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A Hipocrisia como crença

Como é possível validar a paternidade de um violador?

Nesta semana nos deparamos com mais uma das infinitas provas que o povo brasileiro falhou enquanto sociedade. Assim, todos os noticiários do país falaram sobre o caso do estupro e gravidez de uma menina de dez anos de idade no Espírito Santo. Noticiaram que o estuprador era da família da criança, e que isso já acontecia há pelo menos quatro anos.

Foto: Getty Images

Iniciou-se então a saga desta pequena, que vivenciou um turbilhão de fatos e emoções ao longo dos dias, sem saber muito bem o porquê de tudo isso. Assim, a Justiça brasileira concedeu à menina o aborto legal, seguro, em ambiente esterilizado e com os profissionais de saúde capacitados para tal intervenção.

Entretanto, os médicos capixabas se recusaram a realizar o procedimento na menina, que foi então encaminhada para uma localidade que se propôs a acolhê-la, bem como realizar o procedimento. A criança foi mandada para um hospital na capital pernambucana, Recife.

O que acontece paralelamente a essa movimentação é surreal: de alguma maneira, a militante da extrema direita Sara Giromini recebe a informação do nome e a localização da menina, e começa uma intensa mobilização de fundamentalistas religiosos para se dirigir para a porta do hospital, com o intuito de impedir que a criança passasse pelo procedimento.

Por força das mulheres guerreiras de Pernambuco, o Fórum de Mulheres local se mobilizou e partiu para o embate no Hospital em Recife. Chegando lá, o movimento feminista conseguiu fazer o enfrentamento aos fundamentalistas religiosos, que deixaram o local. Felizmente, a menina realizou o aborto seguro e, sem maiores complicações, descansa no pós-operatório.

A pergunta que você deve estar se fazendo desde a hora que começou a leitura deste texto é a mesma que me fiz acompanhando a história: e o estuprador? Por que ninguém se pergunta por onde anda o tio estuprador, agora foragido da justiça?

Outra pergunta que nos fazemos é: quem vazou a informação sobre a criança para Sara Winter? Porque é fundamental lembrar que trata-se de um vulnerável, menor de idade e que o caso corre em segredo de justiça. Ora, se era segredo, como vazaram a informação? E onde está o estuprador foragido?

É simples. Tem gente do próprio governo que apoia o estuprador. Afinal, é preferível a validação da paternidade de um tio violador do que a atribuição e o reconhecimento da paternidade de Thammy Gretchen, que foi garoto propaganda de uma marca de perfumes na campanha de dia dos pais. É vergonhoso ser brasileiro em 2020.

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João Jales

João Jales é jornalista e relações públicas. Paraibano de 35 anos vivendo no Rio de Janeiro; atua como produtor, redator e roteirista para empresas, agências e editoriais de Cultura, Esportes, Política, Brasil e Mundo em veículos de comunicação regionais do Sudeste e Centro Oeste, alternando entre redações, roteiros e produções para canais de TV e Youtube. Na mídia paraibana, já colaborou com a Rádio Zumbi, o Grupo WSCom; e o próprio Diário PB, onde foi de redator à Gestor Comercial, e atualmente faz parte do Conselho Editorial.

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