Kay FranceDezenove de agosto de 1979, 22h53. Wissant, França. A paraibana Kay France se levanta e dá seus primeiros passos em território francês. Ela está radiante. E é cumprimentada por uma pequena multidão. Seu pai e treinador, no entanto, é o primeiro a chegar até ela. Pai e filha se abraçam. Só eles sabem o que passaram juntos até chegar àquele momento. Ele está em êxtase. Ela, emocionada. O grupo que lhe espera na praia ensaia uma comemoração mais calorosa, apesar do frio que faz na região. É o momento exato em que a garota de apenas 17 anos finaliza, após 11h36min de natação ininterrupta, a travessia a nado do Canal da Mancha, tornando-se a primeira latino-americana e a mais jovem do mundo até então a realizar tal feito. Uma marca histórica que nesta terça-feira completa 35 anos. Ainda mais impressionante porque poucos anos antes, quando Kay decidiu realizar a travessia, ela nem mesmo sabia nadar. Aos 12 anos, nunca nem mesmo tinha entrado numa piscina.

A história começa em 1974, em João Pessoa, na Paraíba, a terra natal de Kay France. E em cinco anos de aventura, tudo aconteceu. Tudo mesmo. Ela aprendeu a nadar; começou a realizar travessias em mar aberto; se perdeu e ficou à deriva por várias horas em águas paraibanas; parou o carnaval de João Pessoa enquanto todos a procuravam; foi achada e ficou famosa no Brasil inteiro por causa disto; conheceu e foi treinada pelo único brasileiro antes dela a ter realizado a travessia (Abílio Couto); rompeu com Abílio; brigou com políticos e criticou a falta de apoio do país aos seus atletas; realizou treinos específicos em água gelada; fez uma primeira travessia extraoficial do Canal da Mancha em 1978; deixou seu nome na história do canal no ano seguinte; e desistiu da natação após fazer tudo isso, em meio a convites para competir nos Jogos Olímpicos de 1980. Estava cansada. Dos esforços e da falta de apoio. E 35 anos depois, ela desabafa:

Ninguém acredita em você até a hora em que você consegue”
Kay France, primeira mulher latino-americana a atravessar a nado o Canal da Mancha

 – Ninguém acredita em você até a hora em que você consegue. A partir daí, todos querem ter uma participação em suas conquistas.

A mudança, que transformou a menina pobre e que vivia sem luxos na jovem determinada a vencer o Canal da Mancha, aconteceu de forma inusitada. Ela conta que estava em casa, em meio a estudos e leituras, quando viu na extinta Revista Realidade uma reportagem sobre a travessia do canal. O texto falava do pioneirismo de Abílio Couto, mas ponderava que nunca uma mulher da América Latina tinha conseguido realizar tal façanha. Foi como uma droga. De efeito imediato. “Bem que uma menina da Paraíba poderia ser a primeira a fazer isso”, ela pensou.

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COMEÇANDO DO ZERO

O primeiro esforço vencido foi o de convencer o pai a lhe matricular nas aulas de natação do Clube Astrea. O pai, no caso, era o professor de educação física José Sales Pontes (morto em 1996), que dava aulas em escolas públicas da cidade, mas que era famoso mesmo como lutador de vale-tudo e pelo sugestivo nome de Terror Sanguinário. Kay France lembra que o pai costumava dizer que na dignidade de sua família tinha um pouco do sangue de suas lutas. E a nadadora não desperdiçou o sangue paterno usado para pagar as aulas de natação. Passou a ter duas sessões diárias de treinos na piscina, sendo a primeira de quatro horas pela manhã, antes de ir à escola; e a segunda de três horas à noite, após os estudos. Em pouco tempo aprendeu a nadar e quando isso aconteceu passou a treinar aos domingos no mar de Cabo Branco.

