Uma pizzaria localizada na Avenida Argemiro de Figueiredo, em João Pessoa, decidiu transformar sua preferência política em motivo de constrangimento para parte de seus potenciais clientes. Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial, a Pizzaria Mangiare publicou uma mensagem nas redes sociais pedindo que eleitores de esquerda não frequentem o estabelecimento.
A publicação foi feita no perfil oficial da pizzaria no Instagram. Em tom hostil, o estabelecimento classificou os eleitores de esquerda como “eleitores de larápios” e declarou que, embora não pudesse impedir a entrada dessas pessoas, não tinha interesse em recebê-las.
A manifestação provocou reações nas redes sociais, com internautas criticando a postura do comércio e outros fazendo comentários irônicos sobre a decisão.
É perfeitamente legítimo que o proprietário de uma empresa tenha suas preferências políticas, apoie candidatos e expresse suas opiniões. O problema surge quando esse posicionamento é utilizado para hostilizar cidadãos e tentar afastar clientes por causa de suas escolhas eleitorais.
Uma pizzaria é um estabelecimento comercial, não um comitê partidário. Seu público é formado por pessoas de diferentes classes sociais, religiões, opiniões e orientações políticas. Transformar uma simples ida para comer uma pizza em uma espécie de teste ideológico é uma atitude que merece críticas contundentes.
O mais preocupante é a tentativa de associar milhões de eleitores a uma ofensa generalizada. Chamar os apoiadores de Lula de “eleitores de larápios” não constitui argumento político, debate democrático ou crítica fundamentada. É uma forma de desqualificação coletiva que substitui o diálogo pelo insulto.
A democracia pressupõe justamente o contrário: reconhecer que pessoas podem votar em candidatos diferentes sem perder seus direitos, sua dignidade ou o direito de serem tratadas com respeito.
Se o proprietário da Mangiare tem o direito de apoiar Flávio Bolsonaro, os eleitores de Lula também têm o direito de exercer suas escolhas políticas sem serem tratados como cidadãos de segunda categoria.
E existe uma ironia nessa situação: o comerciante que se manifesta livremente nas redes sociais graças à liberdade de expressão decide, ao mesmo tempo, dirigir uma mensagem de hostilidade a pessoas que exerceram o mesmo direito democrático de escolher seu candidato.
A liberdade de expressão protege o debate político, mas não transforma toda conduta discriminatória em algo automaticamente legítimo. A declaração de que o estabelecimento não deseja atender determinado grupo de clientes também pode suscitar questionamentos jurídicos, cuja análise depende das circunstâncias concretas e da legislação aplicável.
Do ponto de vista comercial, a mensagem ainda pode produzir um efeito contrário ao pretendido: em vez de atrair consumidores, pode afastar pessoas que não desejam gastar seu dinheiro em um ambiente no qual se sintam hostilizadas por suas convicções.
O Brasil já enfrenta polarização política suficiente. Não há necessidade de levar essa divisão para todos os espaços da vida cotidiana, muito menos para um lugar onde as pessoas deveriam poder se reunir, conversar e compartilhar momentos de lazer.
Uma pizzaria não precisa esconder as preferências políticas de seu proprietário. Mas transformar essas preferências em uma declaração pública de desprezo por uma parcela da população revela uma compreensão preocupante do respeito ao consumidor e da convivência democrática.
Quem empreende deve compreender que o dinheiro que mantém um negócio funcionando não tem partido. Clientes de esquerda, de direita ou sem identificação política merecem ser tratados com educação e respeito, dentro das mesmas regras.
Ninguém é obrigado a concordar com Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro político. Mas ninguém deveria ser insultado ou constrangido por causa do candidato em quem votou.
A Mangiare tem o direito de expressar suas posições políticas, assim como os consumidores têm o direito de avaliar essa atitude e decidir onde querem gastar seu dinheiro. Em uma sociedade democrática, o respeito não pode depender da preferência eleitoral de cada pessoa.
No fim das contas, a melhor resposta à intolerância é reafirmar um princípio básico: divergências políticas se enfrentam com argumentos, não com humilhação. E uma pizzaria que pretende escolher seus clientes pela ideologia deles precisa estar preparada para que esses mesmos consumidores também façam suas escolhas.
Redação/DiárioPB