Uma investigação da agência Reuters revelou que a família do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou projetos de criptomoedas em uma máquina bilionária de arrecadação, enquanto investidores individuais acumulavam perdas expressivas. Segundo a reportagem, publicada em 1 de junho, quatro empreendimentos cripto associados aos Trump geraram ao menos US$ 2,3 bilhões em lucros para a família desde o retorno de Trump à Casa Branca.
Do outro lado da operação, mais de 1 milhão de investidores registravam perdas líquidas também estimadas em US$ 2,3 bilhões até o fim de abril, de acordo com análise da Reuters baseada em registros de blockchain, documentos corporativos, comunicados de empresas ligadas aos Trump, declarações públicas e entrevistas com executivos do setor.
O padrão identificado pela Reuters é simples e explosivo: a família Trump assumiu pouco ou nenhum risco financeiro direto, usou seu nome, sua influência política e sua capacidade de mobilização para promover ativos digitais, atraiu compradores no auge da euforia cripto e capturou ganhos bilionários enquanto investidores comuns ficaram com o prejuízo.
O caso mais simbólico é o da moeda digital $TRUMP, uma “meme coin” lançada em janeiro de 2025, às vésperas da posse de Trump. A engenheira de projetos Fatime Elrgdawy, da Califórnia, investiu US$ 2 mil depois de ver a promoção do ativo associada ao presidente eleito. “Se Trump estava colocando seu nome por trás disso, devia ser um investimento legítimo”, relatou ela à Reuters.
O resultado foi devastador. No fim de maio, sua posição valia menos de US$ 120. “Não há mais esperança”, afirmou. Em retrospecto, ela disse ver o ativo como “apenas um esquema de pump and dump”, expressão usada para descrever operações em que um ativo é promovido artificialmente antes de ser vendido por quem lucra com a alta inicial.
Segundo a Reuters, o roteiro se repetiu em quatro frentes: a World Liberty Financial, principal aposta cripto da família; a moeda $TRUMP; a American Bitcoin; e a AI Financial Corp, antiga ALT5 Sigma. Em todos os casos, os Trump teriam entrado com pouco risco, promoveram os projetos por meio de Donald Trump Jr. e Eric Trump, e colheram ganhos enquanto compradores enfrentaram fortes quedas de valor.
A World Liberty Financial, principal veículo cripto dos Trump, rendeu mais de US$ 1,4 bilhão à família com a venda de tokens de governança. O projeto prometia “construir e democratizar um novo sistema financeiro para o benefício de milhões”, mas seus tokens despencaram de valor. A Reuters estima que os investidores da World Liberty acumularam perdas de US$ 674 milhões.
A reportagem aponta ainda que uma entidade chamada DT Marks DEFI LLC recebe 75% da receita das vendas de tokens da World Liberty. Essa empresa é 70% controlada pelo Donald J Trump Revocable Trust, que administra os investimentos do presidente e é supervisionado por seus filhos, e 30% por outros integrantes da família Trump.
A Casa Branca não comentou diretamente os cálculos da Reuters nem os relatos dos investidores prejudicados. A porta-voz Anna Kelly afirmou apenas que “todas as ações do presidente Trump e de sua administração são tomadas no melhor interesse do povo americano”. Ela também declarou que “nem o presidente nem sua família jamais se envolveram — ou jamais se envolverão — em conflitos de interesse”.
Especialistas ouvidos pela Reuters, no entanto, avaliaram que o enriquecimento da família presidencial em um setor regulado pela própria administração Trump representa um conflito ético sem precedentes na história moderna dos Estados Unidos, ainda que possa ser legal desde que não envolva troca direta de favores regulatórios ou acesso político.
Outro projeto citado é a moeda $TRUMP, promovida pelo próprio Trump em rede social com a mensagem “GET YOUR $TRUMP NOW”. Eric Trump a chamou de “o meme digital mais quente da Terra”. Pouco depois, o ativo atingiu sua máxima histórica e despencou. Segundo a Reuters, a moeda já caiu 97% em relação ao pico de janeiro de 2025. Mesmo assim, teria gerado cerca de US$ 616 milhões para a família Trump, enquanto compradores perderam mais de US$ 700 milhões.
A investigação também analisou a ALT5 Sigma, depois rebatizada como AI Financial Corp. A empresa levantou US$ 750 milhões com venda de ações e usou US$ 717 milhões para comprar tokens da World Liberty. Eric Trump e Donald Trump Jr. celebraram a operação na Nasdaq e venderam o negócio como uma ponte entre as criptomoedas e o mercado financeiro tradicional. As ações, porém, despencaram de mais de US$ 9 em agosto de 2025 para US$ 0,75 em abril de 2026, gerando perdas estimadas em US$ 675 milhões para investidores.
Um aposentado de Nova York contou à Reuters que colocou US$ 60 mil de suas economias de aposentadoria na empresa após ouvir sobre a ligação com Trump. No fim de maio, o investimento valia cerca de US$ 5,3 mil. “Fui enganado e estou envergonhado”, disse ele.
No caso da American Bitcoin, outro projeto associado aos filhos de Trump, investidores externos perderam mais de US$ 200 milhões, segundo a Reuters. Eric Trump recebeu participação de 9% na empresa, sem que a reportagem tenha encontrado evidência de aporte financeiro próprio. Mesmo após a queda das ações, sua fatia ainda valia mais de US$ 70 milhões no fim de abril.
A Reuters ouviu 27 investidores individuais. A maioria afirmou conhecer o histórico de falências, negócios fracassados e controvérsias empresariais de Donald Trump, mas acreditou que sua volta à Presidência e o apoio de seus filhos tornariam os projetos lucrativos. Muitos admitiram ter feito pouca ou nenhuma diligência antes de investir. Os sentimentos relatados variam entre arrependimento, raiva, vergonha e esperança de recuperação.
John Paul Rollert, professor adjunto da University of Chicago Booth School of Business, afirmou que investidores deveriam ter se perguntado se a família Trump ganharia dinheiro mesmo se os projetos fracassassem. Se a resposta fosse positiva, disse ele, “você está chegando mais perto do que parece ser um golpe”.
A reportagem lembra que Donald Trump já havia sintetizado, anos antes, a lógica de seu modelo de negócios baseado em licenciamento de marca. “Os acordos de licenciamento são os melhores de todos porque não há risco”, disse Trump à Reuters em 2016. “Os acordos de licenciamento são melhores porque você não coloca nenhum capital.”
No universo cripto, essa lógica parece ter sido elevada a uma escala inédita. Com a Casa Branca nas mãos, o nome Trump se tornou um ativo financeiro em si mesmo — capaz de atrair milhões de dólares de investidores, impulsionar projetos especulativos e transferir o risco para a base compradora. O escândalo revelado pela Reuters mostra que, enquanto a família presidencial lucrou bilhões, investidores comuns ficaram na outra ponta da operação, arcando com perdas igualmente bilionárias.
Com Brasil 247
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