Dalmo e Dom Marcelo
Edição de imagem: Sérgio Ricardo/DIÁRIOPB

Fui crismado por Dom Marcelo Pinto Carvalheira, em Guarabira. Minha mãe e minha tia eram ativistas orgânicas na Diocese da Rainha do Brejo, cujo fundador havia sido o bispo Carvalheira. Semana passada, com a morte do beneditino, a sociedade paraibana pode expressar algumas das memórias que marcaram a trajetória dele em terras paraibanas.

Quando eu passei no vestibular, em 1985, resolvi dar uma festa de bota-fora para meus amigos. Na boquinha da noite Dom Marcelo chega lá em casa e nos pega meio de surpresa ultimando os pratos para os tira-gostos. “Não poderei ficar para a festa, mas trouxe para você uma lembrancinha”, disse me entregando um pacotinho embrulhado em papel de presente. Era uma caneta prateada! “A profissão de jornalista é muito importante para o povo. Escreva apenas a verdade!”, disse o religioso com seu sorriso generoso e amigável. O bispo, que mantinha uma relação muito orgânica com os católicos da região, beliscou alguns petiscos, tomou um suco de cajá, nos deu suas bençãos e foi embora.

A caneta, mais tarde, desapareceu, mas o que ele me disse jamais sairá da minha cabeça. Nos primeiros anos da faculdade, o conselho do bispo ressoava na minha mente toda vez que eu abria a mochila e via a caneta. Mas o sentido daquelas palavras só foi mesmo compreendido quando, já formado, fui trabalhar no jornal O Norte e as primeiras pautas sociais começaram a me ser encomendadas.

Falar a verdade, escrever a verdade… ver a verdade não é uma tarefa tão simples para um jornalista neófito, como se possa imaginar. Uma vez, perto do natal, recebi uma pauta para escrever sobre a situação de famílias sem-teto que ocupavam um antigo prédio da FAC, nas Trincheiras. Para mim foi chocante encontrar tantas crianças e seus pais vivendo e sobrevivendo num ambiente tão ruim, em meio ao lixo, esgotos, ratos e baratas. Eu tenho orgulho daquela matéria. Marcou minha rápida trajetória de repórter. Naquele dia eu escrevi com a mão e o coração de Marcelo.

Ele foi um bispo orgânico. Vivia a vida de sua comunidade. Gostava das pessoas humildes. Não era um burocrata de gabinete com ar-condicionado. Percorria a freguesia eclesial nas periferias. Visitava os enfermos. Recebia muitas demandas na residência oficial. Intercedia em conflitos sociais e agrários no Brejo. Sua ação corajosa, firme e iluminada foi fundamental para desmantelar uma gangue de “justiceiros” que exterminava criminosos, culminando com a detenção do sargento Givanildo, em Guarabira.

Tem uma história que tia Neves conta sobre o período em que a Ditadura manteve Dom Marcelo encarcerado: às vezes ela ia visitá-lo e, voluntariamente, fazia alguma faxina em suas humildes instalações. Uma vez, durante a limpeza, ela viu uma barata e, espantada, anunciou que iria detonar o inseto asqueroso. “Precisa não Neves. Deixe a bichinha! Quando eu fui preso elas eram minhas únicas companhias”, teria comentado o clérigo.

Em sentido contrário às máquinas…

Aproveito o Dia Mundial do Teatro (27 de março) para render homenagens e agradecimentos públicos ao meu amigo Pedro Osmar Gomes Coutinho, afinal foi por culpa dele que debutei nessa onda no final dos anos 80, fazendo luz e som na montagem da peça “Em sentido contrário às máquinas segue o homem tocando seu violino”, numa aventura muito telúrica e libertária com a galera do grupo PREFÁCIO, que militava no teatro comunitário local.

No elenco: Bento Junior, Geraldinho Santos, Mana Lia Aquino Gouveia, Vagneide Silva e Gerimaldo Nunes. Um pouco antes, havia feito fotos de performances do grupo nas intervenções em cemitérios da capital, batizadas de “Prefaciando Augusto”. Seria o que hoje o que a galera LGBT chamaria de “lacração”, em pleno dia de finados um bando de loucos, vestindo preto, com hipoglós na cara, recitando, aos gritos, os poemas mais funesto do gênio de Sapé.

Recentemente voltei a ter contato com essa arte através do mestre Fábio Mozart, do teatrólogo e diretor Marcos Veloso e do irrequieto Jacinto Moreno. Destaco ainda o prazer da amizade com Edilson Dias Fernandes, Palmira Palhano e Kalline Brito. João Balula e sua Federação Paraibana de Teatro Amador (FPTA) também trouxeram o universo teatral para minha experiência de vida. Makarios Maia me introduziu o teatro do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. O espanhol Moncho Rodriguez também nos deixou estupefatos com “As Velhas”. Fernando Teixeira é meu monologuista predileto, desde que ví “O tomate esmagado por um carro” no Santa Roza em 1989. E “Val da Sarapalha”… sem comentários.

Na Paraíba, escritores, diretores, atores, ensaístas, encenadores, cenógrafos e outros buliçosos dos palcos fazem um dos melhores teatros do mundo… somente!

Ao vivo

Uma experiência com radioweb que montamos há dois anos, com o pessoal da Sociedade Cultural Posse Nova República e o Coletivo de Comunicadores Populares Novos Rumos, entra numa nova fase. A partir dessa semana estaremos transmitindo ao vivo pela internet através das ondas da RadioWeb Zumbi dos Palmares, cujos estúdios estão provisoriamente instalados num sótão lá em casa.

Da minha parte, pretendo fazer intervenções diárias, de segunda a sexta-feira, a partir das 19h, num programinha que estou batizando de “Boca da Noite”. A ideia é fazer um resumo crítico das notícias do dia, da cobertura da mídia convencional, analisar e interpretar narrativas que chegam às esferas públicas. Hoje o rádio voltou a ser meu hobby preferido.

Pela internet, com uma boa conexão, é possível transmitir online áudio e vídeo. O Boca da Noite vai noticiar também aquilo que o noticiário padrão nem considera “notícia”. A pauta fora do eixo, escanteada, com foco na comunidade e na promoção de cidadania e de fomento ao espírito crítico dos ouvintes. A Zumbi já possui dois outros programas consolidados: o Alô Comunidade, que fazemos todo sábado, a partir das 14 horas, em parceria com a Tabajara AM. E o Multimistura, uma espécie de terapia radiofônica grupal em que eu, Fábio Mozart, Marcos, Veloso, João Rafael Jr, Fabiana Veloso e Beto Palhano montamos uma roda de diálogos para falar de tudo aqui que nos dá na teia, analisando fatos importantes, pitorescos e midiáticos da vida brasileira e até mundial. É o maior barato!

Por Dalmo Oliveira

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