tarjaedonioalves

O título acima sugere uma discussão de cunho filosófico que confesso não querer dar lugar aqui, nesse espaço de conversa com o leitor. Porém, confesso também, não há como evitar tal desdobramento para o tema de nosso papo de hoje. É que duas notícias me chamaram atenção ao longo dessa semana, após as costumeiras consultas diárias aos portais de notícias do mundo, naquilo que os teóricos da comunicação modernos denominam de logosfera. Tal denominação, explico, diz respeito ao espaço de circulação digital da informação em escala global e à disposição de quem possuir os meios técnicos de acessá-lo, ou seja, um computador e uma conexão telefônica por onde trafegarão as informações que deveremos transformar em conhecimento.

As notícias são as seguintes: A) a existência, em Nova York, de uma livraria que vende um livro só, sempre. B) a existência, também nos Estados Unidos, de uma cidade – trata-se de Monovi, no Nebraska – que tem uma moradora só, tornando-se assim, pelo menos para efeito de demografia, a menor cidade do mundo.

A livraria chama-se Ed’s Martian Book, assim mesmo, no singular, por razões óbvias, e fica na Hudson Street, lugar onde o escritor e proprietário do estabelecimento, Andrew Kessler, vende o único livro que escreveu na vida (27,95 dólares o exemplar) intitulado, “Martian Summer: Robot Arms, Cowboy Spacemen, and My 90 Days With the Phoenix Mars Mission”. O livro é o relato de Kessler da missão Phoenix Mars Lander de 2008, contada durante 90 dias dentro do controle da missão, em Tucson, Arizona. A revista americana, Publishers Weekly, chama o livro de “um relato pessoal levemente incomum de determinação científica e teimosia intelectual” que “fornece uma jornada fascinante de descoberta temperada com humor”.

Já a cidadezinha de Monovi, no Nebraska, tem o privilégio de contar com a moradora mais inteligente, rica, bonita, jovem, velha e interessante do lugar, também por razões óbvias. Trata-se de Elsie Eiler, de 77 anos, que desde o ano de 2004 passou a ter esse privilégio quando o segundo morador da localidade, o seu marido, Ruddy, faleceu.

Pois bem! E o que esses dois fatos podem ter em comum para um cronista do imponderável como eu retirá-los do fluxo ordinário dos acontecimentos humanos que formam a equação ordem/desordem do universo em expansão e analisá-los sob o prisma de uma inquietação? É que as duas notícias combinadas, interpretadas em conjunto, analisadas sob o vínculo sutil e secreto que as unem, podem nos ensinar algumas coisas.

 

Cogito que a primeira delas é que o homem – levando-se em consideração as suas duas formas mais importantes de experiência de existência no mundo: a primária, a vida mesma, e a sua representação simbólica pela palavra, metaforizada no livro – não é nem está tão solitário assim na indiferenciação geral do cosmos (consta na notícia que com menos de um mês de existência, a livraria de Andrew Kessler já vendeu mais de 200 livros) como parecemos sempre concluir nos momentos radicais de angústia e de solidão eternas. Quero concluir daqui que esses mais de duzentos leitores de Andrew Kessler emprestaram ao gesto de aquisição do livro o sentido mais radical da sociabilidade humana: o de apostar e de querer compartilhar, mesmo que através apenas da experiência monotemática do autor, a singularidade do sentido de sua existência no universo. E isso é tudo para todos.

Quanto a nossa solitária moradora da cidade de Monovi, no Nebraska, Dona Elsie Eiler, quero entender que a sua insistência em formar sozinha uma cidade (destaca-se na notícia que por ela, Dona Elsie, Monowi terá apenas uma moradora, provavelmente até sua morte, quando a cidade irá desaparecer – “Eu quero continuar aqui até o fim”, insiste ela), quero entender disso, dizia eu, que por si só a sua existência em circunstâncias tão singulares nos dá a prova cabal de que o todo não apenas é formado pelas partes, mas que – principalmente -, as vezes, a parte é que é o próprio todo, também sendo isso muito bom para todos, no que há em tudo de potencialidade exemplar, para todos.

 

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