
O uso crescente da inteligência artificial na produção de cordéis tem provocado debates e críticas entre artistas e pesquisadores da cultura popular, especialmente na Paraíba. Em feiras realizadas no estado e em João Pessoa, tem sido cada vez mais comum encontrar poetas utilizando IA tanto na criação dos versos quanto na produção das capas dos folhetos.
A prática tem gerado preocupação por representar uma ruptura com a tradição do cordel, construída desde o início do século XX. Entre as décadas de 1910 e 1920, mestres como Noza (Inocêncio da Costa Nick), em Juazeiro do Norte (CE), foram fundamentais para consolidar a xilogravura como elemento essencial das capas, utilizando matrizes de madeira entalhadas manualmente.
Para xilogravuristas, a substituição do trabalho artesanal pela tecnologia impacta diretamente sua subsistência. Muitos desses artistas têm na xilogravura seu principal meio de renda e sustento familiar. Além disso, grande parte não domina ferramentas digitais, mantendo como princípio o trabalho manual e o uso de instrumentos como goivas para esculpir a madeira.
A produção de um cordel envolve técnicas específicas, como a definição de tema, o uso de métrica com sete sílabas poéticas, rimas consoantes e estrofes estruturadas em sextilhas ou setilhas, além de linguagem coloquial e narrativa. Já a xilogravura exige materiais e processos próprios, como ferramentas de corte (goivas), tinta gráfica, rolo de borracha, papel adequado e pressão manual,com baren ou colher de pau, para a transferência da imagem.
Como comunicador, foram realizadas entrevistas com poetas sobre o uso da inteligência artificial na criação de cordéis e capas. Parte deles se mostrou favorável à tecnologia, alegando que fornecem as informações e que a IA apenas auxilia na construção do texto, acrescentando palavras, revisando conteúdos e criando imagens com aparência mais realista.
No entanto, profissionais da área apontam problemas. Com 30 anos de atuação como designer gráfico, avalio que as imagens geradas por inteligência artificial seguem um padrão repetitivo, o que dificulta a identificação da autoria e compromete a originalidade das obras.
Depoimentos de artistas publicados em matérias e redes sociais reforçam a insatisfação com o uso da tecnologia. A repulsa predomina, embora alguns ainda utilizem recursos da máquina em etapas específicas do processo criativo ou em experiências pedagógicas.
“Não vejo nenhuma necessidade de lançar mão desses artifícios, desses truques, desses malabarismos para enganar o leitor. Acho uma fraude”, afirma o artista Viana. “É um corpo sem alma, mesmo que os versos fiquem bonitos”, acrescenta.
Na mesma linha, o cordelista, professor e doutorando Paiva Neves, de Maracanaú (CE), se posiciona de forma contundente contra o uso da IA. “Sou radicalmente contra, porque perde o calor de uma coisa essencialmente humana”, declara.
O poeta paraibano Fábio Mozart, cordelista, escritor e jornalista, também fez testes com a tecnologia e desaprovou o resultado. Segundo ele, ao propor um tema para a inteligência artificial criar um cordel, identificou problemas logo de início. Além de rimas trocadas, a IA não utilizou um dos elementos fundamentais da construção poética, a métrica, entre outros erros básicos na elaboração dos versos.
A discussão também chegou aos meios de comunicação. Alguns poetas da Academia de Cordel do Vale do Paraíba foram entrevistados em um programa de rádio com audiência em todo o estado. As opiniões se dividiram, alguns se posicionaram a favor, enquanto outros foram contrários ao uso da tecnologia. A repercussão foi imediata nas redes sociais, com a maioria dos comentários criticando o uso da inteligência artificial na criação de cordel.
A preocupação também é compartilhada por Antônio Barreto, poeta de Salvador com mais de 200 folhetos publicados. Ele afirma que a inteligência artificial não substitui a sensibilidade humana. “A inteligência artificial não tem coração, não tem sentimento, não tem intuição, não tem alma. É um crime, dói no coração”, diz. Após testar a tecnologia, Barreto relata ter encontrado diversos erros em um cordel gerado por IA. “Na primeira estrofe, achei trinta e cinco erros”, conta.
O cordelista e pesquisador Marco Haurélio também critica o avanço da padronização estética provocada por essas ferramentas. Para ele, a diversidade é essencial para a arte. “As variações de qualidade são indispensáveis à evolução de qualquer produção artística. Ideais de beleza e harmonização não servem à arte, a arte se rebela”, afirma.
O avanço da inteligência artificial no cordel, portanto, levanta um debate que vai além da tecnologia, envolvendo identidade cultural, valorização do trabalho artesanal e os limites entre criação humana e automatização.
Sérgio Ricardo Santos é fotojornalista, colunista do Portal DiárioPB e designer gráfico com mais de 30 anos de atuação, dedicado à valorização da cultura popular.
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