Mídia & Sociedade

Carnaval, mídia e Paródia

Mídia & Sociedade

A maioria do povo brasileiro assisti ao Carnaval através das transmissões televisuais.

O desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo- do ponto de vista midiático – se tornaram uma metonímia dos Festejos de Momo – o todo – embora as partes, carnavais alternativos, comecem a ser explorados pela mídia. 

O Carnaval que passa na TV é diferente do que é visto e sentido pelos foliões, pois ele é recortado, embalado e transformado em evento.

Simultaneamente, os telespectadores acompanham, através da mídia, dois tipos de carnaval: 1) um evento enunciado de acordo com a temporalidade da informação jornalística; 2) um espetáculo cuja beleza estética deve atender às regras do estatuto das  artes – no caso do desfile das escolas de samba.

Assistir ao desfile das escolas do Rio de Janeiro ou São Paulo através da TV – na maioria das vezes – é reforçar os referentes dos fatos que são transmitidos a partir de uma gramática dos meios de comunicação de massa: o enquadramento das câmeras, a enunciação dos repórteres, a opinião dos especialistas. 

Mas, para além da assinatura midiática, o desfile das escolas de samba se inscreve em outro modo narrativo: a arte. Por isso, a ideia de um samba-enredo (ou samba-de-enredo) que conduz a meta-narrativa distribuída nas alas, carros alegóricos, mestre-sala e porta-bandeira, bateria, harmonia e o preenchimento de espaços vazios na avenida.

As escolas de samba trazem para a avenida uma velha e longa dicotomia estética: a relação entre conteúdo e forma. Para os diretores e carnavalescos o grande desafio em um desfile é diminuir – justamente – os atritos entre forma e conteúdo.

A arte no ocidente – a partir da herança de Platão e Aristóteles – passou a valorizar mais o conteúdo do que a forma –  num esforço nem sempre correto de definir a produção artística como simples imitação – o que os teóricos chamam de mimese.

Susan Sontag, em seu livro, Contra a Interpretação, nos ajuda a perceber que a teoria mimética da arte é uma forma de desvalorizar a união entre forma e conteúdo, obrigado a manifestação artística a se justificar.

 Nesse sentindo, Aristóteles se contrapõe a Platão e refuta o caráter simplesmente imitativo da obra de arte, demonstrando sua utilidade.

Outro problema, seguindo a tradição da retórica grega, é pensar o conteúdo como o essencial e a forma como acessório ou embalagem. Esse aporia é irrelevante no tocante ao desfile das escolas de samba, porque nelas o importante é a conexão estética para que o enredo possa fluir naturalmente. 

Quando a mídia enuncia formas e conteúdos das escolas de samba – no geral – ela parte do texto manifesto para buscar um significado latente, ou seja, ela está interpretando.

Interpretar uma obra de arte é acrescentar uma visão extra que ora pode aproximar o estético da vida cotidiana, ora pode afastá-lo – porque toda interpretação é arbitrária.

Quem assiste ao desfile das escolas de samba através da TV pode concordar com a reminiscência de Sontag quando cita Nietzsche: “Não existem fatos, apenas interpretações”. Essa citação cabe bem para definir o trabalho dos comentaristas midiáticos em relação às escolas de samba. 

Mas não caso das escolas a interpretação midiática não consegue alcançar um terceiro nível, que é o exercício parodístico que repousa, cotidianamente, no seio da comunidade representada pela escola de samba.

  1. Para fugir do controle da interpretação e da necessidade de buscar uma utilidade para o que se considera apenas mimético (imitativo) as escolas de sambam transformam enredos em paródias do mundo da vida –  reconstrução do com direito a todas as figuras de linguagem

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Wellington Pereira

Professor Titular da Universidade Federal da Paraíba. Doutor em Sociologia pela Sorbonne - Paris V

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