A disputa para escolher o candidato do Partido Democrata que concorrerá contra Donald Trump nas eleições do ano que vem começa a ganhar contornos mais definidos hoje à noite, em Miami, com o início do ciclo de 12 debates marcados até abril. Com 24 postulantes à Casa Branca , o maior número de inscritos de qualquer partido da História americana, os democratas dividiram o seu primeiro debate em duas noites, hoje e amanhã, com dez candidatos em cada.

A divisão dos candidatos se deu por meio de sorteio, mas quis o acaso que, entre os cinco favoritos, só a senadora Elizabeth Warren estivesse na primeira noite, com os outros quatro — o ex-vice-presidente Joe Biden, o senador Bernie Sanders, a senadora Kamala Harris e a revelação Pete Buttigieg — concentrando-se na segunda. Os primeiros debates devem ser decisivos para limar os candidatos menos competitivos, que, caso não se destaquem, rapidamente se verão sem dinheiro e apoio para continuar suas campanhas.

Para qualificar-se para estar em Miami, os candidatos precisaram preencher um de dois critérios: ou ter no mínimo 65 mil doadores para suas campanhas, com ao menos 200 doadores em 20 estados, ou então aparecer com pelo menos 1% das intenções de voto nas principais pesquisas. A exigência será a mesma para a segunda rodada de debates, dias 30 e 31 de julho em Detroit, e dobra para o terceiro, dias 12 e 13 de setembro, em local ainda não definido, o que deve reduzir o número de concorrentes.

Cada noite de debate terá duas horas, e o tempo para cada candidato expor propostas deve ser diminuto.

— Será muito difícil distinguir os candidatos. Os mais fortes vão evitar grandes erros, enquanto todos os outros vão tentar fazer algo para chamar a atenção — disse ao GLOBO o cientista político Sandy Maisel, da Universidade Colby.

Pesando no pano de fundo contra todos estará a pergunta sobre quem tem as melhores possibilidades de desafiar com sucesso Trump nas urnas:

— Os eleitores democratas votarão em quem acharem que tem mais chance de derrotar Trump. Joe Biden tem se fortalecido por ter a experiência como vice, mas também por conta da ideia de que ele pode atrair apoiadores de Trump e eleitores moderados — afirmou o cientista político Alan Abramowitz, da Universidade Emory. — Já os candidatos mais progressistas, como Sanders e Warren, dizem que podem se sair melhor motivando os eleitores. O debate é sobre quem pode ter mais força para derrotar Trump.

Se não em termos matemáticos, ao menos na prática, o candidato democrata costuma estar definido em meados de março do ano eleitoral — foi este o caso com Hillary Clinton, em 2016, e, antes dela, com Barack Obama em 2008. Apesar disso, analistas dizem que este processo eleitoral pode se prolongar por meses, possivelmente estendendo-se até a Convenção do Partido Democrata em julho, o que não acontece desde 1952.

Dois fatores explicam a possível prorrogação. Em termos políticos, o Partido Democrata está crescentemente dividido, entre uma geração mais nova, urbana e progressista, que tende a apoiar candidatos como Bernie Sanders e Elizabeth Warren, e seus adeptos mais tradicionais e moderados, que hoje endossam majoritariamente Biden — uma fragmentação que dificulta consensos. Nas pesquisas até aqui, Biden aparece com 38%; Sanders, 19%; Warren, 13%; Buttigieg, 7%; e Kamala Harris, 6%. Em pesquisas de junho de 2015, um ano antes da convenção democrata, Hillary Clinton aparecia com 75%, e Sanders, com 15%.

Novas regras

Novas regras eleitorais também podem contribuir para a demora da definição. Os chamados superdelegados— categoria com direito automático a voto na convenção de julho, criada na década de 1980 para assegurar o predomínio das alas mais fortes do partido — terão a influência reduzida, não podendo mais votar logo no começo das primárias, mas só em julho. Em 2016, muitos dos superdelegados, que compõem cerca de 15% do total dos votantes na convenção, apoiaram Hillary desde antes do começo do processo eleitoral. Os seus votos foram contabilizados nas principais pesquisas, o que, segundo críticos, transmitiu a impressão de que ela tinha vencido mais disputas do que de fato acontecera.

As primárias começam em fevereiro, quando diversos estados votam. Ao final do mês, o número de candidatos deve ter caído para não mais que um punhado de nomes. Até aqui, Joe Biden, um homem branco moderado — o que pode atrair eleitores de Trump — com a experiência de ter sido vice de Obama, é o favorito. No debate, isto o torna um alvo preferencial dos concorrentes, que tentarão enfraquecê-lo. Na semana passada, o candidato deu munição aos críticos, após dizer como manteve boas relações com senadores defensores do segregacionismo racial na década de 1970, na mais recente de uma série de gafes. A tendência a cometer este tipo de erro pode ser sua principal fraqueza:

— Biden já cometeu vários erros. Parece que ele não consegue encontrar um tom correto, a estratégia correta. Seu desempenho nas últimas semanas levanta dúvidas sobre sua capacidade para formular uma narrativa à Presidência— afirma o cientista político David Schultz, da Universidade Hamline.

Jovem vice

Se for o escolhido, o senador de 76 anos deve precisar de um nome jovem para disputar como o seu vice, e a senadora negra Kamala Harris é uma das favoritas ao posto. Harris está em quinto nas pesquisas, mas tem poucas chances de ser a vencedora das primárias, pela ideia de que não apela ao eleitorado de Trump. O mesmo se aplica a Buttigieg, que até pouco tempo era pouco conhecido e é abertamente gay.

Os maiores competidores de Biden são os senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren, ambos identificados com a ala mais progressista do Partido Democrata. Destes, Sanders, de 77 anos, encontra mais resistência das alas mais poderosas do partido, por ser visto como excessivamente de esquerda e insubordinado. Warren tem a seu favor o fato de ser uma mulher e vem crescendo nas pesquisas, ao inverso do socialista. Qualquer que seja o vencedor, se levar a Casa Branca em 2020, deve ter que lidar com um Senado de maioria republicana, o que significa que não conseguirá avançar nos pontos mais polêmicos da agenda. O principal para o Partido Democrata, hoje, é mudar o ocupante da Casa Branca.

— Sempre que se trata de reeleição, as pessoas votam baseando-se na opinião sobre o atual presidente. Isto é ainda mais forte no caso de Trump — disse Alan Abramowitz.

O Globo

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