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A Locomotiva do Atraso (ou A Elite do Parasitismo)

Uma ilustração do caos brasileiro obtida através dos dados perversos e da simbologia dos fatos

O Instituto Locomotiva resolveu fazer uma pesquisa sobre as pessoas que solicitaram o Auxílio Emergencial do governo federal. Para nossa surpresa, os dados levantados pela pesquisa nos deram um retrato nítido do nível de podridão que recheia a elite da sociedade brasileira. Curiosamente, o nome do instituto nos surge como um criativo título para este texto.

Protesto pela morte do menino Miguel, em Recife. Foto: Twitter / Reprodução.
Protesto pela morte do menino Miguel, em Recife. Foto: Twitter / Reprodução.

Os dados apontaram que uma considerável parte das pessoas mais ricas do país (as chamadas classes A e B) teve a audácia de solicitar a ajuda de pouco mais de meio salário mínimo, destinada à parcela da população que se encontraria em potencial vulnerabilidade durante o período de isolamento da pandemia. Para sermos mais exatos, 34% dos mais ricos solicitaram o auxílio.

Deste terço dos mais ricos que solicitou os recursos destinados nesta situação de calamidade pública, quase 69% teve o seu pedido concedido pelo governo federal. Fazendo as contas, temos cerca de dez porcento dos mais ricos do país, que não só tiveram a sordidez de solicitar o auxílio como estão recebendo o recurso destinado aos mais pobres.

Na mesma semana da divulgação da pesquisa, a alegoria (veja bem, jamais confundir com alegria) da morte do menino Miguel estampa um apanhado substancial desta simbologia da elite perversa brasileira. Como se fosse inabalável, segue esmagando crânios e espremendo a carne dos seus subalternos, na ânsia em sugar a vitalidade do sangue do povo lutador cotidiano. Assim pavimenta sua trilha de ódio, lucro e bem estar; rumo à estação da morte e do atraso.

Uma empregada doméstica que não havia sido poupada durante a pandemia; que trabalhava no símbolo da especulação imobiliária e desrespeito à memória, história e cultura do povo pernambucano (as chamadas “Torres Gêmeas” encravadas no meio do Centro Histórico de Recife) e havia levado seu filho para o trabalho, por não ter com quem deixá-lo.

Patroa branca, loira, casada com um prefeito de uma cidade que não é a que ele reside, que se livra do “incômodo” filho de uma empregada enquanto faz as unhas em plena pandemia. Com uma manicure, obviamente, pois ela não se daria ao trabalho de ter de poupar alguma pessoa que fosse, para não conseguir manter suas unhas feitas em plena pandemia. A serviço da morte, a patroa desembarca o anjo Miguel no elevador de serviço, que sobe, e cria asas, e vai para o céu.

A doméstica, funcionária na folha da prefeitura de uma cidade que ela não trabalhava, passeou com o cachorro da patroa enquanto o pior acontecia. Porque, obviamente, a patroa branca não se dá ao trabalho dela mesma sair e passear com seu cachorro. E porque a doméstica, sem o direito ao isolamento, já havia pegado corona, transmitido pelo marido da patroa. Imunidade de rebanho.

Este é o retrato da elite brasileira. A elite que solicita o auxílio emergencial destinado aos pobres, a elite que fura a quarentena para manter seus privilégios, a elite que clama por golpe militar, a elite que acha que pode fazer o que quiser, porque ninguém está olhando.

Os despossuídos espreitam. Estamos de olho. E faremos este trem descarrilar.

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João Jales

João Jales é jornalista e relações públicas. Paraibano de 35 anos vivendo no Rio de Janeiro; atua como produtor, redator e roteirista para empresas, agências e editoriais de Cultura, Esportes, Política, Brasil e Mundo em veículos de comunicação regionais do Sudeste e Centro Oeste, alternando entre redações, roteiros e produções para canais de TV e Youtube. Na mídia paraibana, já colaborou com a Rádio Zumbi, o Grupo WSCom; e o próprio Diário PB, onde foi de redator à Gestor Comercial, e atualmente faz parte do Conselho Editorial.

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