
Parece inacreditável, mas aconteceu em João Pessoa. Um senhor foi impedido de entrar nas dependências da Rádio Tabajara FM porque estava vestindo bermuda. O episódio, relatado em artigo publicado por Palmarí H. de Lucena, no site Palmarí na Estrada, provoca indignação e abre uma discussão que vai muito além de uma simples exigência de vestimenta: até onde pode chegar o formalismo de uma instituição de comunicação?
A situação é desconcertante. Afinal, estamos falando de uma emissora de RÁDIO, um veículo cuja principal finalidade é transmitir sons, palavras, opiniões, entrevistas e informações. Não estamos falando de uma emissora de televisão, de um programa de auditório ou de uma cerimônia de gala. O público que acompanha uma entrevista pelo rádio não está vendo as roupas do convidado. Está ouvindo suas ideias.
Então, qual seria a justificativa para impedir a entrada de um senhor convidado a participar de uma entrevista simplesmente porque estava usando bermuda?
A RÁDIO TRANSMITE A VOZ, NÃO O COMPRIMENTO DA CALÇA!
O episódio expõe uma mentalidade que ainda insiste em confundir aparência com competência, elegância com inteligência e vestimenta com dignidade. Como se uma pessoa se tornasse mais preparada, respeitável ou merecedora de atenção por estar usando calça comprida, camisa social e sapatos engraxados.
A situação ganha contornos ainda mais contraditórios quando observamos a realidade climática de João Pessoa. A capital paraibana vem enfrentando dias de calor intenso, com temperaturas elevadas, em um cenário de aquecimento que preocupa o Nordeste. Nesse contexto, a bermuda não representa desleixo, falta de educação ou desrespeito a uma instituição. É uma opção de vestimenta confortável e perfeitamente compreensível diante das condições climáticas de uma região tropical.
Mas existe uma dimensão social ainda mais profunda nessa história.
Para milhões de brasileiros, especialmente trabalhadores e pessoas de menor poder aquisitivo, roupas leves e confortáveis são também uma questão de economia e necessidade. Pessoas idosas, trabalhadores que enfrentam diariamente as altas temperaturas e cidadãos que não dispõem de recursos para acompanhar determinados padrões de vestimenta também precisam ser respeitados.
Será que alguém deve ser tratado como cidadão de segunda categoria porque não está vestido de acordo com as exigências estéticas de determinada instituição?
O RÁDIO NASCEU POPULAR. NÃO PODE SE TRANSFORMAR EM CLUBE DE APARÊNCIAS.
A Rádio Tabajara FM possui uma história importante na comunicação paraibana. Por isso mesmo, episódios dessa natureza merecem reflexão. Uma emissora pública, com uma trajetória ligada à informação, à cultura e à comunicação, precisa estar permanentemente aberta ao diálogo e à diversidade social.
Não se trata de defender a ausência de regras dentro das instituições. É perfeitamente legítimo que uma emissora tenha normas de organização e conduta. O que precisa ser questionado é a razoabilidade de uma exigência que, em uma entrevista radiofônica, termina por impedir a participação de um convidado por causa de uma peça de roupa.
E fica outra pergunta incômoda: será que a mesma exigência seria aplicada com o mesmo rigor caso o entrevistado fosse um empresário de grande porte, uma autoridade política ou uma personalidade conhecida? Ou determinadas formalidades acabam pesando mais sobre pessoas comuns, sem prestígio social ou poder econômico?
É uma reflexão necessária, porque o episódio não diz respeito apenas a uma bermuda. Diz respeito à maneira como as pessoas são recebidas, tratadas e reconhecidas em espaços que deveriam estar abertos à sociedade.
A Constituição Federal estabelece a dignidade da pessoa humana como fundamento da República e assegura a igualdade perante a lei e a liberdade de manifestação do pensamento. Esses princípios também precisam orientar a cultura de respeito e convivência nas instituições.
UMA ENTREVISTA DEVERIA SER UM ENCONTRO DE IDEIAS, NÃO UM DESFILE DE ELEGÂNCIA.
O mais contraditório é que estamos falando de um veículo cuja própria razão de existir é dar voz às pessoas. Impedir a entrada de um entrevistado por causa da roupa é transformar uma questão secundária em obstáculo à comunicação.
A inteligência não depende de traje social. O conhecimento não está condicionado ao uso de calça comprida. A dignidade humana não tem etiqueta de preço, e o respeito não deveria ser concedido de acordo com a aparência de quem chega.
Que o episódio sirva de reflexão aos responsáveis pela Rádio Tabajara FM e à direção da Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), responsável pela administração da emissora.
Atualmente, a EPC é presidida pela jornalista Naná Garcez, a quem cabe, na condição de dirigente da instituição, acompanhar os questionamentos relacionados à gestão da empresa e aos serviços de comunicação sob sua responsabilidade. Não se trata de atribuir à presidente a ordem que motivou o episódio, mas de reconhecer a importância de um esclarecimento institucional sobre o ocorrido.
No fim das contas, o ouvinte quer informação, conhecimento, opinião e boas entrevistas. Não está interessado em saber se o convidado chegou de bermuda, calça jeans ou terno e gravata.
A RÁDIO TRANSMITE A VOZ, NÃO A ROUPA. ABRE-SE O MICROFONE PARA AS IDEIAS, NÃO SE FECHA A PORTA POR CAUSA DAS APARÊNCIAS!
Porque uma sociedade verdadeiramente democrática não escolhe quem merece ser ouvido pelo que veste, mas reconhece que todas as pessoas têm dignidade e direito à palavra.
ESPAÇO ABERTO À MANIFESTAÇÃO
O Portal DiárioPB deixa seu espaço aberto à Rádio Tabajara FM e à direção da Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), presidida pela jornalista Naná Garcez. Caso a direção da empresa ou sua atual presidente queira se manifestar a respeito desta matéria, o DiárioPB estará à disposição para publicar sua manifestação.
O portal também se coloca à disposição para publicar eventual nota oficial ou manifestação da emissora, garantindo o direito de resposta e o contraditório.
Com informações do artigo de Palmarí H. de Lucena, publicado originalmente no site Palmarí na Estrada.