CRÔNICA À DERIVA

Chico Science 60 anos: o homem que fez a lama falar

Arte: Sérgio Ricardo Santo

Há artistas que aparecem em um momento específico da história.
E há outros que parecem nascer no lugar exato onde o tempo estava esperando por eles.

Chico Science foi um desses casos raros.

Se estivesse vivo, ele completaria 60 anos neste 13 de março. Mas falar de Chico apenas em termos de idade é quase uma contradição. Sua obra sempre pareceu maior que o próprio tempo que teve para existir.

Nos anos 1990, quando o Brasil ainda olhava para os grandes centros culturais do eixo Rio-São Paulo, um grupo de jovens do Recife decidiu fazer algo improvável: reinventar a própria ideia de música brasileira.

No centro dessa revolução estava Chico.

Com a banda Nação Zumbi, ele criou uma linguagem sonora que parecia impossível até então. Maracatu e hip hop. Alfaia e guitarra elétrica. Tradição e futuro dividindo o mesmo pulso.

Nascia ali o Manguebeat.

Mas o manguebeat nunca foi apenas música.

Era também uma forma de olhar para o mundo.

Chico percebeu algo que muita gente ignorava: o mangue, território frequentemente associado à lama e ao abandono, era, na verdade, um dos ambientes mais férteis da natureza. Ali, vida e matéria se transformam o tempo inteiro.

Ele transformou essa imagem em metáfora cultural.

Se o mangue era fértil, também podia ser a cultura das periferias, das ruas, dos bairros esquecidos, dos encontros improváveis entre tradição popular e tecnologia.

E assim surgiu uma das ideias mais poderosas da cultura brasileira: a antena parabólica fincada na lama.

A imagem era simples e revolucionária ao mesmo tempo.
Pés no mangue. Cabeça conectada ao mundo.

Em pouco tempo, o impacto daquele movimento se espalhou muito além de Pernambuco. Os discos Da Lama ao Caos e Afrociberdelia se tornaram referências obrigatórias para quem tentava entender para onde a música brasileira poderia ir.

Mas o mais curioso é que Chico nunca pareceu interessado em criar um movimento histórico.

Ele parecia interessado apenas em fazer a cidade falar.

Falar dos rios, das pontes, das desigualdades, das contradições de um Recife moderno e antigo ao mesmo tempo. Uma cidade onde a tradição popular convive com a pressão urbana e social de um Brasil em transformação.

Quando morreu em 1997, aos 30 anos, ficou a sensação de que uma história tinha sido interrompida cedo demais.

Mas talvez não tenha sido.

Porque algumas ideias não precisam de décadas para existir plenamente. Elas aparecem, explodem e continuam reverberando muito depois que o artista já não está mais ali para explicá-las.

Hoje, novas gerações descobrem suas músicas como se fossem atuais.
Bandas citam o manguebeat como referência.
E Recife continua sendo vista como um dos centros criativos mais vibrantes da música brasileira.

Talvez essa seja a prova mais clara da força de Chico Science.

Ele não criou apenas um som.

Criou uma maneira de imaginar o Brasil.

E enquanto houver alguém disposto a misturar tradição com invenção, rua com tecnologia, cultura popular com o mundo inteiro, aquela antena parabólica ainda estará lá.

Fincada na lama.

Transmitindo futuro.

Se estivesse vivo, Chico Science completaria 60 anos. Criador do Manguebeat, ele transformou o mangue em uma das revoluções culturais mais originais da música brasileira.

Por Sérgio Ricardo Santos
Crônica à deriva

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Sérgio Ricardo

Sérgio Ricardo é fotojornalista, fundador e desenvolvedor do Portal DiárioPB, Rádio DiarioPB, A Nata do Rock, editor, programador e diretor… More »

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