Como eles não tinham dinheiro para um barco, as travessias de Kay em mar aberto eram precárias. Ela e o pai corriam oito quilômetros de casa até o ponto de início da natação e neste momento Kay entrava no mar (assista ao lado reportagem em vídeo que fala das aventuras de Kay France). O pai acompanhava a travessia por terra, observando-a e caminhando na medida em que ela ia avançando pela água. De início, ele não sabia das reais intenções da filha, mas mesmo quando descobriu não conseguiu demovê-la da ideia. E a única saída foi apoiá-la.

A rotina de Kay permaneceu inalterada até o carnaval de 1976, quando ela e o pai foram para mais uma sessão de treinos. Ela entrou no mar à tarde e por causa de uma deficiência em seu estilo de natação à época (até então ela só sabia respirar para um dos lados), ela nadou sempre olhando para o lado oposto da praia e não notou que a forte correnteza lhe jogava cada vez mais para o fundo. Os gritos desesperados de seu pai em terra não foram ouvidos e quando ela percebeu já estava tão longe da costa que nem era mais possível enxergá-la. Ela calculou mais ou menos o lado em que deveria estar a praia e voltou a nadar, já noite, e sendo atacada por tatuís (tipo de crustáceo) que lhe feriam o corpo.   ay France finalmente pisou em terra firme estava na Praia do Poço, no município de Cabedelo, numa distância aproximada de 20 km de onde tinha começado a nadar. Machucada e cansada, entrou na primeira casa que viu. E a reação foi inusitada: “Você deve ser a menina de quem estão falando em todas as rádios”.

Neste meio tempo, o pai não tinha parado um minuto. Tentou ajuda na colônia de pescadores, mas encontrou todos bêbados, comemorando o carnaval, sem condições de pilotar os barcos. Parou uma festa de rua que acontecia na região para que todos o ajudassem a procurar a filha desaparecida e foi em todas as emissoras de rádio para alertar a população da cidade com relação ao incidente.

Kay ficou famosa. Primeiro em João Pessoa, depois em todo o Brasil. Quando o jornal sensacionalista Notícias Populares, de São Paulo, contou a história da menina que “ia ser devorada por tubarões” ao treinar para atravessar o Canal da Mancha, todos os principais jornais e revistas do país quiseram contar e acompanhar sua história. E ela virou uma celebridade.

DE REPENTE, FAMOSA

A atleta soube tirar proveito da fama repentina. Uma das primeiras jornalistas da época a tentar uma entrevista com a menina foi Luzanira Leite Rego, da Revista Manchete. Mas Kay lembra que colocou uma condição para a entrevista: queria receber os contatos de Abílio Couto, o pioneiro da travessia no Brasil (e que morreu em 1998).

– Eu sabia que só ele poderia me ajudar. Ele tinha a experiência que eu não tinha. E poderia me dar dicas de treinamento que seriam vitais para a travessia – relembra a nadadora.

Assim foi feito. Luzanira ganhou sua matéria e Kay France iniciou por telegrama uma série de conversas com Abílio, que na época ficou impressionado com o desempenho da garota em águas profundas. Depois, Abílio Couto viajou a João Pessoa, conversou com a atleta, acompanhou seus treinamentos e viajou de volta para São Paulo. Dessa vez, com Kay ao seu lado.

– Ele disse desde o início que com relação à resistência eu estava pronta para o Canal da Mancha. Mas precisaria me acostumar com a água fria do canal, que na época das travessias varia entre 9º e 14º C.

O acompanhamento de Abílio ajudou Kay, que melhorou sua técnica de natação. Ela conta ainda que com a ajuda dele treinou na capital paulista e em Ribeirão Preto. E depois, num momento mais adiante, no Rio Grande do Sul, onde as águas são ainda mais geladas.

