BRASIL

Lula retoma suas origens para fortalecer a campanha e projetar o futuro

Não é o Lula que se lança hoje em Vila Euclides. Nunca foi. Sempre foi o povo. Sempre foi a vontade do Brasil

Neste domingo, 16 de agosto, quando começa oficialmente a campanha eleitoral de 2026, Lula volta ao lugar onde sua trajetória política ganhou dimensão nacional.
O lançamento de sua candidatura à reeleição será realizado no Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, palco histórico das grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC no final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

A escolha do palco está longe de ser apenas uma decisão de campanha. É um gesto político e simbólico. Foi ali que milhares de trabalhadores e trabalhadoras se reuniram para enfrentar o arrocho salarial, defender direitos e ousar desafiar o medo causado pela repressão feroz da ditadura.

Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, nasceu daquele movimento como uma liderança nacional da classe trabalhadora.

Foi também daquele ambiente de mobilização que se formou parte da experiência política que levaria à fundação do Partido dos Trabalhadores e, posteriormente, à extraordinária caminhada eleitoral de Lula.
Da Vila Euclides à Presidência da República, passando por derrotas, sabotagem incessante das forças reacionárias, vitórias, prisão e retorno ao Palácio do Planalto, há uma trajetória que se confunde com capítulos seminais da democracia brasileira.

Voltar agora àquele estádio equivale, portanto, a fechar um círculo iniciado há quase cinco décadas. O sentido geral da trajetória traçada é o original. Ali nasceu o Lula, ao mesmo tempo líder e instrumento do povo mobilizado para construir um novo projeto de país.

O significado mais importante da escolha da Vila Euclides está justamente na combinação única entre memória e futuro. Lula retorna ao ponto de partida para iniciar uma vez mais uma nova etapa de sua caminhada política em meio à transformação inacabada das estruturas arcaicas do país.
O trabalhador que subia em mesas para falar a milhares de metalúrgicos tornou-se um dos maiores líderes políticos e populares da história brasileira. No caminho, surgiu um estadista, campeão da luta contra a desigualdade, com reconhecimento internacional.

Há, agora mais do que nunca, uma dimensão decisiva: a defesa da soberania nacional.

O Brasil entra na campanha eleitoral de 2026 sob pressão externa. As palavras e ações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recolocam em discussão uma concepção de poder hemisférico que ameaça a autonomia dos países latino-americanos. A defesa, por Trump, de uma reativação da chamada Doutrina Monroe representa, nesse contexto, uma tentativa de recuperar a ideia de que a América Latina deve permanecer sob uma esfera de influência de Washington. Esse domínio, blefa o secretário de Estado Marco Rubio, “nunca mais será questionado”.

Para o Brasil, não se trata de uma questão abstrata de política internacional. A soberania está diretamente relacionada à capacidade de o país escolher seus governantes sem coação, defender território e riquezas, definir suas políticas econômicas e sociais, estabelecer suas relações comerciais e decidir seus interesses estratégicos sem interferências de uma potência estrangeira.

É nesse ambiente que a defesa da soberania por Lula ganha materialidade eleitoral e nacional. O tarifaço e as sanções impostas pelos Estados Unidos e as iniciativas de pressão e interferência sobre a política brasileira mostram que a disputa de 2026 não ocorre em um vazio internacional. Interesses externos poderosos, em crise de sua hegemonia, pretendem influenciar os rumos do país. E, para isso, contam com uma candidatura que explicitamente opera para atrair sanções contra o Brasil e sabotar o processo democrático.

A resposta brasileira não pode ser a submissão. Tampouco deve ser a imprudência. Deve ser a afirmação serena, firme e consistente dos interesses nacionais.

A lembrança da Vila Euclides reforça esse sentido. Lula surgiu politicamente durante uma ditadura que limitava liberdades e reprimia a organização dos trabalhadores. Naquele momento, defender a autonomia sindical e a capacidade de organização popular era também defender a possibilidade de o país construir uma democracia.

Hoje, a ameaça é diferente, mas a questão de fundo permanece: quem decide os destinos do Brasil?

É justamente nesse ponto que a experiência acumulada por Lula será colocada à prova. O candidato que volta à Vila Euclides terá muito a mostrar — e será cobrado por isso.

Terá de apresentar resultados e propostas para a saúde, a educação, o emprego, a indústria, a redução das desigualdades e a soberania tecnológica. Terá de mostrar o que pretende fazer para ampliar a presença das mulheres nos espaços de poder e nas oportunidades econômicas. Terá de explicar como o país pode transformar suas riquezas naturais em desenvolvimento, emprego e capacidade produtiva em meio à tarefa de regeneração inegociável dos diversos biomas ameaçados.

A recente descoberta de petróleo na Margem Equatorial acrescenta uma questão estratégica a esse debate. O desafio não se resume a produzir petróleo. É decidir como uma riqueza dessa dimensão poderá contribuir para a transição energética limpa, o desenvolvimento nacional, para a indústria, para a pesquisa científica e para a melhoria das condições de vida da população do Norte e do Nordeste, conciliando exploração responsável e proteção ambiental.

Em todos esses temas, a história de Lula oferece credenciais, mas não dispensa respostas. O passado pode explicar a confiança de parte do eleitorado, mas não substitui um programa para o futuro, programa que não poderá deixar de contemplar a centralidade do papel do Estado na liderança do desenvolvimento.

Na saúde, será preciso mostrar como consolidar e ampliar políticas públicas capazes de atender às necessidades da população. Na questão das mulheres, será necessário avançar não apenas em políticas específicas, mas na presença feminina nos centros de decisão do Estado e da economia. Na política industrial, o desafio será transformar crescimento em capacidade produtiva, inovação e empregos de qualidade.

O mesmo vale para a política externa. O Brasil terá de continuar diversificando relações, ampliando mercados e construindo parcerias que reduzam vulnerabilidades e aumentem sua margem de autonomia. Em um mundo marcado pela disputa entre grandes potências, soberania também significa não depender de uma única potência.

A escolha da Vila Euclides ganha força exatamente por colocar tudo isso em perspectiva.

Aquele estádio foi palco de trabalhadores que aprenderam que organização, mobilização e independência eram condições para conquistar direitos. Quase meio século depois, Lula retorna ao mesmo lugar diante de um país muito diferente, mas ainda confrontado com a necessidade de defender sua democracia, reduzir desigualdades e afirmar seus interesses diante de pressões externas.

A política que olha apenas para o passado se transforma em memória. A política capaz de transformar memória em projeto usa a história como ponto de partida para construir o que ainda não existe.

Por isso, o gesto de Lula neste domingo não deve ser compreendido como uma celebração nostálgica de sua trajetória. É uma tentativa de dizer que as origens ainda importam, mas que o destino precisa ser outro.

A Vila Euclides foi o ponto de partida de uma caminhada que levou Lula ao centro da vida política brasileira. Agora, do mesmo palco, começa uma nova disputa. O desafio será convencer o país de que a experiência acumulada ao longo dessa caminhada é capaz de produzir respostas para os problemas do presente e, sobretudo, para as exigências do futuro.

Desta vez, Lula volta à Vila Euclides não para começar uma história.

Mas para projetar os próximos capítulos dela — com a democracia, o desenvolvimento e a soberania nacional no centro do projeto brasileiro. Não é o Lula que se lança hoje em Vila Euclides. Nunca foi.
Sempre foi o povo. Sempre foi a vontade do Brasil.

DiárioPB com Brasil 247

Redação DiárioPB

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