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O Patrimonialismo e os seus malefícios

Como sempre, meu intuito ao expor minhas ideias e posicionamentos nesta coluna é no sentido de levar a você, leitor e leitoras, um mínimo de conhecimento teórico, visando dar a todos e todas uma base empírica do conhecimento humano que nos ajude a compreender melhor o mundo que vivemos, a entender melhor o porquê das coisas e como elas se processam.

Durante minha passagem dentro do movimento do movimento sindical, uma das minhas preocupações era a ausência da formação política da classe trabalhadora, a falta do conhecimento dificulta a condução do processo de conscientização, como liderar uma categoria que não tem o menor conhecimento sobre sua história, seus direitos, deveres e aspirações, é como guiar um cego.

Daí a necessidade de incentivar a busca ao conhecimento. As elites econômicas e políticas do Brasil sempre desdenharam deste fato, achando que, ao levar o conhecimento as classes menos favorecidas, iriam criar problemas de como dirigir a massa que passaria a questionar a forma de como se daria essa condução, entendem, até os dias de hoje, ser mais fácil conduzir uma massa leiga, inconsciente, sem questionamentos, dócil e apática. Porém, essa elite também esqueceu de estudar e compreender que, negar o conhecimento, a educação, gera também, o embrutecimento do povo, a perda do senso de civilidade e, consequentemente, seu retorno a barbárie.

O homem é um ser coletivo e, durante séculos, vem aprimorando seus conhecimentos através das ciências e das artes na incessante busca de uma humanidade sociável, pautada no aumento do nosso nível civilizatório. E isso só será possível com a socialização do saber, com a difusão do conhecimento, senão voltaremos a Idade Média onde o saber, o conhecimento, era restrito a Igreja e aos nobres, um passado do qual não podemos nos orgulhar.

A questão é que parte dessa população, endeusada pelo Capitalismo, pela busca incessante do lucro e das riquezas, pelo egoísmo e pela falta de humanidade, esquecendo que são um só povo, desejam se desassociar dos demais, tornando um mundo com duas classes antagônicas: Os possuidores, mandatários, inteligentes, cultos, donos dos meios de produção e os demais, “o povo”, trabalhadores, serviçais, incultos, “quase” escravos, necessários apenas para produzir os bens e serviços necessários para manter em funcionamento da máquina do Estado, gerando os meios necessários para a manutenção e o bem estar da classe dominante.

Neste último “7 de setembro” ficou bem nítido o nível de civilidade a que chegamos. O Presidente, em seus arroubos golpistas, se aproveita da ingenuidade, da falta de conhecimento da população, até da falta de valores éticos e morais por parte das nossas elites políticas, econômicas e judiciarias e tenta impor ao Brasil, uma nova forma governo, um governo ditatorial, um regresso a “Idade das Trevas”. Em total desrespeito aos “demais”, em total desrespeito às Leis, as normas de civilidade alcançadas pela humanidade ao longo dos séculos, tenta impor as suas vontades como representante de parte dessa elite “burra”, dessa elite que não lê, que não estuda que, na maioria das vezes “estar elite”, não por mérito e sim por herança. E é esse povo “burro” que para aumentar seus pastos para a criação de gado, para aumentar suas áreas de plantio, mandam de forma criminosa atear fogo as matas, queimando milhões de hectares de florestas, esquecendo daquele ensinamento básico da Professora de biologia explicando o processo da “fotossíntese”. Depois reclamam, fazem de conta que não sabem o porquê da seca, das enchentes, das mutações climáticas, dos estragos, calamidades, que geram sofrimento a milhões de famílias.

O que o Presidente fez neste feriado do 7 de setembro, talvez ele não saiba, mas o cara, o grupo político que o mantém no poder sabe, esse pessoal é quem realmente manda, é quem determina, é quem paga para que se produzam as situações. O atual mandatário da nação, que é a cara e a alma de 50% ou mais do povo brasileiro, que o elegeu, que por desconhecimento ou por maldade, ou por ganância, utilizaram a narrativa de um processo histórico que não é novo, um processo que já foi renegado, já foi debatido exaustivamente e declarado ruim, péssimo, degradante para o processo civilizatório porém, como você não sabe, faltou a escola no dia dessa aula, esse povo, essa elite que se arvora como classe dominante vem e quer empurrar de goela abaixo do povo brasileiro uma proposta vencida, um projeto de Brasil que irá beneficiar apenas a esse povinho burro. A teoria política a que me refiro é o Patrimonialismo, um conceito desenvolvido pelo sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), no fim do século XIX.

E o que diabos é isso? No que consiste o Patrimonialismo? Como o próprio termo indica, patrimonialismo deriva das palavras patrimôniopatrimonial e pode ser definido como uma concepção de poder em que as esferas pública e privada confundem-se e, muitas vezes, tornam-se quase indistintas. Calma, vou lhe explicar. Trocando em miúdos é quando o governante mistura as bolas e trata as questões Públicas (do povo) como suas. Assim sendo, um líder político é qualificado como patrimonialista quando, ao assumir um cargo na esfera pública (o de Presidente, por exemplo), acaba “instrumentalizando”, isto é, criando mecanismos de controle a estrutura estatal para satisfazer as suas necessidades pessoais, ou seja, privadas. Está captando a mensagem?

Nesse sentido, é frequente no patrimonialismo o aparecimento de fenômenos sociopolíticos como o nepotismo, quando os interesses de grupos, da família se sobrepõem aos interesses coletivos, do Povo. A prática do nepotismo consiste em familiares de um determinado detentor de cargo público (prefeito, deputado, presidente etc.) serem beneficiado por ele, que lhes emprega, valendo-se da influência que tem, em cargos públicos auxiliares: assessoria, secretaria etc. O Estado, nesse sentido, é compreendido como uma extensão do foro privado de quem ocupa um posto político.

O Estado encarado como patrimônio, segundo Weber (e outros autores da mesma linha), é um obstáculo à eficiência da máquina pública, já que a racionalidade impessoal (sem interferência de assuntos privados) que qualifica o Estado nos moldes do liberalismo do século XIX não pode ser exercida. No Estado em que não há impessoalidade, os interesses públicos são sempre prejudicados em favor dos interesses privados.

Nesse sentido, é comum que, somado à falta de impessoalidade, esteja o personalismo político. O que isso significa? O personalismo político é uma espécie de rede de relações público-privadas nas quais prevalecem os “arranjos” pessoais, como o “apadrinhamento” e o “conchavo” para se conseguir aprovações de leis em casas legislativas ou, no âmbito econômico, a aprovação de licitações públicas para determinadas empresas etc. Qualquer semelhança não é apenas mera coincidência.

É vergonhoso enxergar a que ponto chegamos, me dá náuseas ver milhares de pessoas, vestidas de verde amarelo, muitas estudaram, tiveram vida universitária, vieram de famílias abastardas, e a única justificativa que encontro para esse povo que defende o indefensável é que, no dia em que a Professora deu essa aula eles faltaram, senão é mau caratismo mesmo.

 

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Marcelino Chagas

Empresário, Professor e Ativista Político.

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