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A Morte como Esporte

No mesmo fim de semana, enquanto um dirigente morre de Covid-19 na PB, prefeito do Rio autoriza jogos com torcida

Nesta semana começamos a ver o retorno do calendário do futebol brasileiro, que traz de volta os jogos dos campeonatos estaduais. Assim, uma das primeiras federações a pensar o retorno do esporte neste contexto de pandemia foi a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, a FFERJ.

Jogadores do Botafogo protestam no retorno do Cariocão. Foto: BFR / Reprodução

Assim, a federação carioca preparou um conjunto de medidas, a que batizou de “Protocolo Jogo Seguro”, e propôs o retorno da competição, em meio a mais de cem mil casos de Covid-19 confirmados, além da proximidade da marca de dez mil mortos.

Entre os clubes grandes do Estado do Rio de Janeiro, Flamengo e Vasco concordaram com o retorno (o Flamengo, inclusive dividindo o protagonismo com a FFERJ no debate sobre o retorno do futebol no Brasil); enquanto Fluminense e Botafogo se posicionaram contrários ao retorno.

O treinador do Botafogo, Paulo Autuori, fez duras críticas à federação numa entrevista que concedeu À imprensa. Como resultado, o técnico do Glorioso foi suspenso por 15 dias. Para quem não defende o retorno da competição, ser suspenso por duas semanas soa mais como um desejo atendido do que uma punição exemplar.

O Botafogo, antes de golear a Cabofriense na rodada de retorno da competição, entrou em campo sob protesto, com uma faixa que dizia “Jogo seguro é o que respeita vidas.” O craque japonês Honda, atuando pelo Botafogo, se juntou às críticas proferidas por seu treinador. Outro craque, Fred do Fluminense, fez declarações contrárias ao retorno; os atletas tricolores divulgaram manifesto em repúdio ao retorno do Cariocão.

Entre as autoridades, o decreto municipal publicado neste fim de semana estipula a possível data do retorno do público aos jogos do Cariocão. Com cem mil casos e dez mil mortes provocadas pelo coronavírus, e Marcelo Crivella autoriza a lotação de um terço da capacidade do estádios, repeitando os limites de distanciamento social.

Ora, que seria ingênuo o suficiente para acreditar que seu colega torcedor, sentado próximo ao você, não irá abraçá-lo na comemoração de um gol do seu time? Quem, em sã consciência, comparece a um estádio de futebol para assistir um jogo, quando se contam cem mil infectados e dez mil mortos em seu estado?

São perguntas que precisam ser feitas, porque assim como o Campeonato Carioca e o Flamengo são referências no futebol nacional e pressionam pelo retorno; outras federações também acharão viável a possibilidade levantada por estas duas entidades do futebol nacional. Com a CBF “lavando as mãos” e entregando o destino do futebol às federações estaduais, como não imaginar uma maré de retorno depois do mau exemplo dado no Rio de Janeiro?

No caso da Federação Paraibana, que estabeleceu o retorno do Campeonato Paraibano em 18 de julho, fica a dúvida: seguirão o exemplo imprudente dado no Rio; ou seguirá a voz da sensatez e do bom senso após a trágica morte de Eduardo Araújo, dirigente do São Paulo Crystal, que faleceu em decorrência da Covid-19 ?

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João Jales

João Jales é jornalista e relações públicas. Paraibano de 35 anos vivendo no Rio de Janeiro; atua como produtor, redator e roteirista para empresas, agências e editoriais de Cultura, Esportes, Política, Brasil e Mundo em veículos de comunicação regionais do Sudeste e Centro Oeste, alternando entre redações, roteiros e produções para canais de TV e Youtube. Na mídia paraibana, já colaborou com a Rádio Zumbi, o Grupo WSCom; e o próprio Diário PB, onde foi de redator à Gestor Comercial, e atualmente faz parte do Conselho Editorial.

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