Uma tradição musical preservada há mais de três séculos no Terreiro do Bogum, em Salvador, chega a diferentes palcos do país com o espetáculo “Encontro Ancestral”, do Aguidavi do Jêje. A circulação reúne 14 ogãs, mais de 18 instrumentos e 15 atabaques produzidos artesanalmente por Luizinho do Jêje no próprio terreiro.
Quatro cidades
A estreia está marcada para 20 de setembro, na Casa Natura Musical, em São Paulo, com participações de Chico César, Kabé Pinheiro e Peu Meurray.
No Rio de Janeiro, o encontro acontece em 24 de setembro, no Circo Voador, com Chico César, Gilsons, Pretinho da Serrinha e Carlinhos 7 Cordas. Em Porto Alegre, a apresentação será no dia 27, no Bar Opinião, com Davi Moraes e Emanuelle Araújo.
A circulação termina em Salvador, em 13 de novembro, na Concha Acústica, com Chico César, BaianaSystem e Ilessi.
Chico César participa de seis canções
Na apresentação com o Aguidavi do Jêje, Chico César interpreta seis músicas de seu repertório: “Mama África”, “À Primeira Vista”, “Tambores”, “Dúvida Cruel”, “Deus Me Proteja” e “Pedrada”.
“Já havia uma conexão muito forte entre nós, construída em encontros anteriores. A música do Aguidavi do Jêje tem uma origem religiosa, e a minha parte de uma perspectiva secular, mas ambas se encontram na tradição e na ancestralidade africana. A música brasileira tem uma relação profunda com as matrizes musicais africanas, e não há como separar a nossa música dessa tradição que vem dos terreiros. São elementos que muitas vezes estão presentes de forma sutil, mas, quando acontece um encontro como esse com o Aguidavi, essa conexão fica explícita. Para mim, estar com eles fortalece a dimensão de transcendência do meu trabalho e da minha própria existência. E isso é muito bonito”, afirma Chico César.
A proposta do espetáculo é adaptar cada apresentação aos artistas convidados. O Aguidavi do Jêje permanece como núcleo musical, enquanto os diferentes repertórios são incorporados à formação percussiva ligada aos ritmos da nação Jêje-Mahi.
Vozes, dança, narrativas e instrumentos integram as apresentações ao lado dos tambores, aproximando conhecimentos preservados no terreiro de novas criações musicais.
Música preservada no Terreiro do Bogum
A trajetória do Aguidavi do Jêje está ligada ao Terreiro do Bogum, em Salvador, apontado como um dos mais antigos terreiros de Candomblé do país. Nesse espaço, conhecimentos musicais foram mantidos e transmitidos entre gerações por meio da oralidade, da convivência, da escuta e da prática.
Os ritmos da nação Jêje-Mahi estão entre as bases da música do grupo. Formado por ogãs, o conjunto mantém uma relação direta com essa tradição e leva aos palcos instrumentos e práticas vinculados ao terreiro.
Sob direção musical de Luizinho do Jêje e Kainã do Jêje, o grupo reúne 14 ogãs e mais de 18 instrumentos. Entre eles, estão 15 atabaques confeccionados artesanalmente por Luizinho do Jêje no Terreiro do Bogum.
A percussão coletiva ocupa o centro do espetáculo e conduz as diferentes participações. Em “Encontro Ancestral”, os ritmos preservados no terreiro são apresentados como uma linguagem que continua sendo desenvolvida a partir do diálogo com outras expressões da música brasileira.
Reconhecimento internacional
A trajetória do Aguidavi do Jêje ganhou projeção internacional em 2024, quando o grupo se tornou a primeira orquestra afro-percussiva com um álbum indicado ao Grammy Latino.
“É de uma importância muito grande para a gente mostrar nossa música de raiz, nossa composição e nossa batida, que vêm do terreiro de Candomblé da nação Jêje. O Encontro Ancestral é uma oportunidade de levar essa música para o mundo e, ao mesmo tempo, encontrar artistas de diferentes estilos e criar novas levadas para suas canções, trazendo a nossa linguagem dos atabaques. Foi um processo de muita dedicação e cuidado, e o resultado é um projeto muito autoral, que encanta o público e mostra a força da nossa raiz e da nossa cultura.”
Outro marco foi a gravação de “Violão de Cabaça” com Gilberto Gil, além de outras colaborações do grupo com artistas da música brasileira.
A circulação de “Encontro Ancestral” coloca os encontros com convidados no centro da proposta. A cada cidade, uma formação diferente se junta ao Aguidavi do Jêje, criando novas combinações a partir dos ritmos e da identidade musical do grupo.
O trajeto começa em Salvador, território onde a tradição foi preservada, passa por diferentes regiões do país e termina novamente na Bahia. Ao longo da circulação, os atabaques permanecem como elemento central de uma proposta que leva a música de terreiro a diferentes espaços da produção cultural brasileira contemporânea.
Serviço
Evento: Encontro Ancestral
Ingressos: https://bit.ly/4gVcDdB