A primeira ideia de Kay era tentar a travessia em 1977. Mas sem dinheiro e com os treinos em andamento desistiu da ideia. Fixou o ano de 1978 como nova meta. E passou a se empenhar para isso, inclusive iniciando uma incansável busca por patrocínios. Chegou a viajar para Brasília para falar com o ministro da Educação e Cultura da época, Ney Braga, que prometeu as passagens. Ela garante que teve o apoio de Abílio para que a travessia acontecesse em 1978, mas pondera que de última hora ele acabou desistindo desta ideia. Daí, o rompimento:

– Ele não foi honesto comigo. Disse de repente que eu não estava pronta e que só deveria fazer a travessia no ano seguinte. Eu discordei dele. E soube que ele queria adiar a travessia por causa de um patrocínio que ele tinha fechado, que renderia muito dinheiro. Por isso, convoquei a imprensa e rompi com ele – declara.

As vezes, quando eu saía da água, alguém chegava perto de mim e me beliscava. Queria saber se eu era de verdade. Era meio assustador”
A essa altura, todos os passos de Kay France já eram noticiados. Travessias, treinos, testes físicos e brigas. Ela era tema de debates políticos, inclusive. Um vereador de Porto Alegre, contrário ao projeto da travessia, chegou a pedir publicamente que o Governo Federal a proibisse de viajar alegando que a travessia colocaria sua saúde em risco. Mas o povo já a apoiava. E suas provas de preparação no Brasil eram sempre acompanhadas por milhares de pessoas.   

– Às vezes, quando eu saía da água, alguém chegava perto de mim e me beliscava. Queria saber se eu era de verdade. Era meio assustador. Dava vontade de voltar nadando para não passar pela multidão – comenta Kay, aos risos.

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A PRIMEIRA TENTATIVA

  Depois de Abílio, Kay voltou a ser treinada exclusivamente pelo pai. E sem a equipe médica que o ex-técnico lhe oferecia, passou a ser acompanhada pela própria mãe, Fátima Pontes, que tinha acabado de se formar em Medicina. E juntos, os três foram em busca das papeladas necessárias para a travessia. Mas a burocracia atrasou o trio, que só conseguiu chegar na Inglaterra na segunda quinzena de agosto, reta final para a realização da travessia ainda em condições favoráveis. Nos treinos, chegou a realizar o feito de forma extraoficial (sem a chancela da Associação dos Nadadores do Canal da Mancha). Confiante, marcou o dia para a prova oficial. Na véspera, contudo, um acidente entre embarcações matou mais de 20 pessoas e o canal foi fechado. Qualquer nova travessia naquele ano estava proibida.

A paraibana conta que pensou em fugir dos pais. Ficar escondida na casa de seu piloto Eddie Ottley, que era o homem responsável por estudar o tempo e a situação das correntezas para traçar o melhor trajeto para a nadadora. Ela temia não ter dinheiro para voltar à Inglaterra no ano seguinte. Mas não teve jeito. Os pais a obrigaram e ela voltou para João Pessoa sem ainda ter a marca em suas mãos.

Os treinos na Paraíba foram retomados e com isso a briga por patrocínios também. O Conselho Nacional de Desporto garantiu duas passagens, o que não era suficiente. Mas mesmo sem garantias sobre se viajaria de novo, ela continuou os treinos. A sorte de Kay France mudou em 26 de junho de 1979, quando o Globo Repórter, da TV Globo, dedicou um programa para falar dos esforços da atleta. E questionava em matéria do jornalista Francisco José “quem ajudaria a paraibana a conquistar este sonho”.

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ENFIM, A CONSAGRAÇÃO

O apelo do Globo Repórter deu resultado e uma empresa de Pernambuco resolveu apoiá-la, pagando o resto das despesas com hospedagem, alimentação, taxas da Associação (inscrição, piloto e observador), entre outros. No final de julho, Kay France viajou novamente para a Inglaterra e se instalou nas redondezas de Dover, a cidade que era o ponto-inicial da travessia.

Começou uma longa espera. O tempo na Europa estava adverso e impróprio para a travessia. O piloto era o mesmo do ano anterior, Eddie Ottley, que diariamente ia para o mar analisar as condições climáticas. Dia após dia ele observava a situação e cancelava a travessia.

– Todas as noites nós dormíamos com tudo pronto. Bagagem, equipamentos e alimentação. Tínhamos que estar preparados, mesmo sem saber se a travessia seria no dia seguinte. Porque quando o sinal verde fosse dado não teríamos tempo para mais nada – relembra Fátima Pontes, mãe de Kay.

A espera durou até o dia 19 de agosto, quando ainda bem cedo Ottley invadiu a casa em que a família da nadadora estava hospedada. “É hoje. Peguem tudo”, foi a frase do piloto segundo as lembranças da atleta paraibana.

Kay France chegou à Praia de Shakespeare bem cedo e começou a se preparar. Uma fiscal da Associação dos Nadadores do Canal da Mancha observou primeiro se a atleta não possuía nada que eventualmente melhorasse seu desempenho e depois cobriu ela com um produto para inibir a aproximação de águas vivas durante o percurso.

 Ela começou a nadar exatamente às 10h57, sendo acompanhada por um barco que levava seus pais, o piloto, o observador (responsável por atestar que todas as regras foram seguidas e que a atleta de fato fez a travessia) e uma equipe da TV Globo. As refeições eram feitas de hora em hora, por mamadeira, já que era proibido que ela se encostasse no barco durante a prova. A mãe amarrava a mamadeira num fio de náilon e a jogava para Kay. Ela abandonava o estilo “crawl” e durante a refeição nadava de costas. Todo o processo durava entre um e dois minutos.   

– Ela não podia parar porque senão era levada de volta pela correnteza, sempre muito forte. Então tínhamos que caprichar na alimentação. Para repor suas energias e principalmente esquentar seu corpo. A temperatura da água era o principal problema. E nossos medos eram com a contração dos vasos, que dificultaria sua circulação, e com a diminuição da oxigenação em seu corpo. Mas Kay estava preparada. Aguentou bem as dificuldades – relembra a mãe e médica.

Segundo as lembranças de mãe e filha, 35 anos depois, a alimentação variava entre sopa, chocolate quente e chá. Mas o documento oficial da travessia, assinado pelo observador Peter Reed, apresenta algumas divergências com relação à alimentação. Este fala em dez refeições ao longo do trajeto. Não menciona sopa e ainda inclui cacau, pêssegos e iogurte. O fato é que o alimento era “servido” sempre de forma pastosa para que fosse ingerido da forma mais rápida possível.

O documento que atesta a travessia possui outras curiosidades. Na primeira hora da prova ela manteve uma média de 76 braçadas por minuto, uma média considerada alta para nadadores de longas distâncias. E mesmo quando ela esteve no pior de seu ritmo, entre a sétima e a oitava hora, ainda assim manteve uma média de 60 braçadas por minuto.

– Ao longo da travessia, eu só pensava em coisas boas. Em energia positiva. Só pensava em voltar ao Brasil e mostrar às pessoas que a gente pode conquistar tudo o que deseja. Basta trabalhar duro e nunca desistir – resgatou Kay.

Ela retornou ao Brasil alguns dias depois. Foi recebida no aeroporto por uma multidão, desfilou em carro aberto e foi recebida por políticos dos mais diferentes estados. Mas ela não se calou. Criticou publicamente a falta de apoio e disse que a imprensa e a família foram as únicas que a apoiaram. E destacou também a empresa pernambucana que a patrocinou. Do poder público da Paraíba, “absolutamente nada”.

Em declaração ao extinto jornal Diário da Borborema, de 3 de outubro de 1979, ela resume o que passou: “Foi mais difícil chegar na Inglaterra do que atravessar o Canal da Mancha”. Com este espírito, ela desistiu do esporte. Negou convite para competir nos Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou, e foi se dedicar aos estudos. Formou-se em Medicina, ainda mora e trabalha na Paraíba e hoje é mãe de dois filhos.

G1/PB

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