O empresário Francinaldo Bandeira, presidente da Associação Via Folia, responsável pela gestão e organização do circuito de pré-carnaval na Avenida Epitácio Pessoa, em João Pessoa, utilizou as redes sociais para anunciar que não pretende mais contratar artistas que se posicionem politicamente contra o bolsonarismo.
Em suas declarações, o dirigente foi além das relações profissionais e afirmou que também não deseja a proximidade de pessoas petistas com sua família. A manifestação deixa evidente que suas futuras contratações e relações de trabalho poderão ser condicionadas à orientação política de artistas, empresários e outros profissionais.
“Se você é petista e não gosta de mim porque eu sou bolsonarista, então não chega perto de mim. Eu não tenho interesse em trabalhar com nenhum petista”, declarou Francinaldo. Em seguida, direcionou o recado aos artistas que se posicionam contra Bolsonaro, afirmando que não pretende voltar a contratá-los.
A postura do empresário merece uma reflexão, sobretudo por sua ligação com a história do Folia de Rua, movimento que ajudou a fundar e que se tornou uma das principais expressões da cultura popular e do pré-carnaval de João Pessoa.
É justamente entre os artistas que contribuíram para consolidar a festa, muitos deles reconhecidos por suas posições progressistas e por sua identificação com a esquerda, que a declaração de Francinaldo provoca questionamentos. Afinal, a cultura popular sempre foi um espaço de liberdade de expressão, diversidade de ideias e convivência entre pessoas com diferentes visões de mundo.
É legítimo que Francinaldo tenha suas convicções políticas e se declare bolsonarista. Da mesma forma, qualquer cidadão tem o direito de votar no candidato que considerar melhor, defender suas ideias e manifestar publicamente suas preferências políticas. Esse direito não pode valer apenas para um lado do espectro ideológico.
O problema começa quando a divergência política passa a ser utilizada como critério para excluir profissionais do mercado de trabalho. Ao anunciar que deixará de contratar artistas por suas posições políticas, o empresário transforma uma diferença de pensamento em possível instrumento de retaliação profissional.
Artistas não devem precisar esconder suas convicções políticas para ter acesso ao trabalho. O talento, a qualidade artística, a contribuição cultural e a capacidade profissional deveriam ocupar lugar central nas decisões de contratação, especialmente quando se trata de eventos que mobilizam recursos, público e interesses ligados à cultura de uma cidade.
O Folia de Rua cresceu como manifestação coletiva, reunindo artistas, músicos, produtores, foliões e trabalhadores de diferentes origens e pensamentos. Uma festa popular dessa dimensão pertence à cidade e à sua população, não a uma corrente política específica.
Por isso, causa preocupação que um dirigente ligado à organização de eventos culturais anuncie publicamente a intenção de afastar artistas em razão de suas posições ideológicas. Ainda que cada contratante tenha autonomia para tomar decisões dentro dos limites legais, é necessário refletir sobre a responsabilidade pública de quem ocupa espaços importantes na produção cultural.
A liberdade de escolha de um empresário não deve ser confundida com a inexistência de consequências sociais e culturais para suas atitudes. Boicotar profissionais por suas opiniões pode aprofundar divisões, empobrecer a diversidade artística e transformar espaços de celebração popular em ambientes de exclusão política.
Francinaldo tem o direito de ser bolsonarista. Os artistas que ele afirma não querer contratar também têm o direito de ser de esquerda, apoiar o PT, votar em Lula ou defender qualquer outra posição política dentro da lei.
A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que saibamos respeitar o direito de cada pessoa pensar diferente.
Quem ajudou a construir uma festa que se tornou símbolo da cultura popular de João Pessoa deveria compreender que a riqueza de uma manifestação cultural está justamente na diversidade de seus artistas e de seu público. Quando a política passa a determinar quem merece ou não uma oportunidade profissional, o prejuízo pode ultrapassar as relações individuais e atingir a própria pluralidade cultural que ajudou a tornar o Folia de Rua uma referência na Paraíba.
Redação/DiárioPB