O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, reclamou da divulgação de uma reportagem sobre o filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro (PL) em mensagem enviada ao empresário Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias, no dia 1º de agosto de 2025. Cerca de uma hora depois da publicação, o texto saiu do ar, apontou uma reportagem divulgada nesta quinta-feira (21) pelo Intercept Brasil.Os diálogos indicam que Vorcaro teve papel central no financiamento do filme e buscou interferir na repercussão pública do projeto. De acordo com a reportagem, o banqueiro, preso atualmente, não apenas bancou a produção, mas também cobrou explicações de uma pessoa ligada ao portal que publicou a primeira notícia sobre o longa.
O filme Dark Horse ainda não tinha aparecido na imprensa quando o Portal Leo Dias publicou uma reportagem sobre a produção. A matéria saiu às 11h daquele dia (01/08/2025) e antecipava detalhes do projeto, como a sinopse, nomes da equipe e informações sobre seleção de elenco. Logo depois, Vorcaro demonstrou irritação com a divulgação.
Às 12h07, o banqueiro enviou mensagem a Thiago Miranda pelo WhatsApp. “Opa tudo bem? Achei que divulgar que ta fazendo o filme muito ruim, nao acha?”, escreveu Vorcaro. Miranda respondeu pouco depois e concordou com a reclamação. “Acho muito!! Tínhamos combinado de não divulgar nada. Vou entender agora com o Mário”, afirmou.
A reportagem aponta que a referência possivelmente envolve o deputado federal Mario Frias (PL-SP), citado pelo Intercept Brasil em apurações anteriores sobre o contrato de produção executiva do filme. Vorcaro voltou a criticar a divulgação. “Mas soltou no Leo. Mto ruim”, escreveu o dono do Banco Master.
Pedido para apagar a notícia
Conforme as novas mensagens reveladas pelo Intercept, Thiago Miranda disse ao banqueiro que tomaria providências. “Acabei de ver. Vou pedir pra apagar”, afirmou. Em seguida, segundo as mensagens descritas pelo Intercept Brasil, ele relatou ter falado com “Mário e Flávio”, em uma possível referência a Mario Frias e ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O Intercept Brasil afirma que Flávio Bolsonaro havia negociado com Vorcaro R$ 134 milhões para financiar o longa, dos quais R$ 61 milhões foram efetivamente repassados. A reportagem também ressalta outra possibilidade: Miranda poderia se referir ao empresário Flávio Carneiro, apontado por ele, em entrevista a O Globo, como sócio oculto de Daniel Vorcaro.
Miranda atribuiu o vazamento ao início de “gravações e testes” e tentou reduzir o incômodo do banqueiro. “Mas não vai aparecer nome de ninguém. Eles me garantiram isso”, escreveu. Pouco depois, às 12h49, ele afirmou: “Já mandei deletar”.
Vorcaro manteve a crítica e respondeu: “Mas você mesmo divulgar”. Miranda assumiu responsabilidade pelo episódio. “Vc tá certo”, disse. “Como ninguém sabe de nada, eles fizeram e não passou por mim. Foi erro meu. Mas já mandei apagar”, acrescentou.
Às 13h06, Miranda informou que a providência havia surtido efeito. “Resolvido. Flavio disse que vai te dar uma ligada tb”, escreveu. Depois disso, os dois encerraram a troca de mensagens com a promessa de um encontro quando Vorcaro estivesse em Brasília.
O que dizia a reportagem retirada do ar
O Intercept Brasil informa que a troca de mensagens não inclui a íntegra da matéria apagada pelo Portal Leo Dias. Um tuíte do próprio jornalista Leo Dias, publicado às 11h03 daquele 1º de agosto, confirma a divulgação do texto sobre o filme de Bolsonaro.
A reportagem retirada do ar trazia o título “História de Bolsonaro vira filme nos EUA; ex-presidente será retratado como herói”. O texto apresentava uma sinopse de Dark Horse, que descrevia Bolsonaro como “um homem corajoso e determinado, impulsionado pela carreira política após a decepção com os rumos do seu amado país”.
A matéria também informava que a produção do longa havia começado e citava o diretor Cyrus Nowrasteh, o produtor Michael Davis e a diretora de elenco Ricki G. Maslar. O texto dizia ainda que a equipe buscava atores para interpretar Flávio, Carlos, Eduardo e Michelle Bolsonaro.
A publicação não citava o ator Jim Caviezel, escalado para viver Bolsonaro, nem trazia valores ou detalhes sobre o financiamento do filme. Mesmo sem essas informações, a divulgação incomodou Vorcaro, segundo os diálogos obtidos pelo Intercept Brasil.
Portal Leo Dias alegou dúvidas sobre apuração
Por meio da advogada Hallyne Marques, o Portal Leo Dias afirmou ao Intercept Brasil que retirou o conteúdo do ar após dúvidas internas. “Recebemos o material de uma fonte e, como não estávamos 100% convictos da apuração, acabamos por retirar do ar. A decisão passou por Thiago Miranda, então CEO do portal”, diz a nota.
A defesa de Daniel Vorcaro informou que não iria se manifestar. Thiago Miranda também foi procurado pelo Intercept Brasil para explicar a troca de mensagens, mas não havia respondido até a publicação do texto original.
Após a retirada da matéria, outros sites citaram a publicação inicial do Portal Leo Dias, entre eles Diário do Litoral, Lorena Magazine e Correio. A existência de Dark Horse ganhou repercussão ao longo do segundo semestre de 2025 e passou a aparecer em reportagens de veículos como Intercept Brasil, Veja, Estadão, Folha, O Globo, IstoÉ, Extra, UOL e Metrópoles.
Portal voltou ao tema meses depois
O Portal Leo Dias só voltou a publicar sobre o filme cinco meses depois, em 6 de dezembro de 2025, quando a crise do Banco Master já havia levado à primeira prisão de Vorcaro. Na mesma data, imagens das gravações do longa no Brasil circularam no X.
No dia seguinte, Leo Dias compartilhou no Instagram um vídeo que mostrava Jim Caviezel caracterizado como Bolsonaro. “No último sábado (6/12), o portal Leo Dias trouxe, em primeira mão, bastidores do filme ‘Dark Horse’, que retrata a trajetória pessoal e política de Jair Messias Bolsonaro. Com imagens exclusivas, divulgamos a transformação de Jim Caviezel, conhecido por ‘A Paixão de Cristo’, caracterizado como o ex-presidente. Já neste domingo (7/12), confirmando a notícia antecipada, Flávio Bolsonaro, senador e filho do político, publicou o vídeo mostrando o processo completo de caracterização do astro internacional. Confira!”, escreveu o jornalista.
Em nota, o portal afirmou que retomou o assunto porque as informações haviam se tornado mais consistentes. “As informações sobre o filme eram mais concretas, inclusive com fotos e vídeos das gravações. Além disso, no mês de dezembro recebemos para uma entrevista ao vivo na Leo Dias TV o Flávio Bolsonaro, que falou oficialmente sobre o filme”, declarou.
Vorcaro, Banco Master e o avanço da crise
A Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro pela primeira vez em 17 de novembro, durante a Operação Compliance Zero. No dia seguinte, o Banco Central liquidou o Banco Master. Vorcaro deixou a prisão em 28 de novembro, com medidas restritivas, entre elas uso de tornozeleira eletrônica, obrigação de se apresentar à Justiça e proibição de deixar o município onde morava.
Nesse período, Flávio Bolsonaro visitou Vorcaro pessoalmente, segundo revelaram os portais Metrópoles e G1. O senador confirmou o encontro em entrevista coletiva em 19 de maio e declarou que buscou colocar “um ponto final nessa história”. Ele também disse que teria procurado outro investidor para o filme se soubesse da gravidade da situação. Segundo o ICL, a viagem recebeu ressarcimento com dinheiro público.
Vorcaro voltou a ser preso em 4 de março.
Relação com o Portal Leo Dias
Em entrevista ao jornal O Globo em 18 de maio de 2026, Thiago Miranda afirmou que Vorcaro realizou investimentos milionários para construir um império de mídia sob sua influência antes da prisão e da liquidação do Banco Master. Miranda apresentou ao jornal um contrato de venda de 17% do Portal Leo Dias, por R$ 10 milhões, em 19 de julho de 2024, ao empresário Flávio Carneiro.
Segundo Miranda, Carneiro representaria Vorcaro. Em nota ao Globo, Carneiro negou atuar como sócio oculto do banqueiro.
O Intercept Brasil também cita relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras obtido pelo Estadão/Broadcast. O documento aponta que a empresa Leo Dias Comunicação e Jornalismo recebeu ao menos R$ 9,9 milhões do Banco Master entre fevereiro de 2024 e maio de 2025.
m mensagem enviada ao Intercept Brasil, a advogada de Leo Dias, Hallyne Marques, afirmou que o valor se refere a um contrato de publicidade de um ano com o Will Bank, ligado ao Master, firmado entre 2024 e 2025.
O documento do Coaf também aponta seis transferências feitas pela instituição financeira. Segundo a reportagem, a empresa recebeu ainda R$ 2 milhões de outra companhia abastecida com recursos do banco, a LD Produções, de Flávio Carneiro.
Em janeiro de 2026, Leo Dias divulgou nota em que informou que “Thiago Miranda iniciou processo de transferência da participação societária minoritária no fim de 2025” e reafirmou seu “compromisso com a transparência, a ética jornalística e a correta prestação de informações ao público”.
Miranda atuou nos bastidores de Dark Horse
As mensagens obtidas pelo Intercept Brasil indicam que Thiago Miranda teve atuação ampla nos bastidores de Dark Horse. Segundo a reportagem, o empresário organizou agendas, acompanhou tratativas jurídicas, transmitiu cobranças da produção, monitorou o cronograma financeiro e administrou a repercussão pública do projeto.
Em depoimento à Polícia Federal, Miranda afirmou que fazia a “gestão de crise” de Vorcaro. Ele disse ter conhecido o banqueiro em julho de 2024, durante negociações para venda de participação no Portal Leo Dias. Segundo o empresário, os dois mantiveram contato quase diário até a prisão de Vorcaro. Após a soltura, Miranda ofereceu ações de “marketing de guerrilha” para tentar reverter a “crise de reputação”.
Em 15 de dezembro de 2024, um dia antes do almoço com “o pessoal do filme”, Miranda disse a Vorcaro que a equipe apresentaria “o projeto e valores”. Depois do compromisso, ele pediu para falar com o banqueiro assim que possível.
As conversas mostram também cobranças relacionadas aos aportes financeiros. Em 20 de janeiro de 2025, durante viagem de Vorcaro a Courchevel, nos Alpes franceses, Miranda afirmou que atrapalhava as férias do banqueiro ao insistir no tema.
Ainda assim, ele cobrou uma providência. “Hoje é a data limite daquele primeiro aporte filme. Preciso acelerar. Estamos no laço”, escreveu Miranda, ao enviar print de conversa com Flávio Bolsonaro.
Na conversa encaminhada, Flávio cobrou pagamentos ligados aos roteiristas. “Ela me perturbam e eu te perturbo aqui!! rs”, disse o senador a Miranda. Vorcaro respondeu três minutos depois: “Vou atras aqui”.
Em fevereiro de 2025, Miranda voltou ao assunto e afirmou que “o filme está parado” por dificuldades na conclusão das remessas internacionais. Vorcaro explicou que enfrentava “problema pra fazer o cambio”.
Em março de 2025, diante de debates que envolviam Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias e Vorcaro, Miranda indicou que assumiria a coordenação do projeto. “Quero alinhar com vc para que eu possa assumir tudo daqui para frente”, escreveu.
A sequência de mensagens exposta pelo Intercept Brasil revela uma rede de financiamento, mídia e articulação política em torno de Dark Horse, além da tentativa de conter a divulgação inicial de um filme que ainda não tinha aparecido na imprensa nacional.
Com Brasil 247
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