Após ter a venda de produtos suspensa por duas vezes pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Ypê reconheceu a necessidade de uma ampla reestruturação industrial e apresentou um plano de investimentos de cerca de R$ 130 milhões para adequar sua fábrica em Amparo, no interior de São Paulo.
As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo. O plano de qualidade da empresa foi elaborado após a própria Ypê detectar contaminação microbiológica em lotes de lava-roupas interditados pela Anvisa. O caso ganhou forte repercussão política nas últimas semanas, quando lideranças e militantes bolsonaristas passaram a atacar a agência reguladora e a difundir teorias conspiratórias, insinuando uma suposta perseguição contra a empresa.
A nova decisão e o próprio reconhecimento das falhas pela Ypê desmontam a narrativa bolsonarista. A empresa admite agora a necessidade de profundas mudanças estruturais, incluindo investimentos pesados em sistemas de tratamento de água, controle microbiológico e modernização industrial.
Segundo Sergio Pompilio, diretor jurídico e de assuntos corporativos da Ypê, o plano foi reformulado nas últimas semanas e tem como prioridade a segurança sanitária da produção. “Tem um foco muito grande no tratamento da água”, afirmou.
A Anvisa deve analisar nesta sexta-feira (15) um recurso apresentado pela empresa, após retirar o tema da pauta na quarta-feira (13). Apesar das medidas já anunciadas anteriormente, a agência determinou em maio um novo recolhimento de produtos e a interrupção da fabricação de parte dos itens produzidos na unidade paulista.
Investimento foi ampliado após inspeção detectar 88 falhas
Em reunião realizada na Anvisa em 9 de abril, a Ypê havia informado que pretendia investir entre R$ 100 milhões e R$ 110 milhões em um período de 12 meses. Entre as medidas previstas estavam a implementação de sistemas avançados de tratamento de água, a inauguração de um laboratório de microbiologia com tecnologia de padrão farmacêutico e a ampliação dos processos de sanitização da fábrica.
Na ocasião, a empresa afirmou que 59% das melhorias planejadas até 2027 já haviam sido executadas. No entanto, após nova inspeção sanitária realizada em abril, órgãos de vigilância apontaram 88 “não conformidades” na fábrica de Amparo, levando a empresa a ampliar o orçamento da reestruturação para R$ 130 milhões.
“O plano tem objetivos de curto, médio e longo prazo. Você não consegue mudar uma fábrica da noite para o dia. A nossa maior tranquilidade vem do nosso novo sistema de qualidade e segurança, que garante que a partir do dia em que a Anvisa nos autorizar a voltar a fabricar, 100% dos produtos estão aptos para uso”, declarou Pompilio.
Anvisa vê “alto risco sanitário”
Em nota, a Anvisa afirmou que a apresentação do plano pela empresa não representa homologação automática das medidas propostas. Segundo a agência, o foco continua sendo a verificação das condições de controle sanitário, rastreabilidade, monitoramento microbiológico e cumprimento das Boas Práticas de Fabricação.
A agência também informou à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) que identificou “fragilidades sistêmicas” na unidade industrial de Amparo. De acordo com a nota técnica, as falhas configuram “situação de alto risco sanitário relevante em razão da potencial exposição da população consumidora a produtos com desvio de qualidade microbiológica”.
Ainda segundo a Anvisa, a própria Ypê informou durante a inspeção que mantinha 142 lotes de produtos em estoque com análises microbiológicas consideradas insatisfatórias.
Denúncia partiu da Unilever
As inspeções realizadas pela Anvisa em 2025 e 2026 tiveram origem em denúncias feitas pela multinacional anglo-holandesa Unilever, dona de marcas como Omo, Comfort e Cif, conforme revelou a Folha. Os testes apresentados pela empresa concorrente apontaram a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em produtos da Ypê.
A Anvisa afirma que a presença da bactéria foi posteriormente confirmada por análises laboratoriais contratadas pela própria Ypê.
DiárioPB com Brasil 247
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