CRÔNICA DO DIA

A mão que eu não apertei

Aeroporto de João Pessoa. Eu, na fila para embarcar para o Rio de Janeiro, tentando manter minha bolha de silêncio. Foi então que avistei um homem que parecia em campanha eleitoral eterna: ia de passageiro em passageiro, distribuindo apertos de mão como se fosse artista de novela em sessão de autógrafos.

Chegou a minha vez. Ele vinha acompanhado de uma moça bem jovem e ostentava no peito uma camisa com os dizeres “Todos contra a pedofilia”.

Mão estendida, sorriso ensaiado.

– Não aperto a mão de desconhecido, falei, sem cerimônia.

Ele me olhou, meio ofendido:
– Você não me conhece? Eu sou o senador Magno Malta.

– Nem mais gordo, nem mais magro… não conheço, respondi.

– Mas você assiste televisão? Acompanha jornalismo?

– Assisto todos os jornais, sou bem antenado. E insisto: não lhe conheço. Com licença, meu voo está para sair.

Segui adiante, deixando o senadorzinho arregão com a mão pendurada no ar, carregando aquele olhar de tabaco murcho que políticos fica quando a plateia não reage ao a sua atenção.

A moça ao lado dele parecia surpresa, talvez por ver alguém dizer não à celebridade improvisada. Ou melhor: à subcelebridade, porque, convenhamos, há quem nem isso consiga ser.

Entrei na aeronave rindo por dentro. Pensei no tipo de político que se acha estrela, mas vota contra qualquer proposta que melhore a vida de quem o elegeu. E concluí que, às vezes, negar um aperto de mão é também um ato de resistência.

Por Sérgio Ricardo Santos

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Sérgio Ricardo

Sérgio Ricardo é fotojornalista, fundador e desenvolvedor do Portal DiárioPB, Rádio DiarioPB, A Nata do Rock, editor, programador e diretor… More »

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