Mídia & Sociedade

Covarde, quo vadis? (a construção da servidão voluntária brasileira)

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Há livros cujo título, invariavelmente, nos conduz a uma reflexão filosófica.

O livro de Étienne de La Boétie, A servidão voluntária já no título nos faz pensar nos antônimos da liberdade.

La Boétie foi um filósofo francês que nasceu na região do Périgord, na França, em 1530, e morreu muito jovem, aos 33 anos, aos 33 anos de idade.

Étienne foi um garoto prodígio que se dedicou ao Direito e ao estudo das línguas, tendo sido considerado um gênio nas escolas jurídicas da França, sobretudo na Universidade de Orléans, como também na Universidade de Bolonha (Itália), a universidade mais antiga do mundo.

Por seu talento jurídico, dominando em várias línguas, desde muito jovem, sobretudo o latim, Boétie ocupou cargos importantes na Corte francesa, sendo conselheiro de Bordeaux e representante francês no exterior.

Mas o que nos interessa neste artigo não é traçar um perfil de Étienne de La Boétie, mas discutir a atualidade do seu ensaio A servidão voluntária, obra que deixou a cargo do seu grande amigo Michel de Montaigne para ser editada.

Ao reler a obra de La Boétie senti que boa parte dos eleitores brasileiros foram ‘levados’ – e isto pode ser visto como uma das pragmáticas do Regime republicano, mas especificamente da República de coalizão no Brasil – a acreditar – por conta dos confrontos acirrados com a esquerda – em um salvador-justiceiro, armado e com licença para matar, a mesma que a Rainha da Inglaterra concedeu a 007.

Uma das questões que podemos extrair do texto d’A servidão voluntária é: como depois das agressões proferidas pelo presidente Jair Messias Bolsonaro contra instituições, Ongs, trabalhadores, e militantes pelos Direitos Humanos metade do Brasil permanece calada, e grande parte da mídia – jornais, emissoras de TV – apenas anuncia os fatos sem nenhuma reflexão crítica – com exceção do The Intercept.

Quem cala consente! Amanhã poderá não haver mais tempo para recuperar algumas garantias sociais conquistadas com muita luta por vários setores da sociedade – de forma mais enfática por trabalhadores e categorias profissionais que respondem, diretamente, pelo equilíbrio social no combate às desigualdades.

Por que aceitamos tantas agressões? Ainda guardamos ódio e rancores do outro ideologicamente diferente? Mas agora o atrevimento do presidente passou dos limites, como bem enuncio o ministro Celso de Melo, decano do Supremo Tribunal Federal (STF).

O presidente agride até seus aliados no ‘passé composé’, prática uma misoginia de porta de botequim, fazendo gracinhas com as mulheres – como o fez na Arábia Saudita, afirmando que toda mulher gostaria de passar uma tarde com um príncipe – quando na verdade era ele que teria um compromisso diplomático com o monarca.

Até quando suportaremos essas agressões? Serão mais quatro anos de opróbio e humilhações no campo da saúde, educação, moradia, segurança, desastres ambientais?

Eu não entendo o nosso estado de catatonia diante deste político eleito pelo voto direto, mas que governa como um Rei-Leão entre hienas, como ele denominou algumas instituições, imprensa e políticos ‘inimigos’. Mas esta era a mesma dúvida de La Boétie no séc. XVI, vejamos:

“Agora gostaria apenas de compreender como é possível acontecer, que tantos homens, tantos, burgos, tantas cidades, tantas nações, suportem às vezes um único tirano, que só tem o poder que lhe outorgam; que não em poder para ofendê-los, senão; que não saberia fazer-lhes mal algum, senão que prefiram suportá-lo a contradizê-lo.(..) surpreender-se de ver milhões e milhões de homens servir miseravelmente, subjugados por ele(…)”. Étienne de La Boétie in A servidão voluntária.

Como La Boétie eu também não entendo o porquê do medo paralisante diante dos atos do governo mais despreparado da história da República brasileira.

Mas talvez a base desta nossa servidão não seja apenas o medo da tirania dos milicianos que dominam as cidades e parte da administração pública através de autoridades públicas venais: ela pode estar enraizada no ódio geométrico às faces da pobreza que agridem o ideal pequeno burguês daqueles que, em um País como o nosso, acham que venceram na vida, são superiores aos menos escolarizados ou aos personagens da canção de Belchior: “Um preto/ um pobre/ um estudante/ uma mulher sozinha”.

O modelo da Servidão Voluntária na pós-modernidade é: aniquilar o outro para que ele não me sirva de arquétipo.

Por isso, lembrando da resistência dos atenienses dominados pelos lacedemônios (espartanos) depois da Guerra do Peloponeso, caberia perguntar aos medrosos: Covarde, quo vadis?*

*Quo vadis? (Para onde vais?)

(Wellington Pereira – 31/10/2019)

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Wellington Pereira

Professor Titular da Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Sociologia pela Sorbonne - Paris V

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