ColunasDisseMinando

Chuva Negra

Uma metáfora cinematográfica para reflexão

Lembro-me da primeira vez que ouvi a expressão “chuva negra”. Foi num daqueles filmes que passavam na TV aberta na madrugada: uma obra dirigida por Ridley Scott no final dos anos 1980, que ilustrou meu imaginário de filmes policiais na última década do século passado.

Nuvens de chuva negra em SP. Foto: Reprodução / Twitter
Nuvens de chuva negra em SP. Foto: Reprodução / Twitter

O filme me intrigava pelo título, que em momento nenhum parecia combinar com a história. Com qual razão haviam batizado um filme com um título tão sem sentido? Não havia nenhum senso que me fizesse perceber a ligação, até revisitá-lo outras vezes.

Assisti Chuva Negra (1989) pelo menos uma meia dúzia de vezes até perceber o diálogo em que era encaixada a metáfora que dava título à obra. Num rompante de sutileza filosófica que murmura entre sangue, balas e lâminas; o antagonista japonês explica o porquê do clima, da atmosfera e da cultura japonesa a um “mocinho” estadunidense (interpretado por Michael Douglas).

Cena do filme Chuva Negra (1989). Imagem: Reprodução / Paramount
Cena do filme Chuva Negra (1989). Imagem: Reprodução / Paramount

Na cena chave, Saito (vivido por Yusaku Matsuda) usa a metáfora da chuva negra que cai no Japão, fruto das bombas atômicas lançadas pelos EUA, para ilustrar o ressentimento da subjugação dos nipônicos após a vitória dos ianques na II Guerra Mundial.

Agora que falamos de cinema e cultura pop, passemos à política: esta semana teve chuva negra no Brasil. Entretanto, a nossa catástrofe não foi despejada por um bombardeio de estrelas e listras pintados na lataria. Nosso drama se deve pelas queimadas causadas pelos grileiros e latifundiários, que destroem os biomas na busca por mais terra para pasto do gado.

Esta semana teve chuva negra no Brasil, e haverá de ter mais. Os resíduos das queimadas da Amazônia e Pantanal são levados pelo vento a distâncias absurdas, se espalhando pelos céus do território nacional.

O céu amanhece tomado por uma densa camada de fumaça em cidades do Sul e Sudeste do país, enquanto a Amazônia é devastada a passos largos; e o Pantanal enfrenta o seu pior período de queimadas em décadas.

Quando a chuva negra se tornará a nossa metáfora filosófica? E o que ela representará para o povo brasileiro?

Mostrar mais

João Jales

João Jales é jornalista e relações públicas. Paraibano de 35 anos vivendo no Rio de Janeiro; atua como produtor, redator e roteirista para empresas, agências e editoriais de Cultura, Esportes, Política, Brasil e Mundo em veículos de comunicação regionais do Sudeste e Centro Oeste, alternando entre redações, roteiros e produções para canais de TV e Youtube. Na mídia paraibana, já colaborou com a Rádio Zumbi, o Grupo WSCom; e o próprio Diário PB, onde foi de redator à Gestor Comercial, e atualmente faz parte do Conselho Editorial.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar
PUBLICIDADE