CRÔNICAS DO COTIDIANO

O legado da geração 60 precisa ser considerado

Rui Leitão Tenho orgulho de ter feito parte de uma geração de jovens que se reconhecia como protagonista da história do país. A tão falada “geração dos anos 60” conviveu, no Brasil, com a cena política da militarização. Vivíamos sob um regime ditatorial que despertou a necessidade de movimentos de resistência. A turbulência política desse período fez com que a juventude se organizasse para enfrentar o Estado repressor. A predisposição natural dos jovens para a rebeldia está sempre carregada de uma essência revolucionária.

Havia a consciência de quanto era importante o engajamento político na luta por igualdade e justiça social. Os jovens se mobilizaram em manifestações e protestos, reivindicando democracia, direitos humanos e liberdade de expressão, contribuindo para uma efervescência cultural e artística no Brasil, com mensagens de contestação. Questionaram e romperam com padrões tradicionais de comportamento, procurando valorizar a liberdade individual.

Essa geração deixou um legado importante na história, fazendo com que as que a sucederam se inspirem nos movimentos sociais e políticos por ela empreendidos, não só em nosso país, mas em todo o mundo. Essa marca contestadora produziu novas manifestações políticas, recusando vinculação partidária e posicionando-se fora da esfera de poder de qualquer organização. Foi um momento histórico que podemos chamar de “cultura-revolta”, apoiada, talvez, na afirmação de Freud: “a felicidade só existe ao preço de uma revolta. Nenhum de nós se satisfaz sem enfrentar um obstáculo, uma proibição, uma autoridade, uma lei que permita nos avaliar, autônomos e livres”. Essa identidade histórica construída trouxe, sem dúvidas, peso para as gerações posteriores.

Não podemos ignorar que o dinamismo social convoca a juventude a uma atuação de destaque na política, em comparação aos demais grupos sociais, exigindo que ela busque desempenhar um papel ativo e significativo na sociedade brasileira. Todavia, a realidade de miséria, fome e opressão faz com que os jovens não se sintam pertencentes à sociedade. O sistema capitalista faz de tudo para afastar os jovens da ideologia revolucionária. Já dizia Che Guevara: “Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”.

Há, inclusive, um esforço político para manter a juventude alienada, por conta da cultura do consumo, conectada pelas redes sociais e pelas novas tecnologias, afastando-a das questões políticas e sociais. Os jovens precisam atender aos apelos do poeta uruguaio Mario Benedetti, colocados nos versos a seguir transcritos:

“Não se renda, por favor, não ceda. Mesmo que o frio queime, mesmo que o medo morda, mesmo que o sol se ponha e se acalme o vento, ainda há fogo em sua alma, ainda há vida em seu seio. Abra as portas, tire os ferrolhos, baixe a ponte e cruze o fosso, abandone as muralhas que lhe protegeram, volte à vida e aceite o desafio”. O momento crítico que a democracia de nosso país enfrenta necessita que os jovens se decidam a abrir novos espaços de liberdade, rejeitando que falsos líderes os envenenem, fazendo-os perder a confiança em seu poder mobilizador, para que sejam vencidos a desilusão e o medo. E, assim, demonstrarem que são capazes de mudar o mundo. Há 50 milhões de jovens no Brasil, e seu silêncio assusta, quando vemos sob ameaça os princípios democráticos e as liberdades conquistadas com tanto sacrifício. Esse sangue jovem não pode ficar adormecido. Mirem-se no exemplo da geração que enfrentou a ditadura militar, sem medo e com espírito patriótico, em defesa da democracia.

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Rui Leitao

Rui Leitão nasceu em Patos e é radicado em João Pessoa. Jornalista, já foi responsável pela superintendência da Rádio Tabajara.… More »

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