As cidades também possuem memória. Nem sempre ela está registrada em livros, fotografias ou documentos oficiais. Muitas vezes permanece escondida em lugares mais discretos: numa história repetida ao cair da tarde, numa fotografia amarelada guardada em gavetas antigas, num verso que atravessa gerações sem perder o sentido. A sobrevivência dessa memória raramente acontece por acaso. Em algum momento, alguém decide protegê-la.
A história da Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz começa precisamente nesse gesto.
Quando a entidade foi fundada, em 1976, Itabaiana vivia as transformações de um país que avançava rapidamente em direção à urbanização e à modernidade. Estradas aproximavam distâncias, novos meios de comunicação alteravam hábitos e o ritmo da vida parecia acelerar em todas as direções. Em meio a esse movimento, um grupo de cidadãos percebeu algo que continua atual: comunidades que deixam de cultivar suas referências culturais acabam perdendo parte de sua capacidade de compreender a própria trajetória.
A criação da Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz nasceu dessa consciência.
Não se tratava apenas de homenagear um poeta ilustre da terra. A iniciativa representava o reconhecimento de que a obra de Zé da Luz continha muito mais do que literatura. Em seus versos estavam preservados modos de falar, de sentir, de observar a paisagem e de interpretar a experiência humana. Ao transformar a oralidade sertaneja em criação poética, ele registrou aspectos da vida nordestina que dificilmente encontrariam espaço nos relatos oficiais da história.
Os fundadores da Sociedade compreenderam que proteger esse legado significava proteger algo maior. Significava preservar uma forma de conhecimento construída pela experiência cotidiana de gerações inteiras.
Essa percepção aproxima a trajetória da instituição de uma tradição frequentemente esquecida quando se fala de cultura no Brasil. Grande parte do que hoje reconhecemos como patrimônio cultural não chegou até nós por força de políticas permanentes ou estruturas consolidadas. Sobreviveu porque comunidades decidiram assumir a responsabilidade de transmitir adiante aquilo que consideravam valioso. A memória coletiva, afinal, não se conserva sozinha. Ela exige cuidado, vigilância e, sobretudo, compromisso.
Ao longo de cinco décadas, a Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz transformou esse compromisso em ação concreta. Através da biblioteca comunitária, do teatro, das atividades educativas, dos encontros literários, das oficinas e das inúmeras iniciativas voltadas à valorização da cultura popular, a instituição consolidou-se como um espaço de encontro entre gerações. Mais do que preservar documentos ou promover eventos, ajudou a criar condições para que a memória permanecesse viva e acessível.
Seu trabalho produziu algo que dificilmente pode ser medido em números. Formou leitores, despertou vocações artísticas, incentivou pesquisas, fortaleceu vínculos comunitários e contribuiu para que muitos jovens descobrissem que a cultura de sua própria região possuía valor, beleza e significado.
Talvez seja essa uma das funções mais importantes das instituições culturais. Elas não apenas guardam o passado. Elas ampliam as possibilidades do futuro. Ao oferecer referências, narrativas e experiências compartilhadas, ajudam cada geração a compreender de onde veio e, consequentemente, a imaginar para onde deseja seguir.
Por isso, os cinquenta anos da Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz representam mais do que uma marca cronológica. Representam a continuidade de um esforço coletivo iniciado por cidadãos que compreenderam que a cultura não é um luxo nem um ornamento. É uma das formas pelas quais uma comunidade reconhece a si mesma.
Hoje, quando tantas transformações ocorrem simultaneamente e a velocidade do presente parece reduzir o espaço da lembrança, a existência de instituições como esta adquire significado ainda maior. Elas funcionam como pontos de referência em uma paisagem em constante mudança. Lugares onde o passado permanece disponível não como nostalgia, mas como fonte de aprendizado e pertencimento.
Cinco décadas depois, a chama acesa pelos fundadores continua iluminando novos caminhos. E talvez esse seja o legado mais importante da Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz: demonstrar que a preservação da cultura não é apenas um ato de respeito à memória. É também um gesto de confiança no futuro.
Porque toda comunidade precisa de estradas para seguir adiante. Mas precisa, igualmente, de lembranças que lhe recordem quem ela é.
Por Palmari de Lucena
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