Palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada celebraram a conquista da Copa do Mundo pela Espanha neste domingo (19), reunindo-se diante de telas improvisadas, em estádios e nas ruas. Segundo a Al Jazeera, a festa não esteve ligada apenas ao resultado esportivo, mas também ao apoio demonstrado pelo governo espanhol e por personagens do futebol do país à causa palestina.
A Espanha derrotou a Argentina por 1 a 0 na prorrogação, com gol de Ferran Torres, e conquistou seu segundo título mundial. Em meio às comemorações palestinas, um dos nomes mais lembrados foi o de Lamine Yamal, de 18 anos, protagonista da campanha espanhola e símbolo de solidariedade para milhares de moradores de Gaza.
Meses antes do Mundial, um gesto do atacante do Barcelona havia percorrido o mundo. Em maio deste ano, durante a celebração do título espanhol conquistado pelo clube catalão, Yamal apareceu sobre o ônibus da equipe segurando uma grande bandeira da Palestina diante de milhares de torcedores.
As imagens circularam rapidamente pelas redes sociais e chegaram à Faixa de Gaza, onde o jogador passou a ser tratado como uma figura de identificação e resistência. Dias depois, artistas palestinos pintaram um mural retratando o atacante com a bandeira palestina.
A obra foi realizada sobre os escombros de edifícios destruídos pela guerra no campo de refugiados de Shati, também conhecido como Beach Camp, na Cidade de Gaza. O mural tornou-se um símbolo da gratidão de parte da população palestina ao jovem espanhol.
“De Gaza, você é mais amado do que imagina”
A homenagem provocou forte repercussão entre moradores de Gaza e gerou milhares de manifestações nas redes sociais. O estudante palestino Muhammed Akram escreveu:
“Para alguns, pode parecer um gesto simples, mas aqui em Gaza, ele toca o coração de maneiras que as palavras não conseguem descrever. Obrigado, Lamine Yamal. De Gaza, você é mais amado do que imagina.”
Outro depoimento amplamente compartilhado foi o do estudante Haitham el-Masri.
“Apenas 14 segundos… mas foram suficientes para me fazer chorar.”
Ele prosseguiu:
“Não consigo descrever completamente o que sentimos ao ver pessoas que ainda têm a coragem de dizer a verdade e de se posicionar ao lado de um povo que sofre um dos genocídios mais horríveis da história moderna. Agradecemos a todos que nos apoiaram, a todos que falaram por nós, a todos que se recusaram a ficar em silêncio e escolheram a humanidade.”
Após a celebração do Barcelona, Yamal publicou em seu perfil no Instagram uma fotografia segurando a bandeira palestina. A postagem recebeu milhões de curtidas e milhares de comentários, entre eles o do escritor e poeta palestino Mosab Abu Toha.
“Nós te amamos, de Gaza”, escreveu.
Festa pelo título ocupou ruas de Gaza e da Cisjordânia
Segundo a Al Jazeera, palestinos acompanharam a final da Copa em telões improvisados, cafés, centros comunitários e pequenos estádios. Após o apito final, moradores saíram às ruas para comemorar o título espanhol.
Bandeiras da Espanha e da Palestina foram exibidas lado a lado. Imagens mostraram famílias reunidas diante de telas montadas de forma precária, crianças festejando e torcedores ocupando ruas e praças, apesar das dificuldades impostas pela guerra e pela ocupação.
A celebração refletiu uma identificação política construída nos últimos anos entre a população palestina e a Espanha. O governo espanhol assumiu posições críticas às operações militares de Israel em Gaza, defendeu o reconhecimento do Estado palestino e cobrou maior atuação internacional em defesa de um cessar-fogo.
A mobilização também demonstrou como o futebol pode ultrapassar o resultado esportivo e adquirir significado político. Para muitos palestinos, a conquista espanhola foi interpretada como a vitória de uma nação que se posicionou de maneira mais firme em defesa de seus direitos.
Sánchez defendeu Yamal de ataques de Israel
A manifestação de Yamal repercutiu no cenário político espanhol. O presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez, saiu em defesa do jogador após críticas do ministro da Defesa de Israel, Israel Katz.
Em publicação na rede social X, Sánchez afirmou:
“Aqueles que consideram que hastear a bandeira de um Estado é ‘incitar ao ódio’ ou perderam o juízo ou foram cegados pela própria ignomínia.”
Na mesma mensagem, acrescentou:
“Lamine apenas expressou a solidariedade com a Palestina que milhões de nós, espanhóis, sentimos. Mais um motivo para nos orgulharmos dele.”
Horas antes, Katz havia criticado o jogador.
“Como ministro da Defesa do Estado de Israel, não ficarei em silêncio diante da incitação contra Israel e contra o povo judeu”, declarou.
O ministro também afirmou:
“Espero que um clube grande e respeitado como o FC Barcelona se desmarque dessas declarações e deixe claro, de forma inequívoca, que não há lugar para a incitação nem para o apoio ao terrorismo.”
Barcelona adotou postura mais reservada
No Barcelona, o gesto recebeu uma avaliação mais reservada. O técnico Hansi Flick revelou ter conversado com o atacante após o episódio.
“São coisas que normalmente não gosto”, disse.
Questionado sobre a atitude de Yamal, o treinador acrescentou:
“Eu disse a ele que, se ele quiser fazer isso, a decisão é dele. Ele já é maior de idade.”
Flick também ressaltou que, em sua visão, o foco da equipe deve permanecer no futebol.
“Nós nos dedicamos a jogar futebol e temos que levar em conta o que o público espera de nós.”
O gesto de Yamal foi elogiado por organizações e ativistas favoráveis à causa palestina. O movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções agradeceu publicamente ao jogador e afirmou que “o esporte tem o poder de tornar visível o que o mundo não deve esquecer”.
Combate ao racismo e à islamofobia
Filho de pai marroquino e muçulmano, Lamine Yamal já havia se posicionado anteriormente contra manifestações de racismo e islamofobia no futebol espanhol.
Após ouvir cânticos anti-muçulmanos durante um amistoso da seleção espanhola, publicou em suas redes sociais:
“Sou muçulmano. Ontem, no estádio, ouvi o cântico ‘Quem não pula é muçulmano’. Eu sei que estava jogando pelo time rival e que não era nada pessoal contra mim, mas, como muçulmano, isso não deixa de ser desrespeitoso e intolerável.”
Agora campeão do mundo, Yamal encerra a competição como um dos principais nomes da nova geração do futebol internacional. Seu desempenho em campo consolidou sua condição de estrela, mas sua imagem entre os palestinos está ligada também ao gesto realizado durante a festa do Barcelona.
Enquanto os espanhóis celebravam o segundo título mundial de sua história, palestinos em Gaza e na Cisjordânia ocupada também comemoravam. Entre bandeiras, telas improvisadas e ruas marcadas pela guerra, a vitória espanhola tornou-se uma demonstração de como o futebol, a política e a solidariedade podem se encontrar.
O gesto de Yamal, realizado durante poucos segundos sobre um ônibus em Barcelona, atravessou fronteiras e chegou até os escombros de Gaza. Meses depois, a conquista da Copa pela Espanha foi celebrada pelos palestinos como um triunfo esportivo, mas também como uma oportunidade de agradecer a um país e a um jogador que decidiram não permanecer em silêncio.
Com Brasil 247