo, o SBT e a Manchete.

A TV Globo foi acusada de forjar contratos com o grupo norte-americano Time Life, o que foi motivo de uma CPI (como sempre terminou em pizza).

O SBT foi um presente dos militares ao bom camelô Sílvio Santos por serviços prestados à República.

A TV Manchete nasceu dos espólios da extinta TV Tupi, que perdeu o patrimônio por conta de dívidas trabalhistas. Mas sendo do grupo Associados (Assis Chateaubriand) ainda manteve um condomínio de jornais e emissoras de rádios por todo o Brasil.

Os grandes jornais reagiam da forma como podia e se arriscavam.

O jornal Estado de S. Paulo, para advertir aos leitores mais atentos, publicava receitas de bolo no espaço das matérias censuradas.

No jornal do Brasil, o criativo editor Alberto Dines aumentava do tipo das letras para denunciar as mazelas da Ditadura Militar, entre elas, o assassinado do jornalista de origem judaica Vladimir Herzog – editor de jornalismo da TV Cultura – que morreu sob tortura nas dependências do Doi-Codi em São Paulo.

A grande resistência midiática á Ditadura Militar no Brasil se deu, até a redemocratização, através dos jornais alternativos, como Pasquim, Movimento, Coo jornal – entre outros.

O Pasquim, especificamente, teve um papel importante: corroer a ditadura por dentro através do humor – da caricatura; de um gênero jornalístico que passou a ser valorizando no Brasil: a entrevista.

Passados esses anos de violência, medo e insegurança social, eis que o ceticismo-cínico de nossa grande impressa ainda prefigura um cenário de afastamento das lutas democráticas do nosso povo – fazendo crer que a Democracia é uma forma de suportar, também, agressões à inteligência de uma nação.

E a avelha promiscuidade da mademoiselle mídia com os ditadores.

Mostrar mais

Wellington Pereira

Professor Titular da Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Sociologia pela Sorbonne - Paris V

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar
PUBLICIDADE