BRASIL

Passe livre nos ônibus aos fins de semana pode custar R$ 12 bilhões, estima governo

Proposta de Lula prevê financiar a gratuidade com recursos de emendas parlamentares, sem ampliar despesas primárias

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estima que serão necessários aproximadamente R$ 12 bilhões por ano para garantir a gratuidade do transporte público urbano aos sábados, domingos e feriados em todo o Brasil. A proposta, encaminhada ao Congresso Nacional em outubro, pretende utilizar parte dos recursos das emendas parlamentares obrigatórias para financiar o benefício, sem elevar as despesas primárias da União.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a estimativa oficial é contestada por representantes das empresas de transporte e analistas econômicos, que calculam custos mais elevados para a implementação da medida. Dependendo da abrangência do programa e da inclusão de metrôs e trens, os gastos poderão chegar a R$ 20,8 bilhões anuais.

A proposta de emenda à Constituição (PEC), enviada ao Congresso em 21 de outubro, prevê destinar 26,8% das emendas parlamentares de execução obrigatória ao financiamento do passe livre. Considerando a previsão de R$ 44,8 bilhões em emendas para 2027, o percentual corresponde a aproximadamente R$ 12 bilhões.

O governo argumenta que o mecanismo permitirá financiar a política pública sem comprometer a meta fiscal, uma vez que os recursos já estão previstos no Orçamento e seriam apenas redirecionados.

Ministério das Cidades calcula custo de R$ 11 bilhões

Os estudos conduzidos pelo Ministério das Cidades indicam que a gratuidade nos fins de semana poderá custar aproximadamente R$ 11 bilhões anuais, valor inferior ao montante reservado na proposta.

A estimativa foi elaborada em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e deverá ser publicada ainda em novembro.

Segundo Giancarlo Moreira Gama, assessor especial da Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana e coordenador dos estudos sobre tarifa zero, o levantamento analisou cem municípios de diferentes regiões e portes.

Foram considerados os custos operacionais dos sistemas de ônibus e a quilometragem percorrida nos fins de semana, quando a circulação de veículos é menor do que nos dias úteis.

O Ministério das Cidades calcula que a operação de todo o sistema de transporte coletivo urbano ao longo da semana represente um custo anual próximo de R$ 70 bilhões.

Como a oferta de ônibus é reduzida aos sábados e domingos, Gama considera que o valor previsto na PEC será suficiente para financiar a gratuidade.

Empresas de ônibus estimam custo de até R$ 20,8 bilhões

A Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) apresenta uma avaliação diferente.

Segundo a entidade, seriam necessários aproximadamente R$ 17 bilhões anuais para oferecer transporte gratuito aos sábados, domingos e feriados exclusivamente nos ônibus urbanos.

Caso a política também contemple metrôs e trens, a estimativa sobe para R$ 20,8 bilhões.

Marcos Bicalho, diretor de gestão da NTU, explica que a demanda aos domingos corresponde a cerca de 45% do movimento de um dia útil. Aos sábados, o percentual chega a aproximadamente 70%.

A entidade também considera a possibilidade de aumento da procura pelo transporte coletivo após a implantação da gratuidade, o que exigiria uma ampliação de aproximadamente 20% na oferta de ônibus.

Bicalho reconhece que os cálculos são aproximados, diante da ausência de uma base nacional consolidada de informações sobre os sistemas de transporte urbano.

Apesar das divergências, o representante das empresas considera positiva a criação de uma fonte federal de financiamento.

“Para quem não tem nada, ter R$ 12 bilhões já é um primeiro passo”, afirmou.

Segundo a NTU, o custo anual do transporte coletivo urbano brasileiro é de aproximadamente R$ 90 bilhões. Dessa forma, o aporte federal previsto representaria entre 13% e 14% das despesas totais do setor.

Caso os recursos transferidos pela União não sejam suficientes, os municípios poderão ter de complementar o financiamento com receitas próprias ou reduzir a oferta de ônibus, com possíveis impactos sobre a qualidade do serviço.

Analistas divergem sobre suficiência dos recursos

A proposta também provoca avaliações diferentes entre economistas e especialistas em finanças públicas.

Tiago Sbardelotto, economista da XP, considera que os R$ 12 bilhões poderão ser suficientes para financiar a gratuidade nos ônibus urbanos, mas não necessariamente nos demais meios de transporte coletivo.

Sua estimativa preliminar aponta a necessidade de aproximadamente R$ 16 bilhões anuais para incluir todos os modais.

“Há um risco relevante de que o Tesouro tenha que destinar recursos adicionais para que a proposta seja efetiva”, afirmou.

O economista também alerta que aumentos nos preços dos combustíveis, nos custos trabalhistas e nas despesas de manutenção acima da inflação poderão comprometer o alcance dos recursos previstos.

João Pedro Leme, analista de finanças públicas da Tendências Consultoria, apresenta uma avaliação mais favorável à estimativa oficial.

Para ele, os R$ 12 bilhões poderão ser suficientes, especialmente porque algumas cidades já oferecem transporte gratuito aos fins de semana e não precisariam financiar integralmente uma nova política.

O especialista ressalta, entretanto, que os dados nacionais disponíveis ainda são limitados e que as informações mais recentes sobre o setor são de 2024.

Leme também identifica um obstáculo político para a aprovação da proposta: a resistência de parlamentares à vinculação de aproximadamente um quarto das emendas obrigatórias a uma finalidade determinada pelo governo federal.

Regulamentação terá de garantir qualidade e transparência

Além da discussão sobre o custo, a implementação do passe livre dependerá da definição de regras para a distribuição dos recursos entre estados e municípios.

Ainda não estão estabelecidos os critérios de repasse, as exigências para adesão das prefeituras nem os mecanismos de fiscalização dos contratos com as empresas operadoras.

Rafael Pereira, pesquisador do Ipea e especialista em transportes, defende que a regulamentação seja acompanhada de medidas para ampliar a transparência, a eficiência e a qualidade dos serviços.

“Pode botar todo o dinheiro do mundo, se não melhorar o serviço nem torná-lo mais inclusivo, isso é dinheiro que escoa pelo ralo”, afirmou.

Entre as condições que poderão ser exigidas dos municípios estão a manutenção da oferta de ônibus nos fins de semana, a divulgação dos custos operacionais e a revisão dos contratos de concessão para estabelecer metas de qualidade.

O marco legal do transporte público urbano, aprovado neste ano, já determina que municípios interessados em receber recursos federais forneçam informações sobre bilhetagem, localização dos veículos por GPS e composição das frotas.

A legislação, entretanto, apenas recomenda o aprimoramento dos contratos de concessão, sem tornar essa revisão obrigatória.

Diversas cidades brasileiras já oferecem transporte gratuito

A gratuidade no transporte coletivo aos fins de semana já é uma realidade em diferentes municípios brasileiros.

Na cidade de São Paulo, os ônibus municipais são gratuitos aos domingos. Brasília, Belo Horizonte, Belém, Maceió, Sorocaba, Cuiabá e Juiz de Fora também adotam modalidades de gratuidade aos domingos e feriados.

Florianópolis oferece o benefício no último domingo de cada mês, enquanto São José do Rio Preto mantém tarifa zero aos domingos.

A lista de municípios com experiências de transporte gratuito também inclui Caucaia, Canoas, Itaboraí, Luziânia e Maricá, embora as regras e a abrangência dos programas variem.

A proposta federal deverá estabelecer como essas iniciativas locais serão consideradas na distribuição dos recursos, evitando sobreposições de financiamento e definindo padrões mínimos de atendimento.

Proposta dependerá de negociação com o Congresso

A implementação nacional do passe livre dependerá da aprovação da PEC pelo Congresso e da regulamentação posterior dos mecanismos de financiamento.

O principal desafio político será obter apoio parlamentar para redirecionar parte significativa das emendas obrigatórias, recursos sobre os quais deputados e senadores exercem influência na destinação orçamentária.

Do ponto de vista econômico, o governo precisará demonstrar que o financiamento previsto será suficiente para sustentar a gratuidade sem comprometer a oferta e a qualidade dos serviços.

Se aprovada, a iniciativa representará uma ampliação da participação federal no financiamento do transporte público urbano, atualmente sustentado sobretudo pelas tarifas pagas pelos passageiros e pelos subsídios concedidos pelos governos locais.

A proposta também poderá ampliar o acesso da população ao transporte coletivo para atividades de lazer, cultura, comércio e serviços aos fins de semana, especialmente entre as famílias de menor renda.

DiárioPB com Brasil 247

Redação DiárioPB